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NA PRIMEIRA CÚPULA GLOBAL SOBRE TB, MSF PEDE QUE GOVERNOS AUMENTEM ACESSO A DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO ATÉ MARÇO DE 2018

Foto: Luca Sola

17/11/2017

Petição assinada por mais de 30 mil pessoas de 120 países foi apresentada ontem a diretor-geral da OMS e a ministros de Saúde

Na abertura da primeira Conferência Global Ministerial sobre o Fim da Tuberculose, que começou ontem em Moscou, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Parceria Stop TB pedem que os países com alta carga de tuberculose (TB) implementem os padrões internacionalmente recomendados para o diagnóstico e o tratamento da doença até 24 de março de 2018, Dia Mundial de Combate à Tuberculose.

A TB é a doença infecciosa mais mortal do mundo, com 1,7 milhão de mortes em 2016. De acordo com o último relatório global sobre a tuberculose da Organização Mundial da Saúde (OMS), progressos no diagnóstico e tratamento de todas as formas de TB estão estagnados na maioria dos países; mais de 4,1 milhões de pessoas com TB continuavam sem diagnóstico ou sem notificação em 2016 e apenas uma em cada cinco pessoas com TB multirresistente a medicamentos (TB-MDR) haviam iniciado o tratamento. Dessas, apenas metade foi curada.

“Por que continuamos nesse descompasso no diagnóstico de pessoas com TB, se esse é o primeiro passo para tratar essa doença curável, prevenindo sua disseminação?”, diz o dr. Francis Varaine, assessor médico de MSF para TB. “Os governos devem avançar urgentemente, a fim de impedir que pessoas morram desnecessariamente de TB.”

De acordo com uma pesquisa publicada na terceira edição do “Out of Step” (Descompasso, em tradução literal para o português), um relatório de MSF e da Parceria Stop TB que avalia as políticas e práticas de TB em 29 países que são responsáveis por três quartos da carga global de tuberculose, 40% das pessoas que vivem com a doença permanecem sem diagnóstico.  Apenas 7 dos 29 países* usam amplamente o Xpert MTB/RIF, um teste molecular rápido para o diagnóstico de TB. Novos medicamentos e regimes de tratamento da tuberculose resistente a medicamentos vêm tendo resultados melhores que os tratamentos-padrão existentes hoje, que curam apenas metade das pessoas com tuberculose resistente e 28% das pessoas que vivem com formas de TB mais perigosas, como a ultrarresistente (TB-XDR). Setenta e nove por cento dos países pesquisados incluem um dos novos medicamentos, a bedaquilina, em seus protocolos nacionais, e 62% incluem a delamanida, o outro medicamento recente. Porém, em nível global, menos de 5% das pessoas que poderiam se beneficiar dessas substâncias tiveram acesso a elas em 2016.
    
Nesta semana, MSF, em parceria com a Stop TB, divulgou o relatório “Descompasso no leste europeu e na Ásia Central”, que apresenta o resultado de uma pesquisa realizada em oito países** sobre práticas e políticas nacionais para a TB. Uma epidemia de tuberculose resistente está crescendo no leste da Europa, onde quase metade de todos os casos de TB são multirresistentes a medicamentos e onde o número de pessoas com tuberculose resistente está aumentando em mais de 20% por ano. Entre os países analisados, 75% adotaram como política o uso do teste molecular rápido para o diagnóstico, em vez de métodos mais antigos e lentos. Ainda assim, apenas metade desses países está de fato usando o teste molecular. Cerca de 46 mil pessoas com tuberculose resistente na região analisada estavam sem diagnóstico em 2015.

“Apesar de sua letalidade, a maioria dos países está atrasada em relação à implementação de mecanismos novos e existentes que já estão disponíveis para combater a TB”, diz Lucica Ditiu, diretora executiva da Parceria Stop TB. “A Conferência Ministerial Global da OMS é o primeiro passo para compromissos concretos, corajosos e mensuráveis por parte dos ministros da Saúde, de modo que chefes de Estado e governo prestem contas durante a reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre a tuberculose.”

