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CIENTISTAS USAM BACTÉRIAS PARA AJUDAR PLANTAS A RESISTIR À SECA

Foto: Itamar Melo

22/06/2017

Um grupo de bactérias possui grande potencial para auxiliar plantas a sofrer menos os efeitos da escassez de água. Por meio de um trabalho inédito para agricultura tropical, pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) descobriram que esses microrganismos conseguem reduzir os efeitos do estresse hídrico em soja, milho e trigo, além de propiciar maior crescimento dessas espécies vegetais.

A expectativa dos cientistas é viabilizar, no futuro próximo, o uso dessas bactérias para tratamento de sementes de diversas espécies agrícolas, principalmente em regiões com baixa precipitação pluviométrica como o Semiárido e para culturas muito sensíveis à seca. A ideia é fornecer células da bactéria para tratamento de sementes.

“Por enquanto, só existe essa pesquisa sobre essa tecnologia em agricultura tropical, a qual, de fato, sofre maior impacto da seca”, ressalta o pesquisador da Embrapa Itamar Melo que realizou a pesquisa. A inspiração para o trabalho veio da natureza. As xerófitas, plantas adaptadas a climas semiáridos e desérticos, associam-se a microrganismos que as auxiliam a desenvolver mecanismos de proteção celular contra o estresse hídrico. A ideia é utilizar essas bactérias nas culturas comerciais que, devido às mudanças climáticas, tendem a sofrer cada vez mais com a redução da oferta de água. Os microrganismos hidratam raízes ou interferem na fisiologia dos vegetais que, desse modo, resistem mais ao estresse hídrico.

A seca é o fator ambiental limitante ao crescimento das plantas e um dos fenômenos naturais que mais impactam a produtividade agrícola. A resposta da planta ao estresse hídrico é complexa, envolvendo uma coordenação entre expressão gênica e sua integração com os hormônios. Uma das respostas mais importantes ao estresse é o chamado ajustamento osmótico, que consiste na acumulação de solutos pelas células permitindo que a planta absorva água sem perder turgidez, a consistência que lhe confere rigidez. 

Os estudos da Embrapa indicaram potencial de bactérias que atuam nesse mecanismo em mitigar os efeitos do estresse hídrico além de propiciar maior promoção do crescimento dessas espécies vegetais. Os resultados sugerem que essas rizobactérias têm forte impacto em vários mecanismos de tolerância ao estresse, os quais, em conjunto, resultam na melhoria dos processos das células que atuam para mitigar o estresse. 

Um desses mecanismos é a produção de osmólitos compatíveis, pequenas moléculas orgânicas selecionadas para contrabalançar estresses ambientais em organismos vivos, como betaína e a formação de biofilmes. O pesquisador Itamar Melo explica que esses biofilmes são formados pelas rizobactérias. “Eles são agregados multicelulares que aderem à superfície das raízes por meio da produção de substâncias,como os expolissacarídeos, proteínas e DNA,” detalha.

Como funciona o mecanismo

Melo conta que as bactérias tolerantes à seca, ao colonizar o sistema radicular das plantas sob estresse abiótico, produzem substâncias que hidratam as raízes, chamadas exopolissacarídeos. Para que os microrganismos cheguem às plantas, é feito um procedimento simples na hora de plantar, conforme explica o cientista: “essas bactérias são misturadas às sementes por ocasião do plantio, em uma suspensão líquida, que pode ser água”, detalha o cientista.

Células bacterianas são desenvolvidas em laboratório e imobilizadas em matrizes de alginato para tratamento de sementes de diferentes espécies vegetais. Isso quer dizer que essas bactérias podem ser produzidas normalmente em fermentadores convencionais cujas células são usadas para o tratamento de sementes.

Bactérias da Caatinga

A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, inserido no clima Semiárido nordestino, apresenta xerófitas com alta resistência aos períodos de seca. Estas plantas associam-se a microrganismos que também se encontram bem-adaptados, desenvolvendo mecanismos de proteção celular contra o estresse hídrico, assim como proteção vegetal contra os efeitos negativos da dessecação. 

O estudo buscou compreender as bactérias associadas às cactáceas da Caatinga, analisando a estrutura das comunidades bacterianas de solo e da rizosfera de Cereus jamacaru durante a alteração do período chuvoso para o de seca, identificando os grupos dominantes e discutindo algumas funções que possibilitem a manutenção da interação solo-cacto-microrganismo durante o período de seca. 

