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NA PRIMEIRA CÚPULA GLOBAL SOBRE TB, MSF PEDE QUE GOVERNOS AUMENTEM ACESSO A DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO ATÉ MARÇO DE 2018

Foto: Luca Sola

17/11/2017

Petição assinada por mais de 30 mil pessoas de 120 países foi apresentada ontem a diretor-geral da OMS e a ministros de Saúde

Na abertura da primeira Conferência Global Ministerial sobre o Fim da Tuberculose, que começou ontem em Moscou, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Parceria Stop TB pedem que os países com alta carga de tuberculose (TB) implementem os padrões internacionalmente recomendados para o diagnóstico e o tratamento da doença até 24 de março de 2018, Dia Mundial de Combate à Tuberculose.

A TB é a doença infecciosa mais mortal do mundo, com 1,7 milhão de mortes em 2016. De acordo com o último relatório global sobre a tuberculose da Organização Mundial da Saúde (OMS), progressos no diagnóstico e tratamento de todas as formas de TB estão estagnados na maioria dos países; mais de 4,1 milhões de pessoas com TB continuavam sem diagnóstico ou sem notificação em 2016 e apenas uma em cada cinco pessoas com TB multirresistente a medicamentos (TB-MDR) haviam iniciado o tratamento. Dessas, apenas metade foi curada.

“Por que continuamos nesse descompasso no diagnóstico de pessoas com TB, se esse é o primeiro passo para tratar essa doença curável, prevenindo sua disseminação?”, diz o dr. Francis Varaine, assessor médico de MSF para TB. “Os governos devem avançar urgentemente, a fim de impedir que pessoas morram desnecessariamente de TB.”

De acordo com uma pesquisa publicada na terceira edição do “Out of Step” (Descompasso, em tradução literal para o português), um relatório de MSF e da Parceria Stop TB que avalia as políticas e práticas de TB em 29 países que são responsáveis por três quartos da carga global de tuberculose, 40% das pessoas que vivem com a doença permanecem sem diagnóstico.  Apenas 7 dos 29 países* usam amplamente o Xpert MTB/RIF, um teste molecular rápido para o diagnóstico de TB. Novos medicamentos e regimes de tratamento da tuberculose resistente a medicamentos vêm tendo resultados melhores que os tratamentos-padrão existentes hoje, que curam apenas metade das pessoas com tuberculose resistente e 28% das pessoas que vivem com formas de TB mais perigosas, como a ultrarresistente (TB-XDR). Setenta e nove por cento dos países pesquisados incluem um dos novos medicamentos, a bedaquilina, em seus protocolos nacionais, e 62% incluem a delamanida, o outro medicamento recente. Porém, em nível global, menos de 5% das pessoas que poderiam se beneficiar dessas substâncias tiveram acesso a elas em 2016.
    
Nesta semana, MSF, em parceria com a Stop TB, divulgou o relatório “Descompasso no leste europeu e na Ásia Central”, que apresenta o resultado de uma pesquisa realizada em oito países** sobre práticas e políticas nacionais para a TB. Uma epidemia de tuberculose resistente está crescendo no leste da Europa, onde quase metade de todos os casos de TB são multirresistentes a medicamentos e onde o número de pessoas com tuberculose resistente está aumentando em mais de 20% por ano. Entre os países analisados, 75% adotaram como política o uso do teste molecular rápido para o diagnóstico, em vez de métodos mais antigos e lentos. Ainda assim, apenas metade desses países está de fato usando o teste molecular. Cerca de 46 mil pessoas com tuberculose resistente na região analisada estavam sem diagnóstico em 2015.

“Apesar de sua letalidade, a maioria dos países está atrasada em relação à implementação de mecanismos novos e existentes que já estão disponíveis para combater a TB”, diz Lucica Ditiu, diretora executiva da Parceria Stop TB. “A Conferência Ministerial Global da OMS é o primeiro passo para compromissos concretos, corajosos e mensuráveis por parte dos ministros da Saúde, de modo que chefes de Estado e governo prestem contas durante a reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre a tuberculose.”

Na Conferência Ministerial Global desta semana, Mariam Avanesova, que foi tratada de tuberculose multirresistente na Armênia entre 2010 e 2012 e representa o TBpeople, rede eurasiática de pessoas com experiência de TB, entregou uma petição ao diretor-geral da OMS, o dr. Tedros Ghebreyesus. A petição #TodosContraTB é um apelo urgente para que os ministros da Saúde dos países mais afetados pela TB implementem políticas e práticas de diagnóstico e tratamento alinhadas com os padrões internacionais definidos pela OMS, incluindo o diagnóstico e tratamento das formas de tuberculose resistentes a medicamentos. Lançada por MSF e pela Stop TB, a petição foi assinada por mais de 30 mil pessoas de 120 países, unidas a pessoas afetadas pela TB.

“Depois de ser curada da TB-MDR, decidi continuar trabalhando na área porque considero inaceitável que pessoas estejam morrendo devido a um diagnóstico tardio ou a medicamentos que não funcionam, ou simplesmente por terem desistido em decorrência dos efeitos colaterais que 20 comprimidos por dia durante dois anos podem causar”, diz Avanesova. “Eu realmente quero fazer um apelo a todos os governos para que incrementem rapidamente o acesso a exames e tratamentos para tuberculose para todos os que precisam. Espero que essa conferência traga ações práticas, urgentes e concretas.”

*Armênia, Bielorrússia, Brasil, Geórgia, África do Sul, Suazilândia e Zimbábue.
** Armênia, Bielorrússia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Federação Russa, Tadjiquistão e Ucrânia.

MSF é uma organização internacional humanitária e independente que leva cuidados médicos a pessoas afetadas por conflitos armados, epidemias, desastres naturais e exclusão de acesso a cuidados de saúde. Fundada em 1971, MSF tem projetos em cerca de 70 países hoje. MSF trata pessoas com TB há 30 anos. Em 2016, MSF tratou mais de 20 mil pessoas com TB, sendo 2.700 delas pacientes com TB multirresistente a medicamentos.
A Stop TB, com seus 1.600 integrantes, é uma força coletiva que está transformado a luta contra a TB em mais de 110 países.

IRAQUE: MAHMOUD E O PÉ DE HORTELÃ

Foto: Francesco Segoni

06/09/2017

“Enquanto a guerra tomava contornos cada vez mais raivosos ao nosso redor, a devoção de um homem à sua filha nos deixou sem reação”, conta Trish Newport, enfermeira de MSF

Este ano, enquanto plantava minhas sementes de hortelã no solo de Yukon, pensei em Mossul, no Iraque.

Há dezoito anos, quando me mudei para Yukon, meus sonhos giravam em torno de uma vida sustentável no meio do mato, sem eletricidade ou água encanada. Eu me mudei para uma tenda no bosque e limpei a terra para fazer um grande jardim. Eu sonhava em produzir um monte de vegetais, mas a primeira estação de cultivos me mostrou a realidade difícil da jardinagem no norte do Canadá. Eu sofri com o clima seco e frio, a estação curta, o risco constante de geadas e os dias incrivelmente longos no verão.

Após alguns dias produzindo quantidades ínfimas de couve, repolho e cenouras, pendurei minhas luvas de jardineiro. A ajuda humanitária me chamou e comecei a trabalhar para Médicos Sem Fronteiras (MSF) como enfermeira e, eventualmente, como coordenadora de projeto.

Nos últimos nove anos, eu trabalhei com MSF na África e no Oriente Médio. Meu tempo em Yukon diminuiu para poucos e preciosos meses em um ano – tempo insuficiente para sujar minhas mãos em um jardim.

Raramente penso em jardinagem quando estou em algum projeto com MSF. Porém, neste ano, nas entranhas da violenta guerra de Mossul, Mahmoud e seu pé de hortelã trouxeram o assunto de volta à minha vida.

Na primeira vez que vi Mahmoud, ele caminhava por uma rua no oeste de Mossul. O conflito ecoava a poucos quilômetros de distância, o som das explosões perfurava os tímpanos dos ouvidos, os constantes tiroteios disseminavam o terror no sistema nervoso... E lá estava Mahmoud, descendo a rua com um pé de hortelã na mão.

Minha equipe e eu estávamos à procura de um espaço grande para instalar uma clínica de estabilização de trauma. Queríamos que fosse próximo à frente de batalha, onde poderíamos estabilizar os feridos e auhortelãr suas chances de sobreviver à jornada de ambulância até o hospital. Mas as salas espaçosas eram difíceis de encontrar, porque a maioria das grandes construções havia sido destruída durante a guerra.

Paramos Mahmoud na lateral da rua e perguntamos se ele sabia onde poderíamos encontrar uma sala grande. Em Mossul, é preciso ter cuidado em quem confiar – mas todos estávamos atraídos por Mahmoud e seu pé de hortelã. Ele nos levou para uma volta por vários prédios antigos onde poderíamos instalar nossa clínica. Para todos os prédios que íamos, ele levava o pé de hortelã. Era encantador, mas também estranho.

Após escolhermos um lugar para nossa clínica, contratamos Mahmoud como um de nossos guardas. Todos os dias ele ia trabalhar com seu pé de hortelã.

Nos últimos dois anos e meio, Mahmoud e sua família viveram em Mossul, que ficou sob controle do grupo autoproclamado Estado Islâmico (EI). Durante o período de controle do EI, Mahmoud educou os filhos em casa para que eles não fossem expostos ao currículo escolar imposto pelo grupo. Ele ensinou seus filhos a cultivar plantas e sua filha mais nova plantou um pé de hortelã. Ela adorava aquela planta.

Na guerra de Mossul, o exército iraquiano aos poucos recuperou áreas do EI. Quando o exército iraquiano tomou o controle da rua em que Mahmoud vivia, finalmente era hora de ele mandar sua família a um campo de pessoas deslocadas ao sul de Mossul. Estar no campo significava que a família estaria a salvo e que teria acesso a alimento, água e cuidados médicos. Mahmoud ficou para proteger a casa.

Quando ele mandou seus filhos para o campo de deslocados, sua filha pediu que ele cuidasse bem do pé de hortelã. Ele prometeu que manteria a planta sempre por perto até que ela voltasse. E assim o fez.

Aquela planta nos deixou sem reação. Nos dias em que os bombardeios ou combates eram muito intensos, eu olhava para fora da clínica e via Mahmoud sentado tranquilamente em seu abrigo com a planta no colo. Quando pessoas feridas chegavam com crianças, frequentemente ele ficava com os pequenos do lado de fora e os apresentava à sua planta.

Mossul era um lugar perigoso para qualquer um viver. Os bombardeios e tiroteios constantes ameaçavam as vidas e os lares das pessoas. A casa de Mahmoud ainda não havia sido destruída, mas já não tinha eletricidade ou água encanada. A guerra destruiu a infraestrutura. Então, ao fim de cada dia, Mahmou enchia duas garrafas com água da clínica. A primeira garrafa era para ele beber; a segunda era para todas as plantas de sua casa. Enquanto a hortelã ia com ele para todos os lados, ela não era sua única planta. Seus filhos deixaram para trás uma casa cheia de vegetais e ele se dedicava a garantir que eles sobrevivessem.

Quando fazia jardinagem em Yukon, minhas amadas plantas capturavam toda minha atenção. Eu vivia na floresta, não tinha água encanada e precisava carregar água por muitos quilômetros para regá-las. Eu sempre sonhava com sistemas de água e formas de proteger as plantas de geadas antecipadas. Em Mossul, os crescentes desafios de Mahmoud estavam em um âmbito totalmente diferente. Ele lutava para manter suas plantas vivas ao mesmo tempo em que lutava para sobreviver.   
Eu amava trabalhar em Mossul, mas eventualmente chegou a hora de voltar a Yukon. Enquanto me preparava para ir embora, Mahmoud me trouxe algumas sementes de hortelã. Ele me pediu que plantasse as sementes em casa, onde as plantas teriam uma vida melhor.

Então, quando plantei as sementes de hortelã no solo arenoso e seco de Yukon no início deste ano, pensei em Mossul. Pensei em Mahmoud, seus filhos e todas as outras pessoas afetadas pela guerra.

Aquilo que eu via como desafio – carregar água para o jardim e proteger as plantas do clima de Yukon – eu vejo agora como liberdade, privilégio e oportunidade.

Esta matéria foi publicada originalmente no portal do The Globe and Mail.

UGANDA: MAIS DE 900 MIL SUL-SUDANESES PRECISAM DE ASSISTÊNCIA HUMANITÁRIA

Foto: Fabio Basone

19/05/2017

Milhares de refugiados sul-sudaneses chegam ao país toda semana; a falta de água própria para consumo é um dos problemas mais graves

Uganda

 “Eles simplesmente te matam, independentemente de você ser homem, mulher ou criança. Perdi todos os meus irmãos e parentes. A vida aqui é muito difícil. Sem um homem, ninguém te ajuda”. Maria* é uma entre os milhares de refugiados que fugiram para Uganda desde julho de 2016 após a retomada da violência no Sudão do Sul. Mais de 630 mil refugiados chegaram, deste então, a Uganda, e milhares continuam chegando toda semana, levando o número total de refugiados e solicitantes de asilo sul-sudaneses a mais de 900 mil. Hoje, Uganda abriga mais refugiados que qualquer outro país da África. O país aceitou mais pessoas que toda a Europa em 2016.

Ao mesmo tempo em que muitas pessoas que chegam aqui estão em um estado relativamente bom de saúde, muitos têm histórias de violência extrema vividas em seu local de origem ou ao longo de sua jornada. O aumento no influxo de refugiados levou as políticas progressivas de refúgio de Uganda ao limite, sobrecarregando as condições de recepção e a capacidade do governo de responder.

“Apesar da mobilização em larga escala por parte de agentes humanitários, a resposta à emergência ainda está longe do ideal, e muitas pessoas não têm quantidades suficientes de água, alimento e abrigo”, diz Jean-Luc Anglade, coordenador-geral de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Uganda. Muitos refugiados recém-chegados são forçados a dormir embaixo de árvores; os atrasos na distribuição de alimentos e a falta de água potável fizeram alguns refugiados retornarem para o Sudão do Sul. Além disso, apesar de 85% dos recém-chegados serem mulheres e crianças e apesar dos relatos correntes de violência sexual no Sudão do Sul, há pouquíssimas organizações respondendo às necessidades específicas de proteção dessas pessoas. “Enquanto o fluxo de refugiados não mostra nenhum sinal de redução, um esforço contínuo e a longo prazo será necessário para oferecer assistência a essas pessoas nos próximos meses – se não nos próximos anos”, diz Anglade.

Além de suas operações no Sudão do Sul, MSF está respondendo à crise humanitária em Uganda desde julho de 2016, com atividades médicas e de água e saneamento. MSF, atualmente, está trabalhando em quatro assentamentos de refugiados no noroeste do país - em Bidi Bidi, Imbecpi, Palorinya e Rhino – oferecendo cuidados médicos ambulatórias e de internação, cuidados maternos, suporte nutricional, supervisão de saúde comunitária e atividades de água e saneamento. MSF também respondeu a um influxo que chegou a Lamwo, na fronteira com o Sudão do Sul, após ataque em Pajok, Equatória Oriental, mas transferiu suas atividades para outras organizações.  

O acesso a água é um dos maiores desafios nos assentamentos de refugiados, e MSF vem incrementando suas operações de distribuição de água. Em Palorinya, MSF trata uma média de 2 milhões de litros por dia do Rio Nilo, e com isso oferece apoio a mais de 100 mil pessoas. Somente em abril, MSF distribuiu a impressionante quantidade de 51.519.000 litros de água própria para consumo em Palorinya.

“Há uma série interminável de desafios”, diz Casey O’Connor, coordenador de projeto de MSF em Palorinya. “Podemos tratar milhões de litros de água por dia, mas tudo precisa ser transportado e distribuído em assentamentos de refugiados que chegam a ter até 250 quilômetros quadrados de área. Depois das chuvas pesadas, muitas estradas se tornaram intransitáveis. Isso deixa dezenas de milhares de pessoas sem água durante dias, e na estação chuvosa, se as pessoas não conseguirem água limpa, elas vão recorrer à água suja, parada e contaminada. Isso pode mudar radicalmente o estado de saúde da população – de um contexto relativamente saudável para um surto de alguma doença em questão de dias”.

Além de responder ao influxo de refugiados, MSF mantém programas regulares em Uganda, nos quais oferece serviços de saúde sexual e reprodutiva para adolescentes em Kasese; cuidados de HIV/Aids para as comunidades dos lados George e Edward; e serviços de carga viral no hospital regional de Arua.

*Nome alterado por questões de segurança

SUDÃO DO SUL: MEDICINA HUMANITÁRIA EM MOVIMENTO

Foto: Siegfried Modola

19/04/2017

Fotógrafo Siegfried Modola fala sobre a provisão de cuidados de saúde às populações deslocadas e em perigo na província de Leer, no norte do país

O Sudão do Sul, país que se separou do Sudão em 2011 após décadas de conflito, está atualmente mergulhado em uma guerra civil entre os grupos étnicos dinka e nuer após tensões políticas entre o presidente Salva Kiir e seu antigo vice, Riek Machar.

O país é a nação mais nova do mundo. É uma região rica em óleo, mas, após anos de guerra, também é um dos lugares menos desenvolvidos no planeta.

Os confrontos dos últimos três anos forçaram milhões de pessoas a fugirem de suas casas, dividiram a população entre grupos étnicos e paralisaram as atividades de agricultura, deixando o país exposto à fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Ainda segundo a organização, ao menos um quarto dos sul-sudaneses deixaram suas casas.

A parte sul do antigo estado de Unity, região de origem de Riek Machar, foi gravemente afetada pela violência contínua e pelos confrontos duradouros entre o Exército do Governo pela Libertação da População Sudanesa (SPLA, na sigla em inglês) e pelo exército de oposição (SPLA-IO, na sigla em inglês).

Os civis estão pagando o preço mais alto, já que se encontram na frente de batalha do conflito. A população local não consegue ter acesso sequer aos serviços mais básicos e necessários à sobrevivência. Alimento e cuidados médicos são quase inexistentes, à exceção do que é oferecido por organizações humanitárias, quando há segurança o suficiente para realizarem seu trabalho.

Vilarejos inteiros foram incendiados durante confrontos contínuos. Há relatos constantes de violações graves dos direitos humanos perpetradas por diversos grupos armados que atuam na região.  

As pessoas foram deslocadas de seus lares diversas vezes, ou fugiram por completo de algumas regiões. Atualmente, há cerca de 120 mil pessoas no Complexo de Proteção aos Civis da ONU (PoC, na sigla em inglês) de Bentiu, e muitas delas vieram do antigo estado de Unity.

Após o recomeço do conflito em julho de 2016, a população teve que fugir mais uma vez, enquanto a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) teve de evacuar suas equipes internacionais que estavam em Leer e Thoynor. Em setembro, MSF iniciou um programa de cuidados básicos de saúde para continuar chegando à população necessitada.

Por meio de uma rede de agentes comunitários de saúde, promotores de saúde e promotores de saúde da mulher – cujos membros são parte da população afetada pelo conflito – MSF conseguiu oferecer cuidados de saúde na região.

Agentes comunitários de saúde são treinados para tratar os problemas de saúde mais comuns (como doenças de pele, infecções no trato respiratório, doenças provenientes de água contaminada e malária). Eles ficam na comunidade e, caso a população dali precise fugir, eles vão junto, de modo a continuar oferecendo cuidados. MSF reabastece os grupos de profissionais locais com suprimentos médicos e oferece supervisão e treinamento por meio de suas equipes internacionais.

Decolamos no início da manhã do aeroporto internacional de Juba, capital do país, em um voo de MSF. O aeroporto de Juba é um núcleo de atividade humanitária: diversas organizações de assistência estão tentando mandar suprimentos para a população do país, que carece urgentemente até dos serviços mais básicos.

Estou em um avião de oito lugares com a médica de MSF, dra. Philippa Pet, e um responsável pela segurança, também de MSF, Georg Geyer, líder da nossa equipe. Fazemos um voo de quase duas horas até Thaker, na província de Leer, no norte do país. O avião está cheio de suprimentos médicos e outros equipamentos necessários para nossa estadia de oito dias na floresta.

Aterrissamos em uma parte ventosa e empoeirada da floresta. A cena é desoladora. A certa distância vemos muitos tukuls (cabanas de barro), mas há poucas pessoas por ali.

Duas semanas antes de nossa chegada, Thaker foi palco de confrontos entre diferentes grupos armados. Fomos informados de que muitos homens jovens fugiram com seu gado para outras regiões por razões de segurança.

Alguns minutos depois de nossa chegada, encontramos James*, supervisor de MSF que diz à dra. Philippa que há uma mulher com sérias complicações decorrentes de sua gravidez esperando por tratamento dentro de uma cabana próximo dali. O avião decola para partir sem nós enquanto nos aproximamos da mulher doente.

MSF tem poucos aviões em operação dentro do país, então eles voam com horários restritos. Cada minuto a mais em solo é um minuto desperdiçado em uma localidade diferente.  

A dra. Philippa examina a mulher, cuja gravidez está em estágio avançado. Ela ficou em trabalho de parto durante dois dias, mas o bebê ficou preso e há mais de 24 horas ela não sente nenhum movimento da criança. “Ela precisa ser transferida para nosso hospital de Bentiu”, diz a médica.

O avião que havia decolado há poucos minutos é chamado de volta pelo rádio após a dra. Philippa receber autorização para encaminhar a paciente à equipe de MSF em Juba. A jovem e uma acompanhante são levadas ao hospital de MSF que fica dentro da base da Missão da ONU para o Sudão do Sul (UNMISS, na sigla em inglês) em Bentiu, na província de Rubkona, para receber tratamento de emergência.

Na noite do mesmo dia, a equipe recebe a notícia maravilhosa de que a mãe está bem e de que o bebê nasceu frágil, mas vivo.

Poucas horas após nossa chegada em Thaker, a equipe estrutura sua clínica móvel ao ar livre.

Há uma área de espera, onde os pacientes recebem um cartão médico e as crianças são pesadas e avaliadas para febre e sintomas de desnutrição. Depois, os pacientes seguem para a área de consulta, onde são mandados para exames de urina, testes de malária ou diretamente para o ambulatório, onde podem receber medicamentos.

Pouco depois de meio-dia, já há dezenas de pessoas esperando ser atendidas sob a sombra de algumas árvores de acácia. São, em sua maioria, mulheres e crianças que vieram receber cuidados médicos. Há alguns homens idosos, mas, durante todos os dias em que estive aqui, vi pouquíssimos homens jovens. Ouvi dizer que a maioria deles partiu para os campos de gado.

O lugar é quente e inóspito. Ao meio-dia, a temperatura deve superar os 35 graus Celsius. A sensação é de secura. O vento queima a pele. Sinto sede constantemente. Não é um lugar em que as pessoas podem se dar ao luxo de adoecer. Eu me pergunto como essas mães e crianças sobrevivem em um ambiente tão hostil.  

Vejo uma mulher que não consegue andar direito se aproximando da clínica com o apoio de familiares. Tento entender o que aconteceu com ela.

Nyalolah*, de 16 anos, chega à clínica com a ajuda de seus familiares, que relatam uma série de episódios de colapso que testemunhamos pouco antes de sua chegada. Durante essas crises, ela fica sem reação e seu corpo inteiro fica tenso.    

A dra. Philippa me diz que a causa do problema não é clara, já que o exame físico não revelou qualquer anormalidade, que as crises não mostram qualquer característica de epilepsia e os exames feitos, ainda que limitados, tiveram resultado negativo. Nesse contexto, é difícil lidar com esse tipo de caso.  

Outra mulher chega com sua filha, que apresenta sinais de desnutrição grave. O bebê parece muito mais novo do que realmente é.

Uma idosa chega acompanhada de um parente – ela anda devagar, apoiando-se na outra mulher. Muitas das pessoas que conheci aqui percorreram longas distâncias para receber tratamento médico.

Vejo outra mulher deitada no chão, ao lado da fila para ser atendida. Ela está muito fraca para ficar sentada.

Uma mulher gravida é estabilizada após ficar inconsciente.

Nos meus três primeiros dias em Thaker, a equipe de MSF tratou mais de 600 pacientes.

Nyareat*, de 24 anos, chega acompanhada de sua filhinha de quatro meses, Nyakueka*, que tem febre. Ela andou durante uma hora para chegar até a clínica.

Há dignidade entre as pessoas que conheci, que enfrentam um grande sofrimento diário para sobreviver.

No fim da tarde, uma mulher com suspeita de meningite chega à clínica acompanhada de um grupo de familiares.

“Essa história deveria ser sobre os profissionais locais de MSF no projeto. Eles são os que enfrentam boa parte dos perigos em suas profissões. Eles são alvejados por gangues armadas que acham que eles têm dinheiro, visto que trabalham para uma organização internacional. Meu trabalho aqui é treiná-los, e garantir que eles saibam diagnosticar e tratar pacientes. Eles que ficam para trás quando vamos embora”, diz a dra. Philippa.

James*, de 33 anos, é supervisor de MSF. Ele trabalha para a organização há um ano e é o líder da equipe nesta região. Ele explica os perigos de seu trabalho.  

“Como agentes de saúde, fazemos um trabalho perigoso. Seguimos a população em qualquer localidade onde esteja ou para onde quer que vá. Uma vez, passei oito horas no pântano com outras pessoas para que pudéssemos nos esconder de homens armados. Cinco pessoas foram baleadas e morreram ao meu lado nesse dia. Também me lembro de ver uma mãe segurando o filho, tentando amamentá-lo, sem saber que ele havia morrido. Contudo, eu amo esse trabalho. Amo servir a minha comunidade, porque as pessoas precisam de assistência médica. Elas precisam que nós estejamos aqui para ajudá-las. Muitas delas morrem porque não conseguem chegar a tempo ao hospital. Muitas crianças morrem de desnutrição, e também pela falta de vacinas”, diz James.

Richard*, de 34 anos, é agente comunitário de saúde de MSF. Ele trabalha para a organização desde 2013. Nesse mesmo ano, o projeto de MSF nessa região foi interrompido por questões de segurança.

“Trabalhamos em uma região de muita insegurança. Por isso, o maior problema para a população local é a falta de alimento e cuidados médicos. Temos que nos concentrar e usar da melhor forma possível os suprimentos que MSF nos manda semanalmente”, diz Richard.

Nyasunday*, de 25 anos, é mãe de quatro filhos: Nyapal*, de um ano, Nyakuoth*, de 5, Nyabora*, de 9 e Nyanhial*, de 8. Ela explica sua situação enquanto espera sua consulta médica:

“Todos estamos sofrendo aqui. Os confrontos destruíram nossas casas e agora temos que ficar na floresta. Precisamos nos esconder o tempo todo, porque tememos por nossas vidas. Meu marido está em Juba e não consegue voltar porque a estrada não é segura para uma viagem. Ele não está aqui para me ajudar, e eu estou lutando para cuidar de meus filhos. Não temos alimento e eu me preocupo muito com o futuro. Muitas vezes nos alimentamos de lírios aquáticos para sobreviver. Essa não é uma boa vida para meus filhos. Torço por um amanhã melhor”, diz Nyasunday.

A situação pode mudar de um minuto para o outro, e as equipes de MSF precisam estar preparadas para agir adequadamente. A prioridade é minimizar os riscos do perigo de grupos armados. Normalmente, equipes de MSF não são alvejados nesse tipo de contexto. Contudo, a imprevisibilidade da situação significa que as coisas podem dar errado de repente.

Na tarde do dia 22 de março, já há cinco dias no projeto, ouvimos relatos da população local sobre movimentos de tropas na região, além de rumores sobre a possibilidade de um ataque na vizinhança.

O coordenador de projeto de MSF em Juba toma a decisão de evacuar os profissionais internacionais no dia seguinte, a fim de evitar que eles sejam pegos em meio ao fogo cruzado do conflito.

Na manhã do dia 23 de março, depois de estruturarmos nossa segunda clínica em Gier, a poucos quilômetros de Thaker, voltamos ao ponto inicial para esperar o mesmo avião de MSF que nos trouxe para nos tirar da região.

Georg Geyer, ponto focal da segurança de MSF e nosso líder de equipe neste projeto, explica as dificuldades de trabalhar no Sudão do Sul:

“Trabalhei para MSF em mais de oito países, mas o Sudão do Sul se mostrou um lugar muito difícil para. Posso enxergar claramente as enormes necessidades da população aqui. Eles precisam de alimento e medicamentos. O acesso a áreas como essa de grande insegurança pode ser desafiador. Sou responsável pela minha equipe, e preciso mantê-la em segurança”, diz Georg.

* Por razões de segurança, todos os nomes foram alterados.

Carta aberta aos empregados da Pfizer: precisamos de aliados



15/11/2016

Prezados empregados da Pfizer

Há quase um ano, estávamos do lado de fora do seu escritório na cidade de Nova York empilhando dinheiro falso em frente à entrada. Há seis meses, retornamos para deixar 2.500 flores em um berço. Tudo isso para ilustrar que a vacina essencial contra pneumonia da Pfizer não está chegando às crianças necessitadas.

Foto: Edwin TorresFoto: Edwin Torres

Sei que talvez não tenhamos nosso contato da melhor maneira, então deixem que me apresente: sou Mary Jo, e trabalhei como enfermeira de Médicos Sem Fronteiras (MSF) por 17 anos.

Vocês já devem ter ouvido falar sobre o que a nossa campanha, “A dose justa”, pede a vocês: vacinas contra pneumonia pelo preço de 5 dólares por criança para todos os países em desenvolvimento e organizações humanitárias. Eu preciso que essa possibilidade se torne real, porque a realidade em que vivemos agora – na qual milhões de crianças morrem por ano de uma doença evitável – é desoladora.  

Deixem-me falar sobre Mohamed, um menino de seis anos que conheci em meu último projeto, na Nigéria.  Quando cheguei à clínica, ele estava sentado no chão com seu irmão mais novo. Eles estavam muito magros e tinham úlceras terríveis e visivelmente dolorosas nos lábios. Mohamed quase não reagia. Ao mesmo tempo, porém, ele bufava e tentava desesperadamente respirar. Ele estava com a frequência respiratória de uma pessoa de 60 anos, cerca de três vezes mais que o normal para uma criança de sua idade – o que significava que seus pulmões estavam trabalhando muito mais que o normal para conseguir a quantidade de oxigênio de que ele precisava.  

Eu o peguei no colo imediatamente. Sua frequência respiratória era um sinal evidente de pneumonia. Depois confirmamos que Mohamed tinha malária, sarampo, pneumonia – o trio de assassinos da infância – e desnutrição. Encontramos um leito isolado para ele e aplicamos terapia intravenosa para ministrar fluidos e medicamentos.

O que mais me impressionou em Mohamed foi sua seriedade. Mesmo que eu soubesse que ele estava sentindo muita dor e que não tinha apetite para comer ou beber água, ele estava comprometido com sua própria autonomia: ele queria segurar o copo com as próprias mãos, porque não é normal precisar da ajuda de alguém para se alimentar aos seis anos de idade. Ele estava muito fraco, mas estava determinado a se manter forte.

Mohamed foi para casa com sua mãe e seu irmão naquela noite. No dia seguinte, fui a outra clínica de MSF, mais perto de sua casa, e procurei por ele. Quando cheguei à ala pediátrica, eu o vi da mesma forma do dia anterior: sentado no chão com o irmão. Mas desta vez ele estava animado. Ele estava sorrindo. A reviravolta foi incrível. Mohamed teve sorte de vir à nossa clínica no momento em que veio, e nós tivemos a sorte de os antibióticos funcionarem contra sua pneumonia. Esse nem sempre é o caso.

Eu penso no que crianças como Mohamed vivenciam. Várias crianças que conhecemos passam por muito na vida, e bastante cedo – guerras, conflitos, fugas constantes e uma terrível pobreza. Não podemos evitar que essas coisas aconteçam. Mas as doenças? Isso, sim, podemos evitar. Se ao menos pudermos proteger as crianças com vacinação, elas terão grandes possibilidade de sobreviver aos demais problemas.

A pneumonia de Mohamed poderia ter sido prevenida se sua vacina estivesse disponível. Mesmo quando alguns países – entre eles a Nigéria – introduzem a vacina contra pneumonia nos planos regulares de imunização, às vezes conflitos ou desastres naturais interrompem programas de saúde de rotina. É nessas ocasiões que organizações humanitárias podem proporcionar algum alívio até que a situação se estabilize.  

Mães e filhos fazem fila para vacinação contra malária em clínica de 
MSF na Nigéria (Foto: Sylvain Cherkaoui/COMSMOS

Por isso é importante que o preço da vacina contra a de pneumonia seja diminuído para os países que não recebem vacinas financiadas por doadores e para organizações humanitárias.

Sabemos que para que isso se torne realidade, o desejo de mudança tem que vir de dentro da Pfizer também. Vocês vão se solidarizar com crianças como Mohamed?

Pode não ser fácil, mas se isso impactar vocês, por favor, ajudem a espalhar essas palavras compartilhando esta carta com um de seus colegas de trabalho.

Obrigada.



MSF saúda decisão da GSK de reduzir preço da vacina pneumocócica para algumas das crianças mais vulneráveis do mundo

MSF faz apelo para que a Pfizer acompanhe a decisão da GSK e ofereça à comunidade 
humanitária o menor preço global disponível - Foto: Yann Libessart/MSF

21/09/2016

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) saúda a decisão da GlaxoSmithKline (GSK) de reduzir os preços de sua vacina pneumocócica conjugada (PCV, na sigla em inglês) para as organizações humanitárias que atendem crianças refugiadas e afetadas por crises. Nos últimos sete anos, MSF tem mantido conversações com a GSK e a Pfizer – as duas únicas produtoras da vacina contra a pneumonia – para ter acesso à vacina por um preço mais barato. A redução do preço da GSK é um passo muito significativo em direção à proteção de crianças vulneráveis que são atendidas por organizações humanitárias como MSF. MSF espera, agora, que a Pfizer siga o exemplo da GSK e que as duas empresas também reduzam os preços da vacina para os governos de países em desenvolvimento, que ainda não podem arcar com o custo de incluir a PCV em seu calendário padrão de imunização infantil.

Campanha de vacinação de MSF contra pneumonia em Uganda 

Foto: Sydelle Willow Smith / MSF

“A GSK deu um passo fundamental em favor das crianças que se encontram em situações de emergência”, diz a dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF. “Com essa redução de preço, nossas equipes finalmente poderão expandir seus esforços para proteger as crianças contra essa doença mortal. Agora, a GSK deve redobrar seus esforços para reduzir o preço, também, para os muitos países em desenvolvimento que ainda não podem arcar com o custo de proteger suas crianças contra a pneumonia.”

A pneumonia é a principal causa da mortalidade infantil no mundo, matando quase 1 milhão de crianças por ano. Crianças afetadas por crises, como conflitos ou outros tipos de emergência humanitária, são particularmente suscetíveis a contrair pneumonia. Equipes médicas de MSF frequentemente constatam os efeitos mortais da pneumonia – uma doença evitável por meio de vacinação – nas crianças vulneráveis a que prestam atendimento.

Até agora, nem MSF nem outras organizações humanitárias podiam adquirir as vacinas contra a pneumonia por um preço acessível; neste ano, MSF pagou 60 euros (cerca de US$ 68) por uma dose do produto da Pfizer para vacinar crianças refugiadas na Grécia – 20 vezes mais que o menor preço oferecido pela GSK e pela Pfizer. São necessárias três doses para imunizar uma criança.

Em maio, MSF entregou uma petição com mais de 416 mil assinaturas de pessoas de 170 países, pedindo que a Pfizer e a GSK reduzissem os preços da vacina contra a pneumonia para US$ 5 por criança (pelas três doses) para as populações afetadas por crises e para todos os países em desenvolvimento.

Com seu comunicado do dia 19 de setembro, a GSK agora se comprometeu a oferecer a vacina a US$ 9 por criança (3,05 dólares por dose) às organizações humanitárias. O anúncio da GSK rompe uma enorme barreira no acesso da comunidade humanitária à vacina contra a pneumonia, mas a vacina da Pfizer (PCV13) ainda é indispensável para muitos países onde MSF e outras organizações oferecem assistência. A Pfizer, porém, continua se recusando a oferecer às organizações humanitárias um preço mais barato por sua vacina.

“A Pfizer deveria acompanhar a decisão da GSK e ajudar a criar uma solução mais ampla para a comunidade humanitária oferecendo, também, o menor preço global pela vacina”, diz Liu. Em vez de diminuir o preço do produto para a comunidade humanitária, a Pfizer apenas ofereceu um programa de doações. MSF prefere ter acesso a vacinas por um preço econômico, de forma que crianças em situação vulnerável não precisem depender da boa vontade voluntária das empresas farmacêuticas.



Níger: milhares de deslocados sem assistência em Diffa

Foto: Sylvain Cherkaoui / Cosmos for MSF

12/06/2016

MSF está assistindo a população recentemente deslocada pela violência com ajuda básica

Após o ataque do dia 3 de junho contra a cidade de Bosso, na região de Diffa, no Níger, a maioria da população local e das áreas vizinhas de Yébi e Toumour fugiu em busca de segurança. A maior parte desses recém-deslocados, que agora são milhares, já havia se instalado na região da qual fugiram por causa de ataques anteriores. O último atentado realizado pelo grupo Boko Haram foi um dos mais mortais na região, deixando dezenas de soldados mortos.

Após o ataque inicial em Bosso, grande parte da população escapou para Toumour, uma cidade a alguns quilômetros a oeste. Pessoas de diversas localidades estão se deslocando novamente para diferentes direções, incluindo Diffa, a capital da região. A situação é bem volátil, o que torna difícil saber onde essas pessoas irão se estabelecer. Além disso, à medida que os dias passam, os deslocados ficam ainda mais vulneráveis.

Desde sábado (4/6), a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) presenciou um êxodo de pessoas que escapavam de suas casas. Uma equipe de MSF tem conduzido uma avaliação para tentar determinar para onde as pessoas estão fugindo e para responder às suas necessidades mais urgentes.

“MSF está tentando ajudar a população deslocada por meio da oferta de assistência básica, incluindo atividades de abastecimento de água e saneamento, abrigo e cuidados de saúde”, diz Elmounzer Ag Jiddou, coordenador-geral de MSF no Níger. “Muitas pessoas estão fugindo para direções diferentes. Algumas estão no meio do nada e é muito difícil assisti-las. Junto a diferentes atores e ao governo, nós precisamos avaliar como facilitar o acesso e organizar a oferta de ajuda.”

Em Yébi, MSF estava gerindo um posto de saúde para oferecer assistência à população deslocada. O posto foi destruído em meio a um ataque realizado no dia 19 de maio, mas as atividades foram retomadas poucos dias depois. No entanto, o programa de MSF em Yébi está atualmente suspenso por causa da insegurança. MSF ainda mantém atividades em Nguigmi (outro distrito ao norte de Bosso) e em Diffa.

MSF atua na região de Diffa desde dezembro de 2014. A organização está apoiando diversos centros de saúde locais, assim como o principal centro de saúde materno-infantil da cidade de Diffa e o hospital distrital de Nguigmi. MSF também está oferecendo cuidados médicos no acampamento em Assaga. Em 2015, MSF realizou mais de 142 mil consultas médicas na região.

Fonte: MSF

Síria: “Nós esperamos que o massacre termine”

Síria: “Nós esperamos que o massacre termine” - Foto: MSF

04/06/2016

Enfermeiro supervisor do hospital Al Salamah, evacuado no dia 27/05, fala sobre a situação no distrito de Azaz, de onde as frentes de batalha estão cada vez mais próximas

Yahya Jarad é supervisor de enfermagem do hospital Al Salamah da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Síria, tendo se formado em 2007 como enfermeiro pela universidade de Aleppo. Na última sexta-feira (27/05), MSF teve de evacuar os pacientes do hospital Al Salamah e fechar a instalação à medida que as frentes de batalha se aproximavam. Também devido a essa situação, cerca de 100 mil pessoas estão encurraladas no distrito de Azaz, no norte do país.

“Nós esperamos que a guerra acabe e o massacre termine. Mas parece que isso não vai acontecer tão cedo.”

Eu comecei a trabalhar em MSF em outubro de 2012, e tenho trabalhado como enfermeiro supervisor no hospital Al Salamah desde então. Em fevereiro do ano passado, eu tive de deixar minha casa e me refugiar próximo do hospital. Nós nos mudamos para tendas e foi muito difícil, mas estamos tentando lidar com a nossa atual situação.

Uma nova onda de pessoas fugindo de suas casas chegou na região à medida que a frente de batalha se aproximava cada vez mais nos últimos 10 dias. Acampamentos próximo de zonas de conflito foram evacuados e as pessoas foram forçadas a fugir novamente. Agora, elas vivem em condições muito precárias, em meio a oliveiras, sem quaisquer serviços.

A cidade vizinha de Mare’a está completamente cercada

Distribuição de itens de primeira necessidade para famílias recém-deslocadas no distrito de Azaz (Foto: MSF) À medida que os confrontos se aproximavam, hospitais foram forçados a fechar. Nós tivemos de evacuar pacientes e equipes médicas. Apenas uma equipe reduzida foi mantida para lidar com a estabilização de casos emergenciais e encaminhar pacientes a outros hospitais e centros médicos.

Nós vivemos e trabalhamos em uma área pequena e isolada, que basicamente não recebe qualquer assistência, e nós não podemos encaminhar pacientes que não temos condições de tratar para Aleppo ou Idlib.

No meu trabalho normal, sou responsável por supervisionar a equipe de enfermagem, acompanhar os serviços oferecidos a pacientes e checar os equipamentos e ferramentas em uso no hospital.

Estamos falando sobre o único hospital da região norte de Azaz que pode oferecer vacinação às crianças. O hospital também dispõe de um ônibus que realizava atividades de encaminhamento nos acampamentos, registrava pacientes, levava-os ao hospital para tratamento, e depois de volta para casa.

Em fevereiro, a região presenciou um grande fluxo de pessoas que fugiam de suas casas e nós tivemos de estruturar uma equipe médica para lidar com a situação fora do hospital. A equipe, que inclui enfermeiros e assistentes de enfermagem, visitaram os acampamentos para identificar casos de desnutrição e necessidades de vacinação, detectar surtos e registrar doenças existentes, como infecções respiratórias.

Uma segunda equipe estava encarregada de realizar vacinações e transporte de pacientes para o hospital. Nós atendemos pequenos surtos de doenças, como sarampo e infecções do trato respiratório superior.

As pessoas esperam voltar para suas casas quando a guerra terminar, mas muitas casas foram destruídas e deixadas em ruínas.

Nós esperamos que a guerra acabe e o massacre termine, e que os deslocados tenham condições de voltar para casa. Mas parece que isso não vai acontecer tão cedo. Estamos fazendo o que podemos e além. Ficamos felizes quando vemos nossos pacientes recuperados. Isso nos dá mais ânimo para continuar o trabalho que estamos realizando.

Essa é uma situação humanitária difícil e as pessoas estão tentando lidar com isso, enquanto agências de ajuda estão lutando para fornecer itens básicos. Nós esperamos que a situação melhore. ”


MSF responde a surto grave de malária na RDC

MSF responde a surto grave de malária na RDC
Foto: Natacha Buhler/MSF

20/05/2016

A última ocorrência de uma epidemia como a atual foi em 2012, quando foram tratadas mais de 60 mil crianças

Na segunda-feira, 9 de maio, 141 crianças foram internadas durante a noite no hospital geral de referência de Pawa, na província de Haut-Uele, no nordeste da República Democrática do Congo. Havia de duas a três crianças em cada um dos 22 leitos da ala pediátrica e colchões estavam espalhados pelo chão, entre os leitos e pelos corredores. Um surto excepcionalmente grave de malária atingiu a área de saúde de Pawa e a vizinha Boma Mangbetu.

Faltam medicamentos para tratar a malária nos centros de saúde das zonas de saúde de Pawa e Boma Mangbetu.“Estamos tão cansados de assistir crianças morrerem!”, exclama o líder das comunidades de Gatua durante uma reunião com um enfermeiro da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). “Estamos enterrando crianças ininterruptamente desde março. O centro de saúde não tem mais medicamentos para malária e as mães estão levando suas crianças para casa para morrer. A única coisa que elas podem fazer é resfriar seus filhos com água para baixar a febre.”

No início de maio, MSF lançou uma intervenção de emergência nas zonas de saúde de Pawa e Boma Mangbetu em resposta a um pedido das autoridades de saúde, já sobrecarregadas. O primeiro passo dado pela organização foi a distribuição de aproximadamente 10 mil tratamentos antimalária baseados em artemisinina e de um grande número de testes rápidos de diagnóstico para 32 centros de saúde, a fim de garantir que a doença seja tratada rápida, efetiva e gratuitamente a nível local.

“Somente uma vez nos deparamos com situação similar: em 2012, durante uma intervenção nas áreas de Ganga-Dingila, Pawa, Poko e Boma-Mangbetu tratamos mais de 60 mil crianças com malária”, explica Florent Uzzeni, gestor adjunto de programa de emergência de MSF. “Hoje, nosso objetivo primário é tratar crianças com malária simples o mais rápido possível, para que elas não desenvolvam malária grave.”

Se a doença for tratada em tempo, e com a medicação correta, o risco de complicações pode ser significativamente reduzido. No entanto, a atual falta de medicamentos e seu custo excessivo levou à multiplicação dos casos de malária, causando muitas mortes de crianças em suas casas, sem acesso a cuidados de saúde. Portanto, MSF também vai oferecer suporte aos hospitais gerais de referência de Pawa e Boma Mangbety no tratamento desses casos com complicações, que geralmente demandam cuidados intensivos, transfusões de sangue e oxigenoterapia. A equipe médica de MSF também fortalecerá a equipe médica do Ministério da Saúde. Além disso, a organização oferecerá os equipamentos e medicamentos necessários, além de treinamento para melhorar a qualidade dos cuidados.

“Vamos oferecer ajuda nas áreas com os maiores números de casos de malária, mas sabemos que outras áreas de saúde nas províncias de Haut-Uele, Bas-Uele e Ituri também foram afetadas”, continua Florent Uzzeni. “Tratamentos efetivos existem e se todos os atores envolvidos no combate à malária no país agirem rapidamente, vamos conseguir impedir a morte de muitas crianças em consequência dessa epidemia.”


Síria: mais de 50 mortos em ataque contra hospital em Aleppo



03/05/2016

MSF afirma que a situação permanece crítica na cidade síria, que foi totalmente bombardeada

É com profunda tristeza que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) confirma, até o momento, a morte de mais de 50 pessoas – incluindo pacientes e ao menos seis profissionais médicos – após os ataques aéreos contra o hospital Al Quds apoiado por MSF em Aleppo, na Síria. A instalação e áreas ao seu redor foram atingidas na noite do dia 27 de abril por bombardeios que não pouparam nenhuma parte da cidade.

“O céu está caindo em Aleppo. A cidade, onde têm se instalado consistentemente as frentes de batalha desse conflito brutal, agora está sob o risco de sofrer uma ofensiva completa, sem que lugar algum seja pouopado”, diz Muskilda Zancada, coordenadora-geral de MSF na Síria. “Ataques contra hospitais e profissionais médicos são um indicador devastador de como a guerra na Síria está sendo travada, uma das inúmeras maneiras brutais por meio das quais os civis estão sendo alvejados.”

Esta não é a primeira vez que o hospital Al Quds é atingido por bombas; a instalação já foi prejudicada e parcialmente destruída algunas vezes. A última delas foi em 2015. Além do Al Quds, MSF recebeu relatos de que outro centro de saúde, que não recebe o apoio da organização, também foi atingido.

“MSF apoia o hospital Al Quds desde 2012. Tem sido uma grande honra para nós poder trabalhar de maneira tão próxima com pessoas tão dedicadas”, diz Zancada. “Nós vemos dia sim dia não o quanto eles arriscam suas vidas em meio ao inferno dessa guerra, para garantir que a população possa ter acesso a cuidados médicos. Sua perda é nossa perda, e nós continuamos comprometidos em ajudar o hospital a retomar as atividades.”

Agora, MSF está desesperadamente preocupada com a situação das cerca de 250 mil pessoas que enfrentam a ameaça crescente de ficarem completamente isoladas, sem acesso a cuidados médicos.

“O ataque contra o hospital Al Quds destruiu um dos últimos locais em Aleppo onde se poderia encontrar humanidade. Aleppo já é um fragmento do que era antes; e esse último ataque parece determinado a eliminar até mesmo isso”, acrescenta Zancada.

MSF gostaria de atestar o trabalho heroico de médicos sírios em todo o país, que continuam tentando tratar suas comunidades em condições inimagináveis. O hospital solicitou apoio em termos de equipamentos médicos e medicamentos, e MSF está empenhada em ajudar nisso e em sua reconstrução.

MSF mantém seis instalações médicas no norte da Síria e apoia mais de 150 hospitais e centros de saúde no país, entre eles, o hospital Al Quds. A organização presta suporte à instalação desde 2012 com doações irregulares e desde 2014 com doações regulares de medicamentos.

Sudão do Sul: faltam medicamentos por todo o país


Foto: Diana Zeyneb Alhindawi

10/04/2016

Carta aberta da Dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) expressa sua frustração ao constatar que, em um contexto já dramático de violência e deslocamentos prolongados, o alerta que fizemos há um ano para a comunidade humanitária e doadores não levou a nenhuma ação estrutural ou decisiva para evitar uma escassez a nível nacional de medicamentos essenciais no Sudão do Sul.

O conflito no Sudão do Sul já dura mais de dois anos, impactando fortemente sua população e, como sempre, colocando os mais vulneráveis em risco. Além dessa situação humanitária que já é terrível, uma emergência médica adicional e evitável está se desdobrando.

A interrupção do Fundo de Medicamentos de Emergência (EMF, na sigla em inglês) – programa que assegurava o financiamento, a aquisição e a provisão de medicamentos essenciais para todo o Sudão do Sul – agora gerou a escassez inaceitável e devastadora de medicamentos no país. Embora o cumprimento dos objetivos do programa tenha sido oficialmente repassado para o governo, quase não restam dúvidas de que não haveria condições de preencher essa lacuna em meio à crise contínua no país.

Esforços para prevenir o pior foram apenas temporários, sem que houvesse reconhecimento do impacto mais amplo dessa escassez massiva de medicamentos. Foram distribuídas e transferidas reservas de medicamentos, o que, no entanto, não impediu que nossas equipes testemunhassem a escassez na maioria das instalações de saúde primária em regiões onde trabalhamos. Por exemplo, em Aweil e no seu entorno, nós visitamos 42 unidades e centros médicos, dos quais 12 estavam completamente fechados e 23 já haviam tido de fechar e os pacientes estavam tendo de comprar seus medicamentos prescritos no mercado. Tudo isso foi agravado por um surto de malária que eclodiu no ano passado, quando tratamos mais casos graves da doença do que nunca, apesar das doações e distribuições de testes e tratamentos. Ainda assim, muitos pacientes chegaram em estágios avançados da doença por causa da falta de acesso a medicamentos básicos a nível local.

Embora previsíveis na época de nosso alerta, esses fatos agora estão refletidos e foram confirmados por mecanismos oficiais de informação. Ainda assim, nenhuma abordagem estrutural foi formulada para o futuro próximo, diante do fato de que a escassez de medicamentos agora é uma realidade em todo o país. Uma nova estação chuvosa está se aproximando rapidamente, prometendo novos surtos, bem como uma logística complicada. Essa não é uma situação que possa ser resolvida por um único ator isoladamente, mas parecem faltar esforços conjuntos.

Portanto, estamos novamente fazendo um apelo a todos os doadores, atores e autoridades para que se unam a fim de evitar uma crise médica completa, que está agravando ainda mais uma situação humanitária já terrível. A população não pode ter o acesso a medicamentos vitais negado. Se esses grupos não se unirem, a vida de milhares de pessoas estará em perigo e a parcela mais vulnerável desse país será novamente impactada desproporcionalmente, particularmente mulheres e crianças.

Após já ter abordado essas preocupações ao escrever para grandes doadores e após diversas reuniões bilaterais, eu me sinto compelida a reiterar nosso apelo publicamente, na forma desta carta aberta.

Dra. Joanne Liu

Presidente Internacional – Médicos Sem Fronteiras

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