Na Conferência Ministerial Global desta semana, Mariam Avanesova, que foi tratada de tuberculose multirresistente na Armênia entre 2010 e 2012 e representa o TBpeople, rede eurasiática de pessoas com experiência de TB, entregou uma petição ao diretor-geral da OMS, o dr. Tedros Ghebreyesus. A petição #TodosContraTB é um apelo urgente para que os ministros da Saúde dos países mais afetados pela TB implementem políticas e práticas de diagnóstico e tratamento alinhadas com os padrões internacionais definidos pela OMS, incluindo o diagnóstico e tratamento das formas de tuberculose resistentes a medicamentos. Lançada por MSF e pela Stop TB, a petição foi assinada por mais de 30 mil pessoas de 120 países, unidas a pessoas afetadas pela TB.

“Depois de ser curada da TB-MDR, decidi continuar trabalhando na área porque considero inaceitável que pessoas estejam morrendo devido a um diagnóstico tardio ou a medicamentos que não funcionam, ou simplesmente por terem desistido em decorrência dos efeitos colaterais que 20 comprimidos por dia durante dois anos podem causar”, diz Avanesova. “Eu realmente quero fazer um apelo a todos os governos para que incrementem rapidamente o acesso a exames e tratamentos para tuberculose para todos os que precisam. Espero que essa conferência traga ações práticas, urgentes e concretas.”

*Armênia, Bielorrússia, Brasil, Geórgia, África do Sul, Suazilândia e Zimbábue.
** Armênia, Bielorrússia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Federação Russa, Tadjiquistão e Ucrânia.

MSF é uma organização internacional humanitária e independente que leva cuidados médicos a pessoas afetadas por conflitos armados, epidemias, desastres naturais e exclusão de acesso a cuidados de saúde. Fundada em 1971, MSF tem projetos em cerca de 70 países hoje. MSF trata pessoas com TB há 30 anos. Em 2016, MSF tratou mais de 20 mil pessoas com TB, sendo 2.700 delas pacientes com TB multirresistente a medicamentos.
A Stop TB, com seus 1.600 integrantes, é uma força coletiva que está transformado a luta contra a TB em mais de 110 países.

ARTE SE CONECTA À AJUDA HUMANITÁRIA EM SALVADOR

Arte se conecta à ajuda humanitária em Salvador - Foto: Leticia de Oliveira

22/06/2017

Parte do evento Conexões MSF, grafite Diário de Arte foi finalizado no dia 4 de junho

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) ganhou uma homenagem artística que marcou as paredes da estação rodoviária Nova Lapa, na cidade de Salvador, na Bahia. A entrega do grafite Diário de Arte, feito pelos artistas Éder Muniz e Raphael Ribeiro, foi parte do encerramento do evento Conexões MSF, realizado em Salvador do dia 27 de maio ao dia 4 de junho.

Arte se conecta à ajuda humanitária em Salvador

No grafite pintado por Éder e Raphael, a ação humanitária é representada por um pássaro que se conecta ao ser humano, fazendo uma alusão à mensagem de ultrapassar fronteiras para oferecer cuidado e assistência. “Esse trabalho busca a essência do médico. É a ideia de estar próximo do paciente, de entender cada caso, ou seja, de sair desse ponto comercial que a gente vê hoje, essa comercialização da medicina”, explica Éder. “É incrível poder juntar o nosso trabalho com a ajuda humanitária, e poder mostrar e falar disso aqui, na Lapa”, diz o artista.

Para Raphael, a exposição dessa obra em um lugar de grande circulação é motivo de orgulho. “MSF realiza seu trabalho de ajuda em lugares de guerra e onde as pessoas estão sofrendo. Poder fazer esse painel é compartilhar um pouco dessa história para a população, e isso, para mim, foi fantástico”, diz ele.

O painel, feito ao longo das duas últimas semanas, ficará exposto na estação pelos próximos meses na entrada dos ônibus da estação Nova Lapa.

Estação Nova Lapa
Av. Vale do Tororó, s/n
Bairro Tororó
Salvador, BA

Carta aberta aos empregados da Pfizer: precisamos de aliados



15/11/2016

Prezados empregados da Pfizer

Há quase um ano, estávamos do lado de fora do seu escritório na cidade de Nova York empilhando dinheiro falso em frente à entrada. Há seis meses, retornamos para deixar 2.500 flores em um berço. Tudo isso para ilustrar que a vacina essencial contra pneumonia da Pfizer não está chegando às crianças necessitadas.

Foto: Edwin TorresFoto: Edwin Torres

Sei que talvez não tenhamos nosso contato da melhor maneira, então deixem que me apresente: sou Mary Jo, e trabalhei como enfermeira de Médicos Sem Fronteiras (MSF) por 17 anos.

Vocês já devem ter ouvido falar sobre o que a nossa campanha, “A dose justa”, pede a vocês: vacinas contra pneumonia pelo preço de 5 dólares por criança para todos os países em desenvolvimento e organizações humanitárias. Eu preciso que essa possibilidade se torne real, porque a realidade em que vivemos agora – na qual milhões de crianças morrem por ano de uma doença evitável – é desoladora.  

Deixem-me falar sobre Mohamed, um menino de seis anos que conheci em meu último projeto, na Nigéria.  Quando cheguei à clínica, ele estava sentado no chão com seu irmão mais novo. Eles estavam muito magros e tinham úlceras terríveis e visivelmente dolorosas nos lábios. Mohamed quase não reagia. Ao mesmo tempo, porém, ele bufava e tentava desesperadamente respirar. Ele estava com a frequência respiratória de uma pessoa de 60 anos, cerca de três vezes mais que o normal para uma criança de sua idade – o que significava que seus pulmões estavam trabalhando muito mais que o normal para conseguir a quantidade de oxigênio de que ele precisava.  

Eu o peguei no colo imediatamente. Sua frequência respiratória era um sinal evidente de pneumonia. Depois confirmamos que Mohamed tinha malária, sarampo, pneumonia – o trio de assassinos da infância – e desnutrição. Encontramos um leito isolado para ele e aplicamos terapia intravenosa para ministrar fluidos e medicamentos.

O que mais me impressionou em Mohamed foi sua seriedade. Mesmo que eu soubesse que ele estava sentindo muita dor e que não tinha apetite para comer ou beber água, ele estava comprometido com sua própria autonomia: ele queria segurar o copo com as próprias mãos, porque não é normal precisar da ajuda de alguém para se alimentar aos seis anos de idade. Ele estava muito fraco, mas estava determinado a se manter forte.

Mohamed foi para casa com sua mãe e seu irmão naquela noite. No dia seguinte, fui a outra clínica de MSF, mais perto de sua casa, e procurei por ele. Quando cheguei à ala pediátrica, eu o vi da mesma forma do dia anterior: sentado no chão com o irmão. Mas desta vez ele estava animado. Ele estava sorrindo. A reviravolta foi incrível. Mohamed teve sorte de vir à nossa clínica no momento em que veio, e nós tivemos a sorte de os antibióticos funcionarem contra sua pneumonia. Esse nem sempre é o caso.

Eu penso no que crianças como Mohamed vivenciam. Várias crianças que conhecemos passam por muito na vida, e bastante cedo – guerras, conflitos, fugas constantes e uma terrível pobreza. Não podemos evitar que essas coisas aconteçam. Mas as doenças? Isso, sim, podemos evitar. Se ao menos pudermos proteger as crianças com vacinação, elas terão grandes possibilidade de sobreviver aos demais problemas.

A pneumonia de Mohamed poderia ter sido prevenida se sua vacina estivesse disponível. Mesmo quando alguns países – entre eles a Nigéria – introduzem a vacina contra pneumonia nos planos regulares de imunização, às vezes conflitos ou desastres naturais interrompem programas de saúde de rotina. É nessas ocasiões que organizações humanitárias podem proporcionar algum alívio até que a situação se estabilize.  

Mães e filhos fazem fila para vacinação contra malária em clínica de 
MSF na Nigéria (Foto: Sylvain Cherkaoui/COMSMOS

Por isso é importante que o preço da vacina contra a de pneumonia seja diminuído para os países que não recebem vacinas financiadas por doadores e para organizações humanitárias.

Sabemos que para que isso se torne realidade, o desejo de mudança tem que vir de dentro da Pfizer também. Vocês vão se solidarizar com crianças como Mohamed?

Pode não ser fácil, mas se isso impactar vocês, por favor, ajudem a espalhar essas palavras compartilhando esta carta com um de seus colegas de trabalho.

Obrigada.



MSF saúda decisão da GSK de reduzir preço da vacina pneumocócica para algumas das crianças mais vulneráveis do mundo

MSF faz apelo para que a Pfizer acompanhe a decisão da GSK e ofereça à comunidade 
humanitária o menor preço global disponível - Foto: Yann Libessart/MSF

21/09/2016

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) saúda a decisão da GlaxoSmithKline (GSK) de reduzir os preços de sua vacina pneumocócica conjugada (PCV, na sigla em inglês) para as organizações humanitárias que atendem crianças refugiadas e afetadas por crises. Nos últimos sete anos, MSF tem mantido conversações com a GSK e a Pfizer – as duas únicas produtoras da vacina contra a pneumonia – para ter acesso à vacina por um preço mais barato. A redução do preço da GSK é um passo muito significativo em direção à proteção de crianças vulneráveis que são atendidas por organizações humanitárias como MSF. MSF espera, agora, que a Pfizer siga o exemplo da GSK e que as duas empresas também reduzam os preços da vacina para os governos de países em desenvolvimento, que ainda não podem arcar com o custo de incluir a PCV em seu calendário padrão de imunização infantil.

Campanha de vacinação de MSF contra pneumonia em Uganda 

Foto: Sydelle Willow Smith / MSF

“A GSK deu um passo fundamental em favor das crianças que se encontram em situações de emergência”, diz a dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF. “Com essa redução de preço, nossas equipes finalmente poderão expandir seus esforços para proteger as crianças contra essa doença mortal. Agora, a GSK deve redobrar seus esforços para reduzir o preço, também, para os muitos países em desenvolvimento que ainda não podem arcar com o custo de proteger suas crianças contra a pneumonia.”

A pneumonia é a principal causa da mortalidade infantil no mundo, matando quase 1 milhão de crianças por ano. Crianças afetadas por crises, como conflitos ou outros tipos de emergência humanitária, são particularmente suscetíveis a contrair pneumonia. Equipes médicas de MSF frequentemente constatam os efeitos mortais da pneumonia – uma doença evitável por meio de vacinação – nas crianças vulneráveis a que prestam atendimento.

Até agora, nem MSF nem outras organizações humanitárias podiam adquirir as vacinas contra a pneumonia por um preço acessível; neste ano, MSF pagou 60 euros (cerca de US$ 68) por uma dose do produto da Pfizer para vacinar crianças refugiadas na Grécia – 20 vezes mais que o menor preço oferecido pela GSK e pela Pfizer. São necessárias três doses para imunizar uma criança.

Em maio, MSF entregou uma petição com mais de 416 mil assinaturas de pessoas de 170 países, pedindo que a Pfizer e a GSK reduzissem os preços da vacina contra a pneumonia para US$ 5 por criança (pelas três doses) para as populações afetadas por crises e para todos os países em desenvolvimento.

Com seu comunicado do dia 19 de setembro, a GSK agora se comprometeu a oferecer a vacina a US$ 9 por criança (3,05 dólares por dose) às organizações humanitárias. O anúncio da GSK rompe uma enorme barreira no acesso da comunidade humanitária à vacina contra a pneumonia, mas a vacina da Pfizer (PCV13) ainda é indispensável para muitos países onde MSF e outras organizações oferecem assistência. A Pfizer, porém, continua se recusando a oferecer às organizações humanitárias um preço mais barato por sua vacina.

“A Pfizer deveria acompanhar a decisão da GSK e ajudar a criar uma solução mais ampla para a comunidade humanitária oferecendo, também, o menor preço global pela vacina”, diz Liu. Em vez de diminuir o preço do produto para a comunidade humanitária, a Pfizer apenas ofereceu um programa de doações. MSF prefere ter acesso a vacinas por um preço econômico, de forma que crianças em situação vulnerável não precisem depender da boa vontade voluntária das empresas farmacêuticas.



Com o início da Assembleia Geral da ONU, MSF faz apelo aos governos para que alinhem as políticas de pesquisa médica às necessidades de saúde da população

Foto: Doris Burtscher/MSF

19/09/2016

Novo relatório de MSF aponta fracassos da indústria farmacêutica e destaca novos modelos de pesquisar e desenvolver medicamentos que atendam às necessidades da saúde pública

Os governos precisam fazer mais para promover o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e diagnósticos urgentemente necessários a preços acessíveis, pede um novo relatório da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Na Assembleia Geral das Nações Unidas, que começa nesta semana em Nova York, os 193 países-membros devem priorizar uma ação urgente para enfrentar falhas do atual sistema de pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos essenciais, como antibióticos, e seus preços, muitas vezes altíssimos.

O relatório de MSF, Lives on the Edge: Time to Align Medical Research and Development with People’s Health Needs (Vidas no limite: é hora de alinhar pesquisa e desenvolvimento médicos às necessidades de saúde da população), diagnostica o fracasso do sistema atual de pesquisa e desenvolvimento, e sugere novas formas de desenvolver ferramentas que atendam melhor às necessidades das pessoas, por preços que elas possam pagar. Os governos devem aproveitar a oportunidade para tomar uma atitude agora, particularmente à luz do relatório sobre essas questões encomendado pelo Secretário Geral das Nações Unidas, e do fato de estar em discussão na Assembleia Geral uma ação para enfrentar coletivamente o aumento de infecções resistentes a medicamentos, a resistência antimicrobiana (AMR).

“Tanto em países pobres quanto em países ricos, as pessoas estão descobrindo que os medicamentos de que precisam ou não existem ou são tão caros que elas não podem comprá-los, e os governos precisam resolver esses problemas”, diz Katy Athersuch, assessora para políticas de inovação da Campanha de Acesso de MSF. “Na Assembleia Geral deste ano, os governos devem aproveitar a oportunidade para apoiar medidas que garantam que medicamentos novos e acessíveis sejam desenvolvidos para atender às necessidades urgentes de saúde – eles não podem simplesmente prescrever as mesmas velhas políticas falidas.”

Lamentavelmente, empresas farmacêuticas investem pouco em pesquisas sobre doenças que não são lucrativas, ao mesmo tempo em que os governos falharam em garantir que pesquisas financiadas com dinheiro público atendam a prioridades urgentes de saúde. A falta de ferramentas de diagnóstico, de vacinas e de medicamentos para Ebola e infecções resistentes, por exemplo, ilustra como o foco da indústria está na receita financeira esperada pelas empresas e seus acionistas, e não nas necessidades médicas mais urgentes. Com o novo medicamento contra a hepatite C custando mil dólares por pílula em alguns países, os preços exorbitantes que as empresas farmacêuticas cobram por medicamentos que podem salvar vidas estão sob intenso escrutínio em muitos dos 193 países-membros das Nações Unidas.

“As necessidades das populações dos países mais pobres não são notadas pelas empresas farmacêuticas. Nos últimos 50 anos, apenas dois novos medicamentos foram desenvolvidos para tratar a tuberculose, a doença infecciosa que mais mata no mundo, responsável por 1,5 milhão de mortes por ano”, disse a dra. Jennifer Hughers, médica especialista em tuberculose de MSF na África do Sul. “As pessoas tratadas por MSF contra tuberculose resistente a medicamentos precisam de tratamentos que não as deixem surdas ou com pensamentos suicidas, e que deem a elas maiores chances de serem curadas. Mas a forma com que novos medicamentos vêm sendo desenvolvidos mostra que as corporações farmacêuticas não estão interessadas em oferecer tratamentos melhores contra a tuberculose – porque isso não representa grandes lucros para elas. ”

Os governos devem adotar novas políticas de desenvolvimento e pesquisa de tecnologias médicas que diagnostiquem e tratem melhor as necessidades de saúde das pessoas de todos os países – e por preços acessíveis. Essas políticas devem romper a ligação entre pesquisas médicas e preços altos, que foi estabelecida com a concessão de monopólios de produção protegidos da concorrência. Um exemplo de uma nova abordagem possível é o Projeto 3P, uma iniciativa de MSF e outras organizações envolvidas com tuberculose destinada a conduzir pesquisas colaborativas de novos regimes de tratamento contra a doença, por meio do compartilhamento de dados e dos direitos de propriedade intelectual, e de mecanismos de pagamento pelas pesquisas que usam uma combinação de subvenções e prêmios.

“A velha maneira de conduzir pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos claramente não funciona mais – não para os países mais pobres, e, a longo prazo, nem para os mais ricos”, diz Athersuch. “Precisamos reescrever inteiramente o livro texto sobre pesquisa e desenvolvimento: é hora de tentar algo novo. Com o secretário geral da ONU liderando um esforços para melhorar a inovação e o acesso a tecnologias de saúde, e uma cúpula mundial discutindo o tema da crise global de infecções resistentes e medicamentos, a Assembleia Geral deste ano é uma ótima oportunidade para que os governos tracem novos rumos no que diz respeito a pesquisa e desenvolvimento na medicina.”



Abordagem nociva de Estados da União Europeia em relação à migração coloca o direito ao asilo em perigo em todo o mundo

Foto: Alessandro Penso

22/06/2016

MSF não receberá mais fundos de Estados-membros e de instituições da União Europeia

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou hoje (17/6) que não irá mais receber fundos da União Europeia (UE) e de seus Estados-membros, em oposição às suas políticas de dissuasão danosas e à intensificação das tentativas de empurrar as pessoas e seu sofrimento para longe da costa da Europa. Essa decisão entrará em vigor imediatamente e será válida para todos os projetos de MSF no mundo.

Três meses após a assinatura do acordo entre UE e Turquia, que governos europeus consideram um êxito, são as pessoas necessitadas de proteção que estão arcando com seu custo humano. Nas ilhas gregas, mais de 8 mil pessoas, incluindo centenas de menores desacompanhados, estão retidas como uma consequência direta do acordo. Elas estão vivendo em condições extremamente precárias, em acampamentos superlotados, por vezes durante meses. Temem um retorno forçado à Turquia enquanto são privadas de apoio jurídico, sua única defesa contra a expulsão coletiva. A maioria dessas famílias, que a Europa afastou dos olhos do público por meio de disposições legislativas, fugiu do conflito na Síria, no Iraque e no Afeganistão.

“Há meses MSF tem se pronunciado abertamente sobre a resposta vergonhosa da Europa, mais focada em dissuadir essas pessoas do que em lhes oferecer a assistência e a proteção de que necessitam”, disse Jérôme Oberreit, secretário-geral internacional de MSF. “O acordo entre UE e Turquia vai ainda além, e colocou o próprio conceito de ‘refugiado’ e a proteção que ele oferece em perigo.”

Na semana passada, a Comissão Europeia revelou uma nova proposta para replicar a lógica do acordo UE-Turquia em mais de 16 países da África e do Oriente Médio. Esses acordos imporiam cortes no comércio e na ajuda ao desenvolvimento a países que não contém o fluxo migratório para a Europa ou facilitam retornos forçados, recompensando aqueles que o fazem. Entre os potenciais parceiros estão Somália, Eritreia, Sudão e Afeganistão – quatro dos 10 países que mais geram refugiados*.

Jérôme Oberreit - secretário-geral internacional de MSF
(Foto: Alex Yallop/MSF)
“A única oferta da Europa aos refugiados é que eles fiquem em países de onde estão desesperados para fugir? Mais uma vez, o foco principal da Europa não está na proteção das pessoas, mas na maneira mais efetiva de mantê-las distante”, disse Jérôme Oberreit.

O acordo entre UE e Turquia estabelece um precedente perigoso para outros países que abrigam refugiados, enviando uma mensagem de que cuidar de pessoas forçadas a deixar suas casas é opcional e que eles podem se eximir de sua responsabilidade de prover asilo. No mês passado, o governo queniano citou a política migratória europeia para justificar sua decisão de fechar o maior campo de refugiados do mundo, Dadaab, enviando seus residentes de volta para a Somália. Do mesmo modo, o acordo não faz nada para encorajar países ao redor da Síria, que já abrigam milhões de refugiados, a abrir suas fronteiras para aqueles que precisam.

“A tentativa da Europa de terceirizar o controle migratório está tendo um efeito dominó, com fronteiras fechadas em todo o caminho até a Síria. As pessoas têm cada vez menos locais para onde fugir”, disse Jérôme Oberreit. “Será que a situação em Azaz, onde 100 mil pessoas estão presas entre fronteiras fechadas e frentes de batalha, se tornará a regra, não a exceção mortal?”

O pacote financeiro do acordo UE-Turquia inclui 1 bilhão de euros em ajuda humanitária. Há, sem dúvida, necessidades na Turquia, um país que abriga, atualmente, quase três milhões de refugiados sírios. Mas essa ajuda foi negociada como uma recompensa por promessas de controle fronteiriço, em vez de ser baseada exclusivamente nas necessidades. Essa instrumentalização da ajuda humanitária é inaceitável.

“Políticas de dissuasão apresentadas para o público como soluções humanitárias só exacerbaram o sofrimento das pessoas em necessidade. Não há nada remotamente humanitário nessas políticas. Elas não podem se tornar a norma e devem ser questionadas”, disse Jérôme Oberreit. “MSF não receberá fundos de instituições e governos cujas políticas são tão prejudiciais. Estamos pedindo aos governos europeus que alterem suas prioridades – em vez de maximizar o número de pessoas que eles podem deportar, eles devem maximizar o número de pessoas que recebem e protegem.”

* Relatório do Acnur “Tendências Globais 2015”. Disponível aqui.

MSF tem prestado assistência às pessoas que fazem a travessia do mar Mediterrâneo para a Europa desde 2002. Apenas nos últimos 18 meses, médicos de MSF trataram cerca de 200 mil homens, mulheres e crianças na Europa e no mar Mediterrâneo. Atualmente, a organização está atendendo refugiados e imigrantes na Grécia, na Sérvia, na França, na Itália e no mar Mediterrâneo, bem como em países na África, na Ásia e no Oriente Médio.

As atividades de MSF são financiadas majoritariamente por doações privadas (92%). No entanto, a organização também está envolvida em algumas parcerias financeiras com doadores institucionais para programas específicos. Em 2015, os fundos de instituições da UE representaram 19 milhões de euros, enquanto fundos dos Estados-membros representaram 37 milhões de euros. MSF também utilizou 6,8 milhões de euros recebidos do governo norueguês. Em 2016, além da Comissão Europeia, MSF está envolvida em parcerias com nove Estados-membros europeus: Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Luxemburgo, Países Baixos, Espanha, Suécia e Reino Unido.


Abordagem nociva de Estados da União Europeia em relação à migração coloca o direito ao asilo em perigo em todo o mundo

Foto: Alessandro Penso

18/06/2016

MSF não receberá mais fundos de Estados-membros e de instituições da União Europeia

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou hoje (17/06) que não irá mais receber fundos da União Europeia (UE) e de seus Estados-membros, em oposição às suas políticas de dissuasão danosas e à intensificação das tentativas de empurrar as pessoas e seu sofrimento para longe da costa da Europa. Essa decisão entrará em vigor imediatamente e será válida para todos os projetos de MSF no mundo.

Três meses após a assinatura do acordo entre UE e Turquia, que governos europeus consideram um êxito, são as pessoas necessitadas de proteção que estão arcando com seu custo humano. Nas ilhas gregas, mais de 8 mil pessoas, incluindo centenas de menores desacompanhados, estão retidas como uma consequência direta do acordo. Elas estão vivendo em condições extremamente precárias, em acampamentos superlotados, por vezes durante meses. Temem um retorno forçado à Turquia enquanto são privadas de apoio jurídico, sua única defesa contra a expulsão coletiva. A maioria dessas famílias, que a Europa afastou dos olhos do público por meio de disposições legislativas, fugiu do conflito na Síria, no Iraque e no Afeganistão.

“Há meses MSF tem se pronunciado abertamente sobre a resposta vergonhosa da Europa, mais focada em dissuadir essas pessoas do que em lhes oferecer a assistência e a proteção de que necessitam”, disse Jérôme Oberreit, secretário-geral internacional de MSF. “O acordo entre UE e Turquia vai ainda além, e colocou o próprio conceito de ‘refugiado’ e a proteção que ele oferece em perigo.”

Na semana passada, a Comissão Europeia revelou uma nova proposta para replicar a lógica do acordo UE-Turquia em mais de 16 países da África e do Oriente Médio. Esses acordos imporiam cortes no comércio e na ajuda ao desenvolvimento a países que não contém o fluxo migratório para a Europa ou facilitam retornos forçados, recompensando aqueles que o fazem. Entre os potenciais parceiros estão Somália, Eritreia, Sudão e Afeganistão – quatro dos 10 países que mais geram refugiados*.

Jérôme Oberreit - Secretário-Geral Internacional do MSF (Foto: Alex Yallop/MSF)

“A única oferta da Europa aos refugiados é que eles fiquem em países de onde estão desesperados para fugir? Mais uma vez, o foco principal da Europa não está na proteção das pessoas, mas na maneira mais efetiva de mantê-las distante”, disse Jérôme Oberreit.

O acordo entre UE e Turquia estabelece um precedente perigoso para outros países que abrigam refugiados, enviando uma mensagem de que cuidar de pessoas forçadas a deixar suas casas é opcional e que eles podem se eximir de sua responsabilidade de prover asilo. No mês passado, o governo queniano citou a política migratória europeia para justificar sua decisão de fechar o maior campo de refugiados do mundo, Dadaab, enviando seus residentes de volta para a Somália. Do mesmo modo, o acordo não faz nada para encorajar países ao redor da Síria, que já abrigam milