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Síntese Diária da COP30 – 10 de Novembro

10/11/2025

Dia 1: segunda-feira, 10 de novembro

Preparado pela Equipe de Comunicação da COP30

Áreas temáticas de foco: Adaptação, Cidades, Infraestrutura, Água, Resíduos, Governos Locais, Bioeconomia, Economia Circular, Ciência, Tecnologia e Inteligência Artificial

Resumo Geral:

Elevando a Adaptação por Meio do Poder da Tecnologia

A COP30 foi aberta hoje em Belém com uma poderosa demonstração de solidariedade e compromisso, inaugurando era de ação climática global marcada pela implementação, inclusão e inovação. No dia 1, as Partes adotaram rapidamente a agenda oficial da COP30 — um forte sinal de consenso que reafirma a confiança no multilateralismo e na determinação global de acelerar o Acordo de Paris. Essa adoção antecipada, juntamente com a eleição do Embaixador Ambassador André Corrêa do Lago como Presidente da COP30, definiu um tom claro: esta é uma COP voltada para resultados, transformando compromissos em ações concretas para as pessoas e para o planeta.

A tecnologia surgiu como a força determinante do dia. O Green Digital Action Hub e o AI Climate Institute incorporaram a visão da COP30 para uma transformação digital justa, equipando os países em desenvolvimento com dados, ferramentas e treinamento para projetar suas próprias soluções climáticas. Na Mostra de Inovação Agrícola, foram anunciados novos compromissos para promover a inovação agrícola e sistemas alimentares resilientes às mudanças climáticas, incluindo USD 1,45 bilhão da Fundação Gates para ampliar o acesso a inovações que ajudem os agricultores da África Subsaariana e do Sul da Ásia a se adaptarem a condições climáticas extremas e USD 30 milhões arrecadados pelo Centro Global de Metano (Global Methane Hub) para reduzir as emissões de metano do cultivo de arroz.

Os líderes também avançaram significativamente no financiamento para adaptação e resiliência. O Fundo de Resposta a Perdas e Danos, operacionalizado em tempo recorde, lançou seu primeiro edital de financiamento, enquanto os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs), fornecem mais de USD 26 bilhões para economias de baixa e média renda em 2024. A Declaração de Belém sobre Fome e Pobreza, anunciada na semana passada e endossada por 44 países, lançou uma nova Parceria para Proteção Social Resiliente ao Clima e Financiamento da Agricultura de Pequenos Produtores.  O progresso do Dia 1 instilou um senso renovado de otimismo — provocando que ao elevar a adaptação por meio da tecnologia, o mundo está redefinindo a resiliência, transformando a vulnerabilidade em força e a ambição em ação.

Ações e Resultados Principais:

Negociações:

- A COP30 se inicia em um espírito de colaboração, com as Partes unidas em torno da Agenda.

A adoção da agenda negociada no primeiro dia da COP30 é uma poderosa afirmação de unidade global, sinalizando o compromisso coletivo da comunidade internacional com o multilateralismo e a ação climática conjunta. Em um momento de crescentes tensões geopolíticas e ambientais, esse consenso precoce demonstra a determinação mundial em cooperar além das diferenças e implementar soluções urgentes que protejam as pessoas, acelerem o Acordo de Paris e construam um futuro mais seguro e sustentável.

“Preciso agradecer a todas as delegações pelo fantástico acordo alcançado sobre a agenda na noite passada. Esse acordo não apenas nos permitirá começar a trabalhar intensamente já hoje, como também nos ajudará a explicar ao mundo por que as questões adicionais levantadas são realmente importantes.” — Embaixador André Corrêa do Lago, Presidente da COP30

- Operacionalização Rápida do Fundo de Resposta a Perdas e Danos

O Fundo de Resposta a Perdas e Danos (FRLD) foi operacionalizado em tempo recorde e lançou seu primeiro edital de USD 250 milhões, passando do desenho à execução e abrindo um canal crucial de apoio para países em desenvolvimento na linha de frente da crise climática.

“Esta é uma COP da implementação. Hoje temos grandes novidades nesse sentido. O Fundo de Perdas e Danos, que foi criado recentemente na COP28, já começou a operar. Eles lançaram um edital de US$ 250 milhões, mostrando a rapidez com que esse fundo — criado há menos de dois anos — já está se movendo para a implementação.” — Ana Toni, CEO da COP30

- Embaixador André Corrêa do Lago é eleito Presidente da COP30

O Embaixador André Corrêa do Lago foi eleito Presidente da 30ª Conferência das Partes da ONU sobre Mudanças Climáticas. Ele conduzirá os trabalhos e liderará a agenda ao longo do próximo ano, para acelerar a implementação climática.

Agenda de Ação:

- Liderança e Ação por um Futuro Digital Verde

Os parceiros lançaram o Green Digital Action Hub, uma nova plataforma de cooperação online para aproveitar a inovação tecnológica contra as mudanças climáticas, sediada no Brasil como um legado da COP30. O GDA Hub fornecerá ferramentas, conhecimentos e dados para ajudar as nações a ampliar as tecnologias verdes, reduzir o impacto ambiental da tecnologia e garantir o acesso a soluções digitais sustentáveis para todos. Com base na Declaração da COP29 sobre Ação Digital Verde — apoiada por 82 países e mais de 1.800 partes interessadas.

- Lançamento do AI Climate Institute

O AI Climate Institute (AICI) — uma nova iniciativa global lançada na COP30 – visa  capacitar pessoas e instituições em países em desenvolvimento para utilizar a inteligência artificial (IA) em ações climáticas. Com base na equidade e na sustentabilidade, a AICI se empenhará em promover a IA como uma ferramenta de empoderamento, permitindo que os países do Sul Global projetem, adaptem e implementem suas próprias soluções climáticas baseadas em IA, incluindo modelos leves e de baixo consumo de energia adequados aos contextos locais. O instituto oferecerá programas de treinamento (oficinas para formuladores de políticas sobre conceitos de IA, dados climáticos e exploração de casos de uso; laboratórios avançados para profissionais técnicos; experiência prática na construção de aplicações de IA eficientes em termos de recursos e do mundo real) e um Repositório de Aprendizagem Digital com cursos e estudos de caso sobre aplicações climáticas em diferentes setores.

- Lançamento do Nature’s Intelligence Studio:

▪ Apresentando a Amazônia e outras regiões biodiversas como polos de inovação, o Studio impulsionará a inovação inspirada na natureza para o desenvolvimento sustentável local. Liderado pela Universidade de Oxford (TIDE Centre) em parceria com o INPA e o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), o estúdio terá sede na América Latina e no Caribe, inicialmente em Belém.

▪ Promoverá a pesquisa, o envolvimento político e modelos legislativos para proteger inovações inspiradas na biologia e garantir a partilha de benefícios para os inovadores locais e as comunidades que salvaguardam o banco de ideias da biodiversidade.

▪ Em 14 de novembro, o Studio lançará um “ideathon” com o CAF para apoiar inovadores que desenvolvem soluções inspiradas na natureza, além de apresentar o Atlas de Energia das Inovações da Natureza, uma ferramenta aberta de IA que conecta desafios energéticos da indústria a soluções biomiméticas.