Além disso, buscou selecionar bactérias tolerantes à seca e que fossem capazes de promover crescimento de plantas sob estresse hídrico. Amostras foram coletadas ao longo da Caatinga, em cinco estados: Bahia, Ceará, Piauí, Paraíba e Rio Grande do Norte. Com o uso de metodologias independentes de cultivo, foi possível observar que o período de amostragem, chuvoso ou seca, foi o principal responsável pela alteração na estrutura das comunidades bacterianas. 

Os filos Proteobacteria e Bacteroidetes foram abundantes durante o período chuvoso e os filos Actinobacteria, e o gênero Bacillus abundantes durante o período de seca. Com o uso de metodologias dependentes de cultivo, foram isoladas com bastante frequência linhagens pertencentes ao gênero Bacillus, capazes de se desenvolver em meio com reduzida atividade de água e com alguns mecanismos de proteção contra a dessecação, como a produção de exopolissacarídeos e biofilme. 

Além disso, várias linhagens apresentaram mecanismos de promoção de crescimento de plantas diretos ou indiretos, como produção de fito-hormônio, disponibilização de fósforo por meio de solubilização, fixação de nitrogênio e redução dos efeitos negativos do estresse causados por etileno. Uma linhagem de Bacillus sp. foi capaz de promover crescimento de milho sob estresse hídrico, incrementando alguns parâmetros vegetais analisados. Esse estudo fez parte da tese de doutorado de Vanessa Nessner Kavamura, da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).

“Entretanto, do laboratório ao campo, há um longo caminho a ser percorrido. Já sequenciamos e anotamos parcialmente o genoma de um isolado bastante promissor que apresentou características em seu genoma como produção de aminoácidos e exopolissacarídeos que podem auxiliar na proteção contra os efeitos negativos impostos pelo estresse hídrico. E, embora tenhamos identificado alguns isolados bacterianos que apresentaram resultados promissores em testes de casa de vegetação, são necessários mais testes, para verificar, por exemplo, se essa performance ocorre também em condições de campo e se os mesmos resultados são observados em outras espécies vegetais. Isso permitiria dar continuidade ao desenvolvimento de formulações biológicas que possam ser, no futuro, utilizadas em áreas secas, como as observadas no Semiárido nordestino”, argumenta Vanessa Nessner Kavamura, que atualmente é pesquisadora de pós-doutorado no Rothamsted Research, na Inglaterra.

A estudante de pós-doutorado Suikinae Santos, que participou dos trabalhos, explica que o projeto visou a exploração de bactérias tolerantes à seca, com mecanismos de promoção de crescimentos de milho (Zea mays L.) em estresse hídrico, sugerindo estratégias biotecnológicas para mitigação de problemas em lavouras de áreas que estão submetidas a longos períodos de estiagens, assim como em processo de desertificação. “Os resultados poderão ser incorporados nos planos de ações de políticas publicas, para desenvolvimento sustentável das áreas sujeitas à seca com a recuperação da produtividade agrícola regional e diminuição dos impactos econômicos relacionados,” acredita.

Na opinião do pesquisador em produtos naturais a Embrapa Meio Ambiente Antonio Cerdeira o estudo foi importante tanto do ponto de vista acadêmico ao como social. “O desenvolvimento de técnicas de proteção de plantas à seca leva, consequentemente, ao aumento de produção, melhorando a qualidade de vida dos habitantes da Caatinga,” diz.

Cristina Tordin (MTb 28499/SP) 
Embrapa Meio Ambiente 
meio-ambiente.imprensa@embrapa.br 
Telefone:  (19) 3311-2608

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/

Fonte: Embrapa

PARCEIRO DA COCA-COLA BRASIL, BANCO DO NORDESTE BUSCA EFICIÊNCIA PARA LEVAR ÁGUA E OUTROS BENEFÍCIOS A REGIÕES NECESSITADAS

Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, recebe o projeto piloto da parceria 
entre Coca-Cola Brasil e Banco do Nordeste(Crédito:  Wander Roberto)

21/04/2017

Não há animal vivente sobre a Terra que não saiba a importância da água — especialmente onde ela escasseia. No Brasil, a luta dos nordestinos pelo acesso ao recurso influencia economia, movimentos migratórios, cultura, tudo. Mudar o destino dos nascidos no semiárido, agenda urgente do Brasil, mobiliza o Banco do Nordeste, nos seus investimentos de responsabilidade social. Entre eles, a parceria com a Coca-Cola Brasil para viabilizar investimento de R$ 20 milhões até 2020 em comunidades de baixa renda que não têm acesso à água potável.

Faz sentido, num país onde 12 milhões de habitantes não têm o recurso em suas casas. “No Nordeste, trata-se de um tema estratégico”, sublinha o economista cearense Marcos Holanda, presidente do banco. “De um lado, trata-se de recurso escasso e limitante para o desenvolvimento econômico. De outro, tem grande dimensão social, especialmente no semiárido”.

Assim, o progresso naquela região do país está atrelado à universalização do acesso ao recurso. “Devemos considerar uso e reúso racionais da água como fatores essenciais ao sucesso de políticas e estratégias de fomento”, acrescenta Holanda, que reconhece o ganho de imagem para a empresa por ações sociais eficientes. Mas é pouco. “Temos os programas sociais como parte fundamental da missão do Banco do Nordeste”, ratifica ele, no cargo há quase dois anos.

Parceria Coca-Cola Brasil e Banco do Nordeste

Pedro Massa, diretor de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, e Marcos 
Holanda, presidente do Banco do Nordeste (Crédito:  Eduardo Araripe)

Por conhecer o problema social que se abate sobre a região há séculos, o executivo enfatiza a importância de ações e programas eficientes, com resultados rápidos e significativos. Gerentes de desenvolvimento territorial do banco mapeiam os problemas ligados ao uso e reúso de água por todo o Nordeste, adquirindo conhecimento fundamental para implementar as estratégias necessárias — aí incluídas a articulação entre os setores público e privado.

“Os problemas relativos à água, embora possam ser semelhantes em alguns territórios, não são iguais”, pondera Holanda. “Com esse mapeamento, podemos buscar soluções inovadoras e, caso possível, replicar as iniciativas nas diversas comunidades com problemas similares”. Em cenários muito distintos, algo comum em trecho tão extenso e diverso do Brasil, outras alternativas serão estudadas, para não deixar de socorrer quem precisa.

O mapeamento identifica problemas de diferentes origens e abrangência, histórico e gravidade, urgência e singularidade. É o ponto de partida para a solução dos problemas. Muitos projetos de água e saneamento fracassam na América Latina por concentrar investimentos somente em infraestrutura, em soluções que não atendem a contextos locais, ou por não contemplarem manutenção, operação e viabilidade para expansão.

‘Devemos considerar uso e reúso racionais da água como fatores essenciais ao sucesso de políticas e estratégias de fomento’ — Marcos Holanda, presidente do Banco do Nordeste

Descumprir as etapas, portanto, seria desperdiçar parte ou mesmo a totalidade de investimento tão necessário. Até 2020, o Banco do Nordeste vai direcionar R$ 10 milhões para a aliança formada com a Coca-Cola Brasil (que investirá outros R$ 10 milhões), com o objetivo de viabilizar iniciativas de acesso à água, principalmente no Norte e Nordeste. Além dessa, o Banco do Nordeste desenvolve várias outras ações socioambientais, relacionadas tanto à concessão de financiamentos para o desenvolvimento sustentável da região onde atua, quanto às atividades relacionadas ao funcionamento da empresa em si.

“Destinamos recursos de incentivos fiscais a projetos sociais no âmbito do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente (FIA), da Lei de Incentivo ao Esporte e do Fundo dos Direitos do Idoso”, lista Holanda. “Em 2016, por exemplo, contratamos 9.575 operações de financiamento relacionadas ao meio ambiente e à inovação, alcançando o montante de R$ 445,4 milhões por meio dos programas ambientais FNE Verde, Pronaf Semiárido, Pronaf Floresta, Pronaf Eco e Pronaf Agroecologia, além de R$ 590,3 milhões aplicados com recursos do programa FNE Inovação”.

Ministério reconhece 'emergência' em 17 cidades na Bahia por conta da seca

Estiagem causa prejuízos em cidades baianas (Foto: Henrique Mendes / G1)

12/03/2017

Portaria foi publicada pelo governo federal nesta sexta-feira (10).
Municípios passam a ter socorro e assistência para serviços essenciais.

Dezessete cidades em várias regiões da Bahia foram beneficiadas por portaria publicada nesta nesta sexta-feira (10), pelo Ministério da Integração Nacional.

Foi reconhecida a situação de emergência nos municípios de Adustina, Antônio Cardoso, Banzaê, Barra, Biritinga, Caém, Conceição do Coité, Coronel João Sá, Glória, Itanhém, Ichu, João Dourado, Santápolis, Sapeaçu, Umburanas, Vitória da Conquista e Sítio do Quinto.

A portaria com a determinação foi publicada no Diário Oficial da União. Com a medida, as prefeituras passam a ter acesso às ações emergenciais da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), para socorro, assistência e restabelecimento de serviços essenciais, como o abastecimento de água potável à população.

Além de viabilizar o acesso aos programas de fornecimento de água tratada, como a Operação Carro-Pipa, o reconhecimento também permite que os municípios tenham direito a outros benefícios, como a renegociação de dívidas no setor de agricultura, a aquisição de cestas básicas e o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) para a retomada da atividade econômica nas regiões afetadas.

Ainda foram contempladas pela portaria as cidades de Branquinha e Murici, em Alagoas; além de Januária, Manga, Mato Verde e São Francisco, em Minas Gerais.

Emergência

Outras quatros cidades baianas que tiveram a situação de emergência reconhecida pela seca na segunda-feira (6) foram Barro Alto (região no centro norte), Boa Vista do Tupim (na Chapada Diamantina), Mairi (centro-oeste), São Miguel das Matas (no Recôncavo Baiano).

Fonte: G1 Bahia

Governo lança campanha para conscientizar população sobre combate a queimadas


04/08/2016

Em pronunciamento, ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, chama a atenção para aumento dos incêndios e alerta para riscos à fauna e à flora

Em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão nesta terça-feira (2), o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, fez um alerta à população para que evitem queimadas desnecessárias em áreas de matas, o que pode contribuir para elevar os casos de incêndios florestais principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do País.

“A seca dos dois últimos anos fez com que o Brasil tivesse, nos últimos meses, a maior quantidade de incêndios registrada até hoje para essa época. Este, que é um período tradicionalmente seco, está apenas começando. A situação tende a piorar. Corremos o risco de enfrentar uma grande tragédia, já que os incêndios prejudicam a saúde, a produção agropecuária e de água, a distribuição de energia elétrica, o solo, a atmosfera, a fauna e a flora”, diz o ministro, no pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão.

Na mensagem, Sarney filho reforça que a prevenção dos incêndios é prioridade para o governo federal e pede a contribuição de cada brasileiro para combater os incêndios. “Evite acender fogueiras, soltar balões, jogar pontas de cigarros acesa e fazer queimadas, por menores que sejam”.

O ministro diz, ainda, que o governo federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama e do Instituto Chico Mendes, está fiscalizando queimadas criminosas e, principalmente, orientando os produtores rurais no preparo da terra, utilizando as melhores práticas.

Por fim, o ministro reforça o número da Linha Verde (0800 618080) para que a população tire dúvidas sobre como fazer prevenção e combate aos incêndios, e dá um alerta: “Fogo no mato, prejuízo de fato”, conclui.



ESTUDO VÊ CONEXÃO AMAZÔNICA NA CRISE HÍDRICA

Represa do Sistema Cantareira, em São Paulo (Foto: EBC)

10/01/2016

Estiagem recorde em São Paulo em 2014 teve mesma raiz que enchentes em Rondônia,
mostram pesquisadores do Cemaden e do Inpe; prejuízo no ano foi de US$ 5 bilhões

Uma radiografia completa da estiagem que secou o Sistema Cantareira e levou a maior cidade da América do Sul ao racionamento de água foi publicada no fim do mês passado por um grupo de cientistas de duas instituições de pesquisa federais.

No trabalho, o grupo liderado por José Marengo, do Cemaden (Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostra que a seca paulista de 2014, em seu conjunto, é um fenômeno sem precedentes. E está diretamente relacionada a outro desastre natural que atingiu o país naquele ano: as enchentes em Rondônia e no Acre, que isolaram a região e causaram prejuízos na casa dos R$ 200 milhões aos acreanos ao cortarem a única ligação terrestre do Estado com o resto do Brasil, a BR-364.

Segundo Marengo e colegas do Cemaden e do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a bolha gigante de ar quente que ficou um mês e meio estacionada sobre o Sudeste do Brasil teve um efeito colateral: ela bloqueou as correntes de ar úmido que vêm da Amazônia para o Sudeste, os chamados jatos de baixos níveis.

Essas massas de ar, que ganharam o nome popular de “rios voadores”, ajudam a trazer chuva para São Paulo, Minas Gerais e parte do Centro-Oeste. Porém, em 2014, elas foram barradas pela região de alta pressão (ou seja, uma massa de ar mais próxima da superfície) formada no Sudeste e Centro-Oeste, o que desviou as chuvas para Rondônia. Outra parte do jato bloqueado foi bater no Rio Grande do Sul, que também teve chuva acima da média naquele ano.

A observação não chega a ser um endosso da hipótese de que o desmatamento na Amazônia é um dos fatores por trás da falta d’água em São Paulo, que ganhou popularidade na época. Segundo o grupo, com os dados disponíveis não é possível fazer relação direta entre o desmatamento da Amazônia e a falta d’água em São Paulo. “São necessários estudos com modelos climáticos globais complexos, nos quais se simule o clima com vários níveis de concentração de gases-estufa e de mudanças no uso da terra, por exemplo, urbanização ou desmatamento da Amazônia, para detectar impactos no transporte de umidade fora da bacia amazônica e nas chuvas nas bacias no Sul e Sudeste do Brasil”, escreveram os cientistas.

No entanto, eles também dizem que, mesmo diante da incerteza, reduzir o desmatamento e recuperar florestas são provavelmente uma boa ideia para aumentar a resiliência do país à seca: “Considerando a complexidade das relações entre floresta e chuva nas regiões a leste dos Andes, uma possível solução para não alterar o ciclo hidrológico da Amazônia seria reduzir o desmatamento e reflorestar áreas em várias regiões do Brasil”.

BLOQUEIO

Da mesma forma, o artigo do grupo, publicado num dossiê sobre a crise hídrica da Revista USP, evita atribuir o problema à mudança climática. Para Marengo e colegas, o que deixou São Paulo a seco foi uma combinação entre uma estiagem anormal, o crescimento da demanda e o mau gerenciamento dos recursos hídricos.

O estudo enumera, porém, uma série de anomalias climáticas enormes entre as causas da estiagem. A estação chuvosa de 2013/2014 foi a mais seca na região do Cantareira desde 1962, quando começou a série histórica. A temperatura na região em janeiro de 2014 também foi recorde – 2,5oC acima da média histórica, ou mais do que duas vezes e meia o aquecimento médio do planeta no último século.

O bloqueio atmosférico, a tal zona de alta pressão que barrou a entrada de frentes frias, de pancadas de chuva e da umidade da Amazônia, também foi para lá de anormal: esses fenômenos geralmente duram de 7 a 15 dias, nos piores casos. O bloqueio de janeiro e fevereiro de 2014 durou 45. Ele foi reforçado por temperaturas também anormalmente altas da superfície do mar no Atlântico Sul naquela época.

O resultado dessa combinação incomum de fatores atmosféricos e oceânicos, mais o despreparo do governo paulista para lidar com a situação, é algo que os paulistanos estão vendo em suas torneiras até agora, mesmo depois que os reservatórios do Sistema Cantareira finalmente saíram do volume morto, dois anos após o início da estiagem. O evento foi considerado o quinto desastre natural mais caro de 2014 no mundo, com um prejuízo estimado em US$ 5 bilhões (R$ 20 bilhões em valores de hoje). A falta de chuva em 2014 secou o solo, impediu a umidade que alimentaria os reservatórios em 2015 e fez a situação se arrastar durante todo o ano passado.

Marengo afirma que não há estudos conclusivos sobre o comportamento dos bloqueios atmosféricos num cenário de aquecimento global. Além disso, nota uma situação aparentemente paradoxal: nas últimas décadas há uma aparente diminuição das chuvas na região do Cantareira, mas uma elevação da precipitação na cidade de São Paulo. Isso pode estar relacionado a um fenômeno totalmente dissociado da mudança climática – a ilha de calor urbana.

“A seca é consequência da variabilidade natural do clima, não da mudança climática. O que teria a ver com a mudança do clima seria a [crise] hídrica, onde as altas temperaturas, a falta de chuva e o aumento da população determinaram um maior consumo de água”, disse o cientista ao OC.

No entanto, ele alerta que a previsão dos modelos climáticos para o Sudeste é de períodos secos mais longos e mais calor nas próximas décadas, intercalados com períodos de chuva intensa. “Ou seja, a seca pode voltar e, se nada for feito para nos adaptarmos, a crise hídrica voltará também, e será mais intensa e longa no futuro mais quente”, diz o climatologista peruano radicado no Brasil.

“Escapamos do apagão em 2001, parece que vamos a escapar também agora em 2016, se continuar chovendo neste verão. Mas parece que não aprendemos nada da crise de 2001, e só espero que os tomadores de decisões tenha aprendido a lição desta seca em 2014-15, para não sermos pegos de surpresa por uma nova seca e uma nova crise hídrica no futuro.”

“Nós não cortamos a água, premiamos o bom comportamento”

Paula Kehoe, diretora da Comissão de Utilidades Públicas de San Francisco.

28/04/2015

Califórnia, nos EUA, enfrenta as primeiras restrições obrigatórias de consumo de água

Paula Kehoe é a Jerson Kelman, presidente da Sabesp, de San Francisco. A cidade da Califórnia (EUA), dependente das precárias reservas de água e neve, atravessa a quarta crise hídrica da sua história e o governador do Estado, Jerry Brown, acaba de decretar as primeiras restrições obrigatórias da história do Estado. O Governo pretende reduzir em 25% o consumo urbano, menos do que a economia conseguida em São Paulo em média nos últimos meses.

A Comissão de Utilidades Públicas, a Sabesp de San Francisco, é inteiramente pública e atende 2,6 milhões de pessoas. O tamanho dela está muito longe da abrangência da Sabesp que deve cuidar do consumo de 25 milhões de clientes na Grande São Paulo, e longe estão também algumas estratégias adotadas na crise. Na Califórnia, a obrigação de economizar água não é compulsória para todos. A exigência feita a cada município depende do seu consumo. Assim, o esforço cobrado é maior de quem economiza menos. Embora dois terços do consumo da água seja residencial, o Governo do Estado mais rico e populoso dos Estados Unidos está se focando em outros usos. “No caso de San Francisco, nosso foco está na irrigação e no uso de água potável para coisas supérfluas como o jardim ou a limpeza das calçadas”, afirmou Kehoe durante o seminário de Gestão da Água em Situações de Escassez, organizado pelo Ministério de Meio Ambiente.

Pergunta. Como a população tem reagido à obrigatoriedade de reduzir entre 10% e 35% do consumo?

"No caso de San Francisco, nosso foco está na irrigação e no uso de água potável para coisas superfluas como o jardim ou a limpeza das calçadas"

Resposta. Em 2014 já estabelecemos uma redução voluntária de 10%, não oferecemos bônus nem castigamos com multas. Os únicos que foram e são penalizados são os que gastaram mais água que o permitido na irrigação. A população respondeu bem porque nós sempre estamos nos jornais, em campanhas na televisão, fazemos audiências públicas... Hoje as restrições em San Francisco ainda são voluntárias porque temos um consumo baixo. É uma das cidades que menos gasta do Estado, não aumentou a demanda, e não vai precisar reduzir mais neste ano. As pessoas estão respondendo bem, então não temos por que puni-las.Os californianos entenderam que não tem chovido, não tem nevado, entenderam a gravidade da seca.

P. Como são tomadas as decisões em uma empresa pública? Quem manda, o governador ou os técnicos?

R. O governador manda, o órgão regulador aprova e repassa as diretrizes para a companhia. No caso da redução do consumo obrigatória, o governador disse que havia que cortar e o conselho da companhia decidiu como devia ser aplicada esta redução de consumo e estabeleceu os percentuais de corte exigidos por município. Nem todos devem reduzir o consumo da mesma forma. San Francisco, por exemplo, não tem que cortar, mas há outros municípios que devem reduzir até 36%. Nós premiamos o bom comportamento dos consumidores.

P. Qual é o impacto econômico das medidas restritivas?

R. Nosso programa vai trazer uma perda de receita de 60 milhões de dólares até 2025. Isso é muito, mas é melhor ter um custo pela aplicação do programa de economia do que fazer investimentos ou comprar água fora. Acabamos de aumentar a tarifa, mas por projeções de longo prazo e não baseados na seca. Temos vendido propriedades para suavizar a situação econômica no curto prazo, mas provavelmente vamos ter que aumentar o custo fixo da produção de água [e revisar de novo a tarifa].

P. São Paulo mantém os chamados contratos de demanda firme que oferecem grandes descontos aos clientes que mais consomem. Existe algo parecido na Califórnia?

R. Os únicos contratos especiais que nós temos foram criados em 2009 para as 27 companhias que compram nossa água. Nós aplicamos várias tarifas conforme o consumo e quanto mais consomem mais pagam.

P. O que acha dessa fórmula?

R. Prefiro não opinar.

P. O que significa para um californiano a palavra “racionamento”?

R. Nós temos racionamento voluntário, quando o próprio cliente reduz seu consumo até um mínimo diário ou racionamento obrigatório, quando é determinada uma quantidade máxima para ser usada. Na crise da década dos 90 já tivemos racionamento para a população, hoje é só para a irrigação.

P. Existe a redução de pressão em San Francisco? Poderia ser uma alternativa?

R. Nós não cortamos a água. Poderia ser uma alternativa, mas só para os consumidores que não reduzem seu consumo. Poderíamos fazê-lo, mas não está nas nossas previsões.

P. O que sabe da crise hídrica de São Paulo?

R. Me interessa o conceito de bônus que aplica a Sabesp. Gostaria de saber mais sobre isso. Teremos várias reuniões nesses dias [na Sabesp, na Agência Nacional de Água...] para ver como podemos aprender com essa troca de experiências.

Fonte: El País


Poupar e educar: as armas de San Francisco contra a seca

Grave seca que atinge San Francisco há três anos obriga moradores a se adaptar
Crédito: BBC Brasil
24/02/2015

Em San Francisco, na Califórnia, os restaurantes deixaram de servir água aos clientes automaticamente, e agora só recebe um copo quem o pede ao garçom. Nos subúrbios da cidade, moradores começam a trocar seus gramados por plantas nativas que dispensem irrigação ou até por grama artificial.

As duas mudanças de comportamento são os efeitos mais visíveis em San Francisco da grave seca que há três anos atinge o mais populoso Estado americano.

Entre os san-franciscanos, porém, a falta de chuvas parece preocupar bem menos do que entre os paulistanos. Afinal, com o reservatório que abastece a cidade com 56% de sua capacidade, San Francisco lida com a seca numa posição muito mais confortável que São Paulo, onde o sistema Cantareira opera na reserva técnica desde maio de 2014.

O relativo conforto foi conquistado à custa de um esforço após graves estiagens nas décadas de 1980 e 1990, quando San Francisco enfrentou racionamentos e teve de remodelar a gestão de suas águas. Os episódios alertaram autoridades e moradores sobre a importância de poupar o recurso e puseram o tema na agenda das escolas da cidade.

'Políticas agressivas'

Nos últimos 20 anos, o consumo médio de água por pessoa em San Francisco caiu 12% e hoje é o mais baixo da Califórnia.

Mesmo assim, quando em 2013 a seca se agravou e o prefeito Ed Lee pediu aos moradores que reduzissem o uso de água em 10%, a cidade foi além e baixou seu consumo em 14%. A meta só era obrigatória para quem usava água para irrigação; entre os demais consumidores, a redução foi voluntária.

Não houve até agora racionamentos e, como voltou a chover nos últimos meses, acredita-se que a medida será evitada também neste ano.

"Pode parecer simples demais, mas nossa estratégia principal tem sido poupar a água", diz à BBC Brasil Tyrone Jue, diretor de comunicação da Comissão de Serviços Públicos de San Francisco, responsável pelo abastecimento de 2,3 milhões de moradores na região.

Entre as principais medidas adotadas pela comissão nos últimos anos, Jue cita a exigência de que donos de imóveis troquem vasos sanitários e chuveiros por modelos mais econômicos como condição para que possam vender os bens. Os bons resultados dessa política estimularam o governo da Califórnia a adotá-la em 2014.

San Francisco também passou a conceder descontos para os consumidores que substituíssem chuveiros, máquinas de lavar e privadas por equipamentos mais eficientes. E passou a investir na diversificação de suas fontes de água, até então restritas a uma represa no Parque Nacional Yosemite, no leste da Califórnia.

Hoje alguns parques, clubes e campos de golfe da cidade são irrigados com água de esgoto reciclada. San Francisco também começou a explorar um aquífero, que até 2016 deverá fornecer 15% da água potável distribuída aos consumidores.

Prédios inteligentes

Em seus esforços para reduzir o consumo, a prefeitura tem ainda dado incentivos fiscais para que novos edifícios instalem tecnologias verdes, como sistemas de captação de chuva e painéis solares.
A própria Comissão de Serviços Públicos de San Francisco se mudou em 2012 para um edifício projetado para ser um dos mais sustentáveis dos Estados Unidos.

Prédio da Comissão de Serviços Públicos foi projetado para ser 'sustentável'
Crédito: BBC Brasil

Ao custo de US$ 201,6 milhões (R$ 578 milhões), o prédio de treze andares é equipado com painéis solares, turbinas eólicas e um sistema de reciclagem de água. Ali a água que escorre nos ralos ou descargas é tratada no próprio edifício e reaproveitada para irrigar jardins no entorno.

Para Tyrone Jue, no futuro, edifícios com sistemas semelhantes poderão vender água reciclada a imóveis vizinhos ou trocá-la pela eletricidade gerada por painéis solares nessas unidades.

"Teremos um sistema de distribuição cada vez mais descentralizado, em que os consumidores dependerão menos das redes públicas e terão autonomia para tomar as decisões que lhes sejam mais vantajosas."

Na sala de aula

Em outra frente, a prefeitura tem contado com suas escolas para baixar ainda mais os níveis de consumo na cidade. Na escola municipal Ulloa, vizinha ao zoológico de San Francisco, alunos irrigam suas hortas com a água da chuva coletada por duas cisternas, construídas há dois anos.

Na escola municipal Ulloa, a água para regar hortas vem da coleta da chuva
Crédito: BBC Brasil

Além de ajudar a reduzir o consumo de água nas escolas da cidade em 43% desde 2013, medidas como essa mostram aos alunos a importância de poupar, diz à BBC Brasil a diretora da instituição, Carol Fong.

Nas paredes da escola, que tem 540 estudantes entre os cinco e doze anos, campanhas desenvolvidas pelos próprios alunos pregam que se economize água. Os cartazes têm frases em inglês e mandarim, já que a escola é bilíngue e formada, em sua maioria, por descendentes de imigrantes chineses.

"Ao planejar nossas ações pedagógicas sobre a seca, não queremos apenas ensinar aos alunos que eles devem poupar; queremos que eles levem os ensinamentos para casa e que a mensagem se espalhe por toda a comunidade", diz a diretora.

Moradora trocou o gramado natural por um artificial para poupar água
Crédito: BBC Brasil

Ao economizar água, os moradores de San Francisco não só se protegem de uma repetição dos racionamento das décadas de 1980 e 1990 como afastam um fantasma coletivo na cidade.
Em 1906, o grande terremoto que atingiu San Francisco foi seguido por um incêndio que destruiu quase todos os seus edifícios. Entre os moradores, conta-se que a cidade só foi consumida até o fim porque faltou água para apagar o fogo.

Fonte: BBC Brasil


Com seca, Rio Acre atinge menos de 2 metros de profundidade

Visão aérea do Rio Acre: o governo do Acre garantiu que está providenciando bombas 
13/08/2012

A estiagem vem afetando o estado há mais de um mês


Brasília - O Rio Acre, que abrange área onde está concentrada a maior parte da população do estado do Acre, atingiu hoje (13) nível abaixo dos 2 metros. A profundidade constatada pela Secretaria de Meio Ambiente do Acre aumenta o alerta em cidades que já estavam ameaçadas, como Xapuri e Brasileia.

Na semana passada, o governador do Acre, Tião Viana, decretou situação de emergência nos municípios abrangidos pelo rio em função da redução do nível das águas e da estiagem prolongada na região.

A estiagem vem afetando o estado há mais de um mês. Na tarde de hoje, foram registradas chuvas fracas na capital Rio Branco e em alguns municípios do interior. “Estamos preocupado porque estávamos sem chuvas há 15 dias. A chuva dos últimos cinco dias foi muito fraca. Há mais de um mês não temos chuva suficiente para reverter o cenário”, disse Carlos Edegard de Deus, secretário de Meio Ambiente do estado.

Durante a inundação do rio, em fevereiro, as águas chegaram a quase 17 metros de profundidade. O cenário atual de 1,96 metros sinaliza uma baixa média de 2 centímetros por dia. “Neste ritmo vai chegar a 1,5 metro, que foi a menor cota dos últimos 40 anos, atingida no ano passado”, disse o secretário.

Fonte: Exame.com

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