- Acelerando a Infraestrutura Pública Digital (DPI) e os Bens Públicos Digitais (DPG) para o Clima:

O Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos do Brasil, a Aliança de Bens Públicos Digitais (DPGA) e a ITS Rio publicaram um Plano para Acelerar Soluções (PAS) que inclui o lançamento da Coleção DPG Clima — um repositório global de Infraestrutura Pública Digital (DPI) e Bens Públicos Digitais (DPG) para o clima — oferecendo mais de 20 ferramentas de código aberto para pelo menos 30 países que podem aplicar essas inovações em questões como resposta a desastres, energia, água e agricultura.

- Desafio de Inovação DPI para Pessoas e Planeta:

Lançado em conjunto com a JICA, Co-Develop, Fundação Gates, Centro de Infraestrutura Pública Digital (CDPI) e Boston Consulting Group (BCG), e em parceria oficial com a presidência da COP30, este Desafio selecionou cinco inovadores que desenvolvem soluções transformadoras baseadas em Infraestrutura Pública Digital (DPI) para resiliência climática e social, concedendo a cada um deles USD 100.000 em financiamento para apoiar o desenvolvimento e os testes de campo de suas soluções. Os vencedores incluem Trust Carbon, Kazam, Akvo, Rahat e Circularise. Mais informações podem ser encontradas aqui.

- Declaração conjunta dos bancos multilaterais de desenvolvimento para a COP30: Acelerando as ações para adaptação e resiliência

▪ Em Belém, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) anunciaram que, desde 2019, duplicaram o apoio a investimentos em adaptação, destinando mais de USD 26 bilhões para economias de baixa e média renda em 2024.

▪ Para impulsionar ainda mais esse esforço coletivo em direção ao investimento em adaptação, os MDBs lançaram uma nova estrutura para o financiamento da natureza, incluindo: (i) Princípios Comuns para Acompanhar o Financiamento da Natureza e (ii) Guia Prático para a Seleção de Métricas de Resultados. Essas ferramentas foram projetadas para auxiliar no desenvolvimento de produtos financeiros de alta qualidade e atrair mais capital privado para a natureza.

- Campanha Corrida pela Resiliência

▪ Liderada por mais de 40 iniciativas parceiras e 1.700 membros em 164 países, a campanha anunciou que 437 milhões de pessoas — cerca de uma em cada 18 pessoas — agora vivem com maior resiliência climática, apoiadas por USD 4,18 bilhões em financiamento para adaptação e melhor proteção de 18 milhões de hectares de ecossistemas.

▪ Esse esforço de acompanhamento, o primeiro do tipo liderado por atores não estatais, mostra o progresso coletivo em direção à meta de alcançar 4 bilhões de pessoas até 2030, demonstrando que a adaptação inclusiva, liderada localmente e viabilizada por financiamento não apenas protege vidas, mas também gera oportunidades, equidade e desenvolvimento sustentável em todo o mundo.

- O Papel Fundamental do Combate à Fome e à Pobreza pela Justiça Climática

Uma nova Parceria para a Proteção Social Resiliente às Alterações Climáticas e o Financiamento da Agricultura Familiar, foi lançada hoje no âmbito da Agenda de Ação da COP30. A Parceria promove o Plano para Acelerar Soluções (PAS) com objetivos claros e mensuráveis para impulsionar ações e acompanhar o progresso, incluindo o apoio a planos nacionais de implementação liderados pelos países para a proteção social adaptativa, a agricultura familiar e o acesso a soluções hídricas no Benim, Etiópia, Quênia, Zâmbia e República Dominicana.

▪ Até 2028, o plano estabelece um grupo de coordenação conjunta de doadores de financiamento climático para alinhar carteiras em apoio aos esforços de combate à fome e à pobreza.

▪ O lançamento se baseia na adoção, em 7 de novembro, da Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada no Ser Humano por 44 países, um compromisso histórico desenvolvido com a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

- Agricultura Inteligente para o Clima em Escala:

Duas ferramentas digitais inovadoras foram introduzidas para apoiar a agricultura climaticamente inteligente em grande escala:

▪ O Brasil e os Emirados Árabes Unidos, em parceria com a Fundação Gates, a Embrapa, o CGIAR e a ai71, introduziram o primeiro modelo de linguagem grande (LLM) de IA de código aberto do mundo para a agricultura — um avanço rumo a um sistema alimentar global mais resiliente e equitativo.

▪ A ferramenta de previsão de IA centrada no agricultor da AIM for Scale visa capacitar mais de 100 milhões de agricultores até 2028 com percepções em tempo real, fortalecendo a tomada de decisões climaticamente inteligentes, a preparação para riscos e a inovação inclusiva em sistemas agrícolas em todo o mundo.

- Mostra de Inovação Agrícola — US$ 2,8 bilhões para Adaptação e Resiliência de Agricultores e Fortalecimento dos Sistemas Alimentares Globais

▪ Doadores internacionais anunciaram mais de USD 2,8 bilhões para adaptação e resiliência de agricultores, para fortalecer os sistemas alimentares globais.

▪ Em apoio ao chamado da Presidência brasileira da COP30 para fazer desta a “COP da implementação”, os compromissos visam ampliar o apoio a pequenos agricultores em regiões mais pobres que enfrentam os impactos mais severos dos eventos climáticos extremos. Os fundos serão investidos em tecnologias e ferramentas para ajudar agricultores a se adaptarem, construírem resiliência e fortalecerem sistemas alimentares locais que alimentam e empregam bilhões de pessoas.

“A inovação agrícola é o motor da resiliência climática.”
— Mr. Martin van Nieuwkoop, Diretor de Desenvolvimento Agrícola, Fundação Gates

Mobilização Global:

- Hoje marcou a abertura oficial da Zona Verde da COP30, o espaço dedicado da Cúpula onde sociedade civil, instituições públicas e privadas e líderes globais se conectam para promover soluções climáticas concretas, ampliar o diálogo público e fortalecer novas redes e alianças.

▪ Em um painel sobre "O Papel da Mobilização Popular no Enfrentamento da Crise Climática”, Mikaelle Farias, jovem ativista da equipe de Campeões Climáticos Jovens da Presidência da COP30, falou sobre as ações voltadas à inclusão de crianças e jovens no centro desses espaços de negociação oficial, as iniciativas em andamento — como o Acampamento Cidade das Juventudes — e os esforços para garantir que jovens e crianças sejam mencionados nos textos finais das negociações da COP30.

“Esta é a COP com a maior participação de crianças e jovens dos últimos três anos. Estamos vivendo um momento simbólico aqui em Belém, que mostra nossa capacidade de unir forças, construir esforços coletivos e mobilizar para enfrentar a mudança do clima.” 
— Mikaelle Farias, Equipe de Campeões Climáticos Jovens da COP30.

Fonte: COP30

ARTIGO - ÁGUA NA AGRICULTURA E PRODUÇÃO DE ALIMENTO

Foto: Fabio Henrique Torresan

22/02/2021

Por Lineu N. Rodrigues - pesquisador da Embrapa Cerrados (DF)

No dia 22 de março, celebra-se o Dia Mundial da Água. É uma oportunidade para se discutir a importância desse recurso para a vida e para o desenvolvimento econômico e social. É fundamental que o tema seja analisado dentro das suas várias dimensões, sendo preponderante adotar estratégias de manejo que considerem os recursos hídricos de forma integrada, e que almejem uma alocação equitativa, considerando os usos múltiplos da água e a bacia hidrográfica como unidade de referência. Água é sinônimo de dialogar, de compartilhar e de integrar. Não é geradora de conflitos, mas sim de oportunidade para produzir e de criar desenvolvimento.

Nesse contexto, não teria como não aproveitar a oportunidade e trazer para a reflexão o tema água na agricultura e produção sustentável de alimento. Segurança alimentar e hídrica estão no centro das maiores preocupações da sociedade. A água é o principal fator de produção de alimentos. Como balancear produção de alimento e demanda hídrica em um mundo onde cerca de 820 milhões de pessoas não têm acesso à quantidade de alimento suficiente para manter níveis básicos de saúde e onde dois terços da população enfrentarão algum problema de falta de água é o grande desafio a ser enfrentado.

A relação água-alimento é complexa. Esses dois elementos estão intrinsecamente e fortemente interconectados. A complexidade inerente a essa interação é um dos motivos dos debates e disputas, muitas vezes desnecessárias, entre os setores usuários. Mantidas as condições atuais, o aumento na produção de alimentos demandará mais água e poderá aumentar ainda mais as disputas pelo uso da água, reduzindo a qualidade de vida da população. É nesse sentido que a ciência tem papel fundamental. As inovações modificam a situação atual, possibilitando produzir mais sem aumentar as demandas hídricas.

Atender as demandas atuais e futuras por alimento vai requerer um rápido aumento de produtividade, que precisa ser alcançado sem danos adicionais ao ambiente. Para que isso ocorra, é fundamental que os princípios de sustentabilidade sejam parte central das políticas agrícolas. As pessoas estão, em sociedade, cada dia mais conscientes sobre as questões ambientais e têm optado, de forma crescente, por alimentos produzidos nessas bases sustentáveis.

Nesse sentido, o objetivo de produzir mais alimentos deve ser visto dentro de uma abordagem mais ampla, considerando os aspectos de sustentabilidade ambiental, ou seja, buscando produzir mais alimentos com melhor qualidade e com menores danos aos recursos naturais. Para isso é necessário intensificar a agricultura de maneira sustentável e melhorar a eficiência dos sistemas agrícolas, tornando-os mais produtivos. Qualquer estratégia que vise intensificar a agricultura, reduzindo a variação na produção e aumentando a produtividade das culturas, deve necessariamente incluir a irrigação.

A irrigação é tecnologia essencial no xadrez da produção de alimentos. Atualmente, com a variabilidade climática cada vez mais acentuada, não se pode pensar no desenvolvimento de uma política de segurança alimentar e de segurança ambiental que não estabeleça políticas de longo prazo para o desenvolvimento da agricultura irrigada.

No mundo, a agricultura irrigada é responsável por cerca de 40% de toda a produção, viabilizando produzir fisicamente, em uma mesma área, até quatro vezes mais que a agricultura de sequeiro. A grande vantagem da agricultura irrigada, entretanto, está em trazer estabilidade para a produção, o que possibilita planejar estratégias de segurança alimentar e propor políticas públicas de médio e longo prazo.

O desenvolvimento de uma agricultura sustentável passa, necessariamente, pelo uso sustentável dos recursos hídricos, que por sua vez, depende de uma gestão que incorpore os usos múltiplos da água e considere os fundamentos e diretrizes da Política Nacional de Recursos Hídricos. Não se pode pensar em agricultura e desenvolvimento sustentável sem que haja um equilíbrio entre a oferta e a demanda de água. O Brasil é um país de dimensões continentais com grandes diferenças sociais, ambientais e econômicas, o que deixa a atividade de gestão muito mais complexa. Fazer a gestão de recursos hídricos de forma igualitária em todo o País pode levar a conflitos em bacias hidrográficas que já se encontram em estado crítico em termos de disponibilidade hídrica.

A água tem diversas formas e recebe diferentes nomes. A água na agricultura é sinônimo de produção de alimento e segurança alimentar. Aparentemente, a quantidade de água doce renovável anualmente no mundo é muito maior que a quantidade de água necessária para sustentar as demandas dos três usos consuntivos de água (abastecimento doméstico da população; produção industrial; e produção agrícola sob irrigação). Dentre esses usos, a agricultura irrigada é o único que faz uso tanto da água verde (água proveniente da chuva e armazenada no solo) quanto da água azul – água existente nos rios ou aquíferos. Em países tropicais como o Brasil, a água verde representa um componente significativo para a produção e estratégias devem ser desenvolvidas para maximizar o seu uso.

O crescimento das áreas irrigadas, entretanto, não pode mais ser fundamentado apenas no aumento do uso de recursos hídricos. O crescimento desejado e possível é cada vez mais dependente dos ganhos de eficiência nos sistemas já existentes. O desafio da agricultura irrigada é a promoção do irrigar com qualidade. Isso quer dizer que deve ser buscada continuamente uma elevada eficiência e produtividade de uso das águas. A agricultura irrigada deve ser capaz de utilizar os recursos de forma eficiente, com mínimas perdas e deterioração da qualidade da água. Neste cenário, a agricultura irrigada terá a grande oportunidade de contribuir para a segurança ambiental, hídrica e alimentar, podendo ainda contribuir para reduzir os impactos na produção advindos das mudanças climáticas, garantindo alimento em quantidade, qualidade e a custos acessíveis para as pessoas.

As retiradas de água dos mananciais, necessárias para garantir a prática da agricultura irrigada, devem estar previstas nos planejamentos estratégicos, especialmente em cronogramas existentes nos planos de recursos hídricos, conforme as condições climáticas, a vocação dos cultivos regionais, as potencialidades das áreas produtivas e os mercados consumidores e, posteriormente, consolidadas por meio da definição de planos de concessão de outorga de uso de água para irrigação, possibilitando que seja feita uma gestão compartilhada em cooperação e a prevenção com redução dos conflitos.

No olhar da gestão quanto à oferta, deve-se considerar as desigualdades hídricas regionais e ter um olhar diferenciado para as bacias hidrográficas críticas, onde a disponibilidade hídrica já está comprometida, assim como onde a ocorrência de conflitos pelo uso da água já é realidade. No olhar da gestão quanto à demanda, a irrigação precisa de uma gestão com olhar ampliado. O produtor precisa ter uma visão além de sua propriedade e de sua área de produção. É preciso ter sempre uma visão macro da bacia hidrográfica. A irrigação tem que ser feita considerando a bacia hidrográfica. O rio é, na verdade, reflexo daquilo que acontece na bacia como um todo. Ou seja, é preciso olhar a bacia de forma mais integrada, considerar estratégias de conservação de água e solo, que vão refletir diretamente na quantidade e na qualidade das águas.

O Brasil, com 12% da água doce superficial disponível no planeta e 28% da disponibilidade as Américas, é estratégico para suprir o aumento de cerca de 60% da demanda por alimentos, necessários para atender a uma população mundial que em 2050 será de aproximadamente 10 bilhões de habitantes. O sucesso dependerá da capacidade da sociedade em entender estrategicamente o nexo água-alimento. Para responder à pergunta sobre o quanto de água será necessário, é preciso saber antes o quanto de alimento se deseja produzir.

Segurança hídrica e alimentar devem fazer parte de qualquer política de estado que vise ao desenvolvimento e ao bem estar de sua população. Nesse contexto, é importante aprender com os erros do passado e planejar um futuro melhor, que consiste necessariamente em tratar a água como um bem estratégico para o País. Para isso, é preciso integrar a Política Nacional de Recursos Hídricos com as demais políticas públicas. É fundamental definir as prioridades de uso da água, levando-se em consideração as necessidades básicas do País e as especificidades de cada região.

Os avanços tecnológicos na agricultura irrigada vão muito além do desenvolvimento de novos equipamentos de irrigação. Os processos de tomada de decisão estão cada vez mais complexos, com necessidade de decisões mais rápidas, além de depender de análises de quantidade de dados cada vez maiores. Notam-se, nesse campo, avanços significativos relacionados às tecnologias da informação, da comunicação, de big-data e de modelos de inteligência computacional e simulação. As possibilidades tecnológicas são ilimitadas, sendo muito arriscado fazer qualquer previsão sobre o futuro.

Todo esse avanço, entretanto, não será suficiente para o desenvolvimento sustentável se, na gestão da água no meio agrícola, não forem observadas as especificidades da agricultura, que depende da chuva. É preciso criar mais valor e bem-estar com os recursos hídricos disponíveis. Isso não significa, é claro, incentivar a cultura do desperdício de água. Com uma gestão de recursos hídricos competente e aberta para incorporar os novos conceitos e tendências, é possível trazer segurança hídrica e atender a todos os usos e usuários sem comprometer a disponibilidade hídrica.

Mais informações: Embrapa Cerrados

PARA GARANTIR ABASTECIMENTO, MUNDO PRECISA CUIDAR MELHOR DOS SOLOS

Fórum Mundial da Água: painel sobre água e solo ocorreu no 1º dia do evento em 
Brasília (Foto: Ayr Aliski/Ed.Globo)

26/03/2018

Em um dia em que desastres ambientais e mudanças climáticas concentraram atenções no 8º Fórum Mundial da Água, em Brasília, especialistas do Brasil e do Exterior reservam espaço para também debater o tema “Práticas de conservação da água e do solo para melhor produção alimentícia”. A sessão de discussão concluiu que conservação de água e solo andam de mãos dadas e que a preservação desses insumos é extremamente importante para garantir alimentação para uma população mundial que segue em crescimento. Projeções da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que a população mundial chegará a 8,6 bilhões até 2030, um aumento de 1 bilhão de pessoas em 13 anos, chegando a 9,8 bilhões em 2050 e 11,2 bilhões em 2100.

A pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Maria de Lourdes Mendonça Santos alertou, nessa sessão de debates, que a atividade agropecuária não pode ser tratada como “vilã” em relação ao consumo de água. Para ela, não se pode esquecer que fome zero e agricultura sustentável formam uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Agenda 2030 das Nações Unidas.

“Temos de buscar segurança alimentar com segurança ambiental. Não podemos vilanizar a agricultura, afinal também temos compromissos. E um dos primeiros é acabar com a fome. Temos de produzir alimentos de maneira sustentável, mantendo as funções do solo ao longo do tempo”, destacou Maria de Lourdes. Ela argumentou que já há um amplo conjunto de técnicas disponíveis para proteger água e solo (desde medidas como evitar deixar o solo descoberto e promover rotação de culturas). O que falta é implantar todo esse conhecimento, sem deixar de avançar na pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias.

Para Maria de Lourdes, é preciso produzir e difundir conhecimento sobre os cuidados com solo e água, promover efetivamente políticas públicas, garantir financiamento para pesquisa e implantação e investir educação. A pesquisadora da Embrapa destaca que embora muitos mecanismos estejam disponíveis, colocar as soluções em vigor não é tarefa fácil, pois envolve esforços políticos, técnicos, de crédito e difusão de informações, entre outros fatores. Maria de Lourdes citou dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os quais apontam que 33% dos solos do mundo estão com degradação moderada ou alta.

Experiência estrangeira

O indiano Ashwin Pandya, da Comissão Internacional de Irrigação e Drenagem, disse que é preciso aprimorar técnicas atualmente aplicadas, adequando ao máximo os projetos de irrigação ao tipo de agricultura. Na Índia, explicou, há um sistema que fornece a pontuação da saúde do solo, em cálculo que envolve fatores como composição, sustentabilidade e os diversos usos da área. A partir daí, destacou, são aplicadas as melhores práticas, evitando a degradação hídrica e dos solos. “É preciso um programa holístico para os cuidados com a água, o solo, o uso de fertilizantes. A população mundial está aumentando e a terra arável não está crescendo”, destacou Pandya.

Exemplos de boas práticas no manejo hídrico foram apresentadas pelo professor da Universidade de Nebraska (EUA) Charles Wortmann. Ele mostrou resultados obtidos com técnicas de diminuição do escoamento superficial nas lavouras de países da África. Em situações específicas, foi obtido aumento de 44% na relação de produtividade do milho, considerando como parâmetro principal cada metro cúbico de água aplicada na terra.

Wortmann também apresentou resultados de pesquisas que evitaram a evaporação da água do solo. Cada caso, no entanto, depende de estudos e exige aplicações especificas. Soluções que foram bem-sucedidas em uma região não apresentaram bons resultados em outras áreas.

O monitoramento dos solos por satélite também pode ser um bom instrumento para a preservação das águas e dos solos, apontou o representante da FAO Jippe Hoogeveen. O sensoriamento remoto amplia a capacidade cruzar dados como evaporação, disponibilidade de biomassas, nível de precipitação e uso da terra, entre outros fatores, permitindo uma gestão mais eficaz e equilibrada entre produção e sustentabilidade.

É impossível promover a produção de alimentos sem promover a antropização da paisagem (a modificação da paisagem original, pela presença do homem), lembrou o secretário de Meio Ambiente do município goiano de Cristalina, Bruno Marques. Ele argumentou, assim com a pesquisadora Maria de Lourdes, da Embrapa, que o desafio é encontrar o equilíbrio. “Adotar práticas de conservação da água e do solo para a melhor produção agropecuária”, disse. Ou seja, o desafio é alavancar o potencial de produção, mas com a máxima preservação ambiental.

Diante desse cenário, Marques afirmou que é indispensável investir em gestão agroambiental, prática que envolve desde técnicas como a rotação de culturas até o aprimoramento estratégico da gestão das propriedades rurais. “Inserir a variável ambiental é um excelente negócio para quem está na agricultura”, concluiu.

Texto: Ayr Aliski, de Brasília

Fonte: Sistema FAEG

Inscrições abertas para seminário sobre água

Gilberto Soares/MMA

03/01/2018

Com o tema “Águas pela Paz”, evento será realizado nos dias 11 e 12 de janeiro em Brasília. Participação é gratuita.

Estão abertas as inscrições para o II Seminário Internacional Água e Transdisciplinaridade — “Águas pela Paz”, promovido pela Unesco com apoio da Agência Nacional de Águas (ANA), do Ministério do Meio Ambiente e parceiros. Nos dias 11 e 12 de janeiro, o evento reunirá especialistas no Museu Nacional da República, em Brasília, para discutir a importância dos recursos hídricos para as relações entre comunidades e nações. Participação é gratuita.

Para o coordenador de Ciências Naturais da Unesco no Brasil, Fábio Eon, “além de ser um evento preparatório para o 8º Fórum Mundial da Água, o seminário Águas pela Paz inova e contribui para trazer ao debate uma visão mais humanista da água, que vai além do recurso natural a ser preservado”. “O seminário analisa a água como um direito de todos e um valor a ser compartilhado. Assim, pode ajudar a pautar algumas discussões do Fórum, que acontece em março”, completa o especialista.

Entre os temas abordados pelo encontro na próxima semana, estão educação, arte e cultura; saberes e tradições; direitos da natureza, pesquisa e inovação na perspectiva transdisciplinar; gestão de territórios e mediação de conflitos. O seminário promoverá ainda a realização de oficinas diversas.

Para os painéis de discussão, estão confirmados palestrantes de diversas nacionalidades e áreas do conhecimento. Entre eles, o líder espiritual e humanitário brasileiro Sri Prem Baba, que vai ministrar a Palestra Magna; Beverly Rubik, doutor em Biofísica; Anivaldo Miranda, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco; Álvaro Tukano, diretor do Memorial dos Povos Indígenas; Moema Libera Viezzer, socióloga, educadora e escritora; Massimiliano Lombardo, oficial de Meio Ambiente do Setor de Ciências Naturais da UNESCO no Brasil; e o Cardeal Dom Sergio da Rocha, arcebispo metropolitano de Brasília.

Ao final do evento, um documento produzido durante o seminário encaminhado como contribuição ao debates do oitavo Fórum Mundial da Água e do Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA 2018).





23 artistas refletem sobre mudança do clima e preservação da água como recurso vital

Sheba Chhachhi (Índia)

03/01/2018

Em São Paulo -Como continuação de sua missão de despertar a consciência sobre questões fundamentais de nosso tempo através da arte contemporânea, o novo projeto artístico de ART for The World (ARTE para o Mundo) é “Água”, exposição que pode ser vista no Sesc Belenzinho até o dia 18 de fevereiro de 2018.

A exposição, com curadoria de Adelina Von Fürstenberg, tem como foco a água e sua importância para seres humanos, para a fauna e para a flora.

Os 23 artistas participantes, vindos de diversas partes do mundo, propõem por meio de suas obras de arte – instalações, vídeoinstalações, vídeo-projeções, fotografias, esculturas, desenhos e pinturas, incluindo produções específicas para o local e novas obras – uma reflexão sobre a água, em que o gerenciamento é um dos maiores desafios e objetivo prioritário para o século XXI.

As obras tratam de questões de meio ambiente, biodiversidade, ecossistemas, mudança do clima e preservação da água como um recurso vital.

Criada para despertar a consciência do público para a ideia de interdependência, fundamental para nosso sistema e para o futuro de nosso planeta, “Água” enfatiza nossa responsabilidade coletiva em relação à água na sociedade contemporânea.

A exposição pode ser vista de terça a sábado, das 10h às 21h, domingos e feriados, das 10h às 19h30 no Átrio, Galpão e Espaço Expositivo do Sesc Belenzinho. A visitação é gratuita. Mais informações pelo Portal do Sesc. (Carta Campinas com informações de divulgação)

Artistas com obras na exposição: Nigol Bezjian (Síria), Clemente Bicocchi (Itália), Stefano Boccalini (Itália), Benji Boyadgian (Palestina/Finlândia), Sheba Chhachhi (Índia), Jonathas de Andrade (Brasil), Michel Favre (Suíça), Noritoshi Hirakawa (Japão), Iseult Labote Karamaounas (Grécia/Suíça), Guto Lacaz (Brasil), Salomé Lamas (Portugal), Marcello Maloberti (Itália), Carlos Montani (Argentina), Marcelo Moscheta (Brasil), Rosana Palazyan (Brasil), Luca Pancrazzi (Itália), Dan Perjovschi (Romênia), Dorian Sari (Turquia), Eduardo Srur (Brasil), Maria Tsagkari (Grécia), Laura Vinci (Brasil), Velu Viswanadhan (Índia/França), Vasilis Zografos (Grécia).



TERRA, ÁGUA E ENERGIA: A TRÍADE PARA A SUSTENTABILIDADE

Mauricio Lopes, Monica Porto, Edson Watanabe e Elibio Rech: água, energia e 
produção agrícola em harmonia - Foto: Divulgação ABC

19/05/2017

Os desafios que se impõem ao maior produtor de grãos do mundo, o Brasil, no caminho para desenvolvimento econômico e social sustentável foi o mote da sessão científica da Reunião Magna da ABC, da tarde de terça-feira, 9 de maio. No encontro, o presidente da Embrapa, Mauricio Lopes, a secretária adjunta da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Monica Porto, e o diretor Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Edson Watanabe, falaram sobre a necessidade de se harmonizar o gerenciamento dos recursos hídricos, a produção agrícola e a geração de energia limpa, visando ao sustento da economia e ao bem-estar da população. O Acadêmico e engenheiro agrônomo Elibio Rech Filho coordenou a sessão.

Para os especialistas que compuseram a mesa de debates, os investimentos contínuos em ciência e tecnologia, em uma perspectiva de desenvolvimento econômico-social sustentável, têm garantido os avanços do país em áreas como a agropecuária e a geração de energia. Sob o ponto de vista da agricultura, o presidente da Embrapa, Mauricio Lopes, ressaltou a trajetória de sucesso do Brasil na área de produção alimentar dos últimos 40 anos. "Não foi fácil nos tornarmos um modelo de agricultura para o mundo. Somos o maior cinturão agrícola em região tropical, tendo que, para isso, ter aprendido a dominar ambientes difíceis, um solo pobre, lixiviado e rico em manganês e alumínio", disse Mauricio Lopes, lembrando que até os anos 70 o país não tinha adquirido expertise para lidar com tamanha diversidade.

"A agricultura era concentrada na faixa litorânea e não passávamos de um país agroexportador de café e açúcar. Conseguirmos avançar por meio de um modelo de agricultura pautado em ciência e tecnologia. Um trabalho que a Embrapa realizou, por meio da parceria com centros de pesquisa, e da criação de um sistema integrado de lavoura e floresta", afirmou.

Segundo dados da Embrapa, em 38 anos o Brasil saiu da marca de produtividade de 1,4 toneladas por hectares, para 4,5 toneladas. "A ciência teve um papel decisivo nessa evolução, que gerou impactos no preço da cesta básica e no mercado global, visto que somos provedores de alimentos para cerca de 1 bilhão de pessoas", disse Lopes, ressaltando em seguida: 

"Podemos perder o grande bonde da história se não forem realizados investimentos contínuos em ciência e tecnologia. É preciso que seja gerado conhecimento e inovação para que o país se mantenha como líder da produção agrícola nos trópicos", alertou o presidente da Embrapa. Veja a apresentação de Maurício Lopes 

"Precisamos aprender com a crise hídrica de 2014 e 2105"

Sobre história, Monica Porto disse que o país tem muito a aprender, principalmente no quesito gerenciamento eficiente dos recursos hídricos. Referindo-se a um passado bastante recente e presente na memória dos brasileiros, a crise hídrica de 2014 e 2015, a secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo e professora titular Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) contou que acompanhou de perto os níveis do Cantareira, o maior dos sistemas administrados pela Sabesp (Companhia de Águas e Esgotos de São Paulo), destinado a captação e tratamento de água para a Grande São Paulo. 

Segundo ela, embora o Brasil tenha sido pioneiro na gestão do uso dos recursos hídricos, com a publicação do Código de Águas em 1934, até hoje o país não enfrentou o desafio de pensar o gerenciamento do uso da água de forma integrada. Isto é, considerando tanto a produção de energia e quanto a de alimentos. "Ao se falar em segurança hídrica, pensa-se em reuso da água e dessalinização. Alternativas com um potencial enorme para minimizar uma crise hídrica de um lado, mas capazes de pressionar ainda mais o consumo de água. O mesmo acontece quando se fala em biocombustíveis. Melhoro a matriz energética, mas pressiono a matriz da água. É preciso que se olhe para essas inter-relações que acontecem com o uso da água", ressaltou Monica.

Para a secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, a seca de 2014 e 2015 trouxe uma série de lições. Uma delas, a urgência de se reduzir o risco de desabastecimento às populações. "É preciso mudar a forma de gerir a água nas cidades. Temos que colocar na prática a noção de uso múltiplo da água. Pela complexidade do tema, temos dificuldades em esclarecer os múltiplos uso dos recursos hídricos a fim de se manter as seguranças alimentar, hídrica e energética", afirmou.

De acordo com a professora da USP, para não se repetir os erros de um passado recente a saída é a articulação plena entre inovação, financiamento e governança."É preciso repensar esse sistema de gestão da água para não passarmos novamente pela mesma situação de crise hídrica que vivemos. Existe uma necessidade urgente de se desenvolver conceitos de gestão de risco, prevenção e preparação. É preciso que se pense em investimentos em desenvolvimento tecnológico, mas também institucional, por meio da melhoria de alternativas ao sistema econômico, por exemplo. Seja por meio do uso de financiamentos, indenizações a agricultores ou seguros que protejam determinados setores num momento em que tenho que privilegiar um uso da água ao outro", sugeriu Monica.

A especialista referiu-se, especialmente, à agricultura irrigada, que consome 75% da água disponibilizada, visto que seu sistema não prevê um reaproveitamento. Enquanto isso, a indústria consume só 6%. "Na crise de 2014 e 2015, houve um impacto significante no abastecimento do cinturão agrícola de São Paulo. Se parássemos a irrigação, comprometeríamos também o abastecimento de toda a Região Metropolitana de São Paulo. Ao mesmo tempo, os reservatórios do Paraíba do Sul foram pressionados pela necessidade de demanda de energia elétrica, o que colocou o Rio de Janeiro e uma situação de risco de desabastecimento. Por tudo isso, é preciso repensar esse sistema de gestão de água", enfatizou ela. Confira a apresentação de Monica Porto

Energia, um desafio do presente

Para o diretor da Coppe, Edson Watanabe, o caminho para a mudança passa por renovação na maneira dos homens pensarem o consumo dos recursos naturais na Terra. "Hoje, o que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) faz no Brasil é adequar a oferta de energia à demanda de nós, brasileiros. Seja ligando ou desligando as termelétricas, por exemplo. Precisamos ter a consciência de que o comportamento humano também impacta no meio ambiente. Gastar menos energia é uma mudança de cultura", disse ele. 

Em sua fala, o engenheiro lembrou que o futuro, que se anuncia, segundo ele, aponta para uma nova lógica de consumo e produção de energia, onde o consumidor também será produtor. Para o Watanabe, essa nova relação vai exigir de todos nós um controle maior do uso da energia. "Com as Smart Grids, cidades inteligentes, o consumidor vai produzir, além de consumir. Mas ele deverá ter um controle maior da sua demanda, não poderá ligar o ar-condicionado quando quiser ou usar o chuveiro elétrico e o ferro de passar ao mesmo tempo. Isto porque não haverá um ONS para prover mais energia a ele", explicou.

O aumento no uso de energias renováveis também impõe o mesmo desafio: o de se aprender a racionalizar o consumo. Watanabe ressaltou que quando toda a energia elétrica consumida for produzida por meio de fontes como o sol, o vento ou a força das ondas, será preciso criar um sistema de armazenamento capaz de garantir a oferta de eletricidade à toda a população. "Precisamos aprender a armazenar energia de forma barata, quando falamos de formas intermitentes, como as energias renováveis. Baterias, ar comprimido, armazenamento por meio de hidrogênio, via eletrólise, essas são algumas alternativas que já vem sendo testadas" listou ele, que fez à plateia um instigante desafio de reflexão:

"Quanto precisamos de energia elétrica hoje? O Brasil tem uma capacidade instalada de 152 GW (gigawatts). A cada 10 anos, temos que dobrar essa capacidade. Como acompanharemos esse crescimento?", questionou o especialista. Acesse aqui a apresentação de Edson Watanabe

Aline Salgado (Assessoria de Comunicação da Academia Brasileira de Ciências (ABC) 
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia 
asalgado@abc.org.br 
Telefone:  ( 21) 3907-8129

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)

PARCEIRO DA COCA-COLA BRASIL, BANCO DO NORDESTE BUSCA EFICIÊNCIA PARA LEVAR ÁGUA E OUTROS BENEFÍCIOS A REGIÕES NECESSITADAS

Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, recebe o projeto piloto da parceria 
entre Coca-Cola Brasil e Banco do Nordeste(Crédito:  Wander Roberto)

21/04/2017

Não há animal vivente sobre a Terra que não saiba a importância da água — especialmente onde ela escasseia. No Brasil, a luta dos nordestinos pelo acesso ao recurso influencia economia, movimentos migratórios, cultura, tudo. Mudar o destino dos nascidos no semiárido, agenda urgente do Brasil, mobiliza o Banco do Nordeste, nos seus investimentos de responsabilidade social. Entre eles, a parceria com a Coca-Cola Brasil para viabilizar investimento de R$ 20 milhões até 2020 em comunidades de baixa renda que não têm acesso à água potável.

Faz sentido, num país onde 12 milhões de habitantes não têm o recurso em suas casas. “No Nordeste, trata-se de um tema estratégico”, sublinha o economista cearense Marcos Holanda, presidente do banco. “De um lado, trata-se de recurso escasso e limitante para o desenvolvimento econômico. De outro, tem grande dimensão social, especialmente no semiárido”.

Assim, o progresso naquela região do país está atrelado à universalização do acesso ao recurso. “Devemos considerar uso e reúso racionais da água como fatores essenciais ao sucesso de políticas e estratégias de fomento”, acrescenta Holanda, que reconhece o ganho de imagem para a empresa por ações sociais eficientes. Mas é pouco. “Temos os programas sociais como parte fundamental da missão do Banco do Nordeste”, ratifica ele, no cargo há quase dois anos.

Parceria Coca-Cola Brasil e Banco do Nordeste

Pedro Massa, diretor de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, e Marcos 
Holanda, presidente do Banco do Nordeste (Crédito:  Eduardo Araripe)

Por conhecer o problema social que se abate sobre a região há séculos, o executivo enfatiza a importância de ações e programas eficientes, com resultados rápidos e significativos. Gerentes de desenvolvimento territorial do banco mapeiam os problemas ligados ao uso e reúso de água por todo o Nordeste, adquirindo conhecimento fundamental para implementar as estratégias necessárias — aí incluídas a articulação entre os setores público e privado.

“Os problemas relativos à água, embora possam ser semelhantes em alguns territórios, não são iguais”, pondera Holanda. “Com esse mapeamento, podemos buscar soluções inovadoras e, caso possível, replicar as iniciativas nas diversas comunidades com problemas similares”. Em cenários muito distintos, algo comum em trecho tão extenso e diverso do Brasil, outras alternativas serão estudadas, para não deixar de socorrer quem precisa.

O mapeamento identifica problemas de diferentes origens e abrangência, histórico e gravidade, urgência e singularidade. É o ponto de partida para a solução dos problemas. Muitos projetos de água e saneamento fracassam na América Latina por concentrar investimentos somente em infraestrutura, em soluções que não atendem a contextos locais, ou por não contemplarem manutenção, operação e viabilidade para expansão.

‘Devemos considerar uso e reúso racionais da água como fatores essenciais ao sucesso de políticas e estratégias de fomento’ — Marcos Holanda, presidente do Banco do Nordeste

Descumprir as etapas, portanto, seria desperdiçar parte ou mesmo a totalidade de investimento tão necessário. Até 2020, o Banco do Nordeste vai direcionar R$ 10 milhões para a aliança formada com a Coca-Cola Brasil (que investirá outros R$ 10 milhões), com o objetivo de viabilizar iniciativas de acesso à água, principalmente no Norte e Nordeste. Além dessa, o Banco do Nordeste desenvolve várias outras ações socioambientais, relacionadas tanto à concessão de financiamentos para o desenvolvimento sustentável da região onde atua, quanto às atividades relacionadas ao funcionamento da empresa em si.

“Destinamos recursos de incentivos fiscais a projetos sociais no âmbito do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente (FIA), da Lei de Incentivo ao Esporte e do Fundo dos Direitos do Idoso”, lista Holanda. “Em 2016, por exemplo, contratamos 9.575 operações de financiamento relacionadas ao meio ambiente e à inovação, alcançando o montante de R$ 445,4 milhões por meio dos programas ambientais FNE Verde, Pronaf Semiárido, Pronaf Floresta, Pronaf Eco e Pronaf Agroecologia, além de R$ 590,3 milhões aplicados com recursos do programa FNE Inovação”.

ÁGUA QUE ORQUÍDEA NÃO BEBE



21/04/2017

Famosas por suas flores diferentonas, essas plantas são exigentes e não devem ser regadas com água encanada

Por Marina Gabai

Se você não bebe qualquer água para matar a sede, por que suas orquídeas deveriam? Delicadas e exigentes, elas podem ter a saúde afetada pelo simples fato de serem regadas com água inadequada. Daí a importância de dar uma atenção especial a esse quesito na hora de cuidar dessas plantas.

A água encanada, que normalmente é usada para a irrigação do jardim como um todo, tem uma quantidade muito grande de sais minerais, que interferem no desenvolvimento das orquídeas: eles prejudicam a absorção dos nutrientes da adubação e, consequentemente, afetam o crescimento e o florescimento da planta. Como se não bastasse, o cloro aplicado no tratamento da água faz mal para as raízes das orquídeas.

Segundo o orquidófilo Erwin Bohnke, a melhor água para molhar essas plantas é a da chuva. ” Ela não contém grandes quantidades de sais minerais e ainda é uma opção sustentável. Basta coletá-la em um tonel ou balde, armazená-la em um recipiente fechado e usar quando necessário”, explica ele.
Na falta da água da chuva, a sugestão é usar água mineral. Ela tem sais minerais, mas em menor quantidade que a água da torneira.

Quem não puder usar a água da chuva ou mineral em todas as regas, deve tentar fazer isso pelo menos na hora de dissolver o adubo. Assim, a absorção dos nutrientes não é prejudicada. Nas demais irrigações, recorra à água encanada, e tome o cuidado de replantar a orquídea anualmente.

Assim, o substrato, que retém boa parte dos compostos que fazem mal à planta, será renovado antes de se esgotar.

AGRICULTURA DE QUIXADÁ TESTARÁ NOVA TECNOLOGIA QUE TRANSFORMA AR EM ÁGUA

A técnica é um meio para a agricultura sustentável. (Foto: Albino Oliveira/ Ascom Sead)

28/03/2017

O município foi o escolhido para testar a tecnologia que pode transformar o sertão em potência da agricultura sustentável

Uma tecnologia pioneira da estado pode transformar o Sertão do Ceará em potência da agricultura sustentável.  A água retirada do ar promete ser a revolução e já está em pleno funcionamento no município de Quixadá, como mostra a reportagem da Tribuna BandNews FM.

Desenvolvida por um engenheiro brasileiro, a tecnologia vem sendo aprimorada há mais de 10 anos. O conceito, a ser testado em Quixadá, é pioneiro no Brasil e é o mesmo utilizado em um projeto realizado na Austrália pela empresa Sun Drop Farm – que é a líder mundial em agricultura sustentável.

O deputado federal Odorico Monteiro (Pros) explica que a máquina, que funciona à base de energia solar, suga o ar do meio ambiente, depois as moléculas de água passam por um filtro onde ficam retidas, na sequencia são realizadas mais três filtragens para desinfecção e mineralização, produzindo uma água puríssima para o consumo humano.

“Partes desses experimentos foram desenvolvidos na África para a clínica de hemodiálise. Um dos grandes desafios dessa clínica é a qualidade da água, essa água sai com mais de 95% de pureza”, afirma o deputado.

O grupo responsável pelo projeto australiano já está de olho nos resultados obtidos no Ceará. A combinação de quatro tecnologias pretende criar sistemas de agricultura sustentável não só em Quixadá, mas tem previsão de se estender para outros municípios. O sol que castiga o sertão, na verdade, pode ser a maior fonte de energia. Do mesmo modo, o clima quente e árido é ambiente ideal para se extrair a água que corre nos rios aéreos do sertão.

Com os sistemas de geração de energia solar e a tecnologia de produção deságua do ar, o Sertão pode superar a adversidade natural e se transformar, de verdade, em um poderoso polo de produção agrícola.

COMO AS RAÍZES DO CERRADO LEVAM ÁGUA A TORNEIRAS DE TODAS AS REGIÕES DO BRASIL

Plantas do cerrado atuam como uma imensa esponja, recarregando aquíferos 
que abastecem rios e reservatórios - NELSON YONEDA/ICMBIO

27/03/2017

O rio São Francisco está secando, haverá cada vez menos água em Brasília e a cidade de São Paulo terá de aprender a conviver com racionamentos.

O alerta é do arqueólogo e antropólogo baiano Altair Sales Barbosa, que há quase 50 anos estuda o papel do Cerrado na regulação de grandes rios da América do Sul.

Ele diz à BBC Brasil que a rápida destruição do bioma está golpeando um dos pilares do sistema: a gigantesca rede de raízes que atua como uma esponja, ajudando a recarregar os aquíferos que levam água a torneiras de todas as regiões do Brasil.

Formado em antropologia pela Universidade Católica do Chile, doutor em arqueologia pré-histórica pelo Museu de História Natural de Washington e professor aposentado da PUC-Goiás, Barbosa conta que a água que alimenta o São Francisco e as represas de São Paulo e Brasília vem de três grandes depósitos subterrâneos no Cerrado: os aquíferos Guarani, Urucuia e Bambuí.

Os aquíferos são reabastecidos pela chuva, mas dependem da vegetação para que a água chegue lá embaixo.

Barbosa afirma que muitas plantas do Cerrado têm só um terço de sua estrutura acima da superfície e, para sobreviver num ambiente com solo oligotrófico (pobre em nutrientes), desenvolveram raízes profundas e bastante ramificadas.

"Se você arrancar uma dessas plantas, vai contar milhares ou até milhões de raízes, e quando cortar uma raiz e levá-la ao microscópio, verá inúmeras outras minirraízes que se entrelaçam com as de outras plantas, formando uma espécie de esponja."

Esse complexo sistema radicular retém água e alimenta as plantas na estação seca. Graças a ele, as árvores do Cerrado não perdem as folhas mesmo nem mesmo no auge da estiagem - diferentemente do que ocorre entre as espécies do Semiárido, por exemplo.

Barbosa conta que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas, vertendo o líquido não absorvido para lençóis freáticos no fundo. Dos lençóis freáticos a água passa para os aquíferos.

O professor diz que essa dinâmica começou a ser afetada radicalmente nos anos 1970, com a expansão da pecuária e de grandes plantações de grãos e algodão pelo Cerrado.

A nova vegetação tem raízes curtas e não consegue transportar a água para o fundo.

Pior: entre a colheita e o replantio, as terras ficam nuas, fazendo com que a água da chuva evapore antes de penetrar o solo. Em alguns pontos do Cerrado, como no entorno de Brasília, o uso de água subterrânea para a irrigação prejudica ainda mais a recarga dos aquíferos.

Em fevereiro, Brasília começou a racionar água pela primeira vez na história - e meses antes do início da temporada seca.

Migração de nascentes

Conforme os aquíferos deixaram de ser plenamente recarregados, Barbosa diz que se acelerou na região um fenômeno conhecido como migração de nascentes.

Para explicar o processo, ele recorre à imagem de uma caixa d'água com vários furos. Quando diminui o nível da caixa d'água, o líquido deixa de jorrar dos furos superiores.

Com os aquíferos ocorre o mesmo: se o nível de água cai, nascentes em áreas mais elevadas secam.

Especialista afirma que, quando há excesso de água, as raízes agem como esponjas encharcadas
ICMBIO

Ele diz ter presenciado o fenômeno num dos principais afluentes do São Francisco, o rio Grande, cuja nascente teria migrado quase 100 quilômetros a jusante desde 1970.

O mesmo se deu, segundo Barbosa, nos chapadões no oeste da Bahia e de Minas Gerais: com a retirada da cobertura vegetal, vários rios que vertiam água para o São Francisco e o Tocantins sumiram.

O professor diz que a perda de afluentes reduziu o fluxo dos rios e baixou o nível de reservatórios que abastecem cidades do Nordeste, Centro-Oeste e Norte.

Em 2017, segundo a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o número de municípios brasileiros em situação de emergência causada por longa estiagem chegou a 872, a maioria no Nordeste.

Já em São Paulo as chuvas de verão aumentaram os níveis das represas e afastaram no curto prazo o risco de racionamento. Mas Barbosa afirma que a maioria dos rios que cruza o Estado é alimentada pelo aquífero Guarani, cujo nível também vem baixando.

O aquífero abastece toda a Bacia do Paraná, que se estende do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, englobando ainda partes da Argentina, Paraguai e Uruguai.

Fotografia do passado

Bastaria então replantar o Cerrado para garantir a recarga dos aquíferos?

A solução não é tão simples, diz o professor. Ele conta que o Cerrado é o mais antigo dos biomas atuais do planeta, tendo se originado há pelo menos 40 milhões de anos.

Segundo ele, olhar para o Cerrado é como olhar para uma fotografia do passado.

Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil aponta que 872 cidades ficaram em 
situação de emergência por causa da estiagem em 2017
RUBENS MATSUSHITA, ICMBIO

"O Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo e precisa, para o seu desenvolvimento, de uma série de fatores que já não existem mais."

Ele exemplifica: há plantas do Cerrado que só são polinizadas por um ou outro tipo de abelhas ou vespas nativas, várias das quais foram extintas pelo uso de agrotóxicos nas lavouras. Essas plantas poderão sobreviver, mas não serão mais capazes de se reproduzir.

O Cerrado também é uma espécie de museu porque muitas de suas plantas levam séculos para se desenvolver e desempenhar plenamente suas funções ecológicas. É o caso dos buritis, uma das árvores mais famosas do bioma, que costuma brotar em brejos e cursos d'água.

Barbosa costuma dizer que, quando Cabral chegou ao Brasil, os buritis que vemos hoje estavam nascendo.

Mesmo plantas de pequeno porte costumam crescer bem lentamente. O capim barba-de-bode, por exemplo, leva mais de mil anos para atingir sua maturidade. Barbosa diz ter medido as idades das espécies com processos de datação em laboratório.

Parceria com animais

Sabe-se hoje da existência de cerca de 13 mil tipos de plantas no Cerrado, número que o torna um dos biomas mais ricos do mundo. Dessas espécies, segundo o professor, não mais que 200 podem ser produzidas em viveiros.

Ele conta que a ciência ainda não consegue reproduzir em laboratório as complexas interações entre os elementos do bioma, moldadas desde a era Cenozoica.

Barbosa diz, por exemplo, que muitas plantas do Cerrado têm sementes que são ativadas apenas em situações bem específicas. Algumas delas só têm a dormência quebrada quando engolidas por certos mamíferos e expostas a substâncias presentes em seus intestinos.

Há ainda sementes que precisam do fogo para germinar. Contrariando o senso comum, Barbosa diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado e podem ocorrer de duas formas.

O Cerrado tem hoje cerca de 13 mil tipos de plantas, número que o torna 
um dos biomas mais ricos do mundo
MARCELO CAMARGO, AGÊNCIA BRASIL

Uma delas se dá quando blocos de quartzo hialino, um tipo de cristal, agem como lentes que concentram a luz do sol, superaquecendo a vegetação.

A outra ocorre pela interação entre algumas plantas e animais do Cerrado, entre os quais a raposa, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e o cachorro-do-mato-vinagre.

Segundo Barbosa, esses mamíferos carregam no pelo uma carga eletromagnética que, em contato com gramíneas secas, provoca faíscas.

O professor diz que o fogo é necessário não só para ativar sementes, mas para permitir que gramíneas secas, que não têm qualquer função ecológica, sejam substituídas por plantas novas.

"Se a gramínea seca fica ali, não tem como rebrotar, então é preciso dessa lambida de fogo natural pra limpar aquele tufo."

Os incêndios também são importantes, segundo ele, para que o solo do Cerrado continue pobre - afinal, foi nesse solo que o bioma se desenvolveu.

"O fogo é paradigma para quem pensa na preservação. Se você pensa como agrônomo, o fogo é nocivo, porque acentua o oligotrofismo do solo."

Estancar os danos

Quando deixa de haver incêndios naturais, os animais e insetos nativos desaparecem e as plantas do Cerrado são derrubadas, é quase impossível reverter o estrago, diz Barbosa.

Mesmo assim, ele defende preservar toda a vegetação remanescente para estancar os danos.

Barbosa diz torcer para que, um dia, a ciência encontre formas de recuperar o bioma.

Especialista diz que incêndios naturais são essenciais para a sobrevivência do Cerrado
SEDEC/MT

"Claro que você não vai reocupar toda a área que está produzindo [alimentos], mas você pode pelo menos tentar amenizar a situação nas áreas de recarga de aquíferos."

Sua preocupação maior é com a fronteira agrícola conhecida como Matopiba, que engloba os últimos trechos de Cerrado no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nos últimos anos, a região tem experimentado uma forte expansão na produção de grãos e fibras.

"Se esse projeto continuar avançando, será o fim: aí podemos desacreditar qualquer possibilidade, porque não teremos nem matriz para experiências em laboratório."

Nesse cenário, diz Barbosa, os aquíferos do Cerrado rapidamente se esgotarão.

"Os rios vão desaparecer e, consequentemente, vai desaparecer toda a atividade humana da região, a começar das atividades agropastoris."

"Teremos uma convulsão social", ele prevê

Fonte: BBC Brasil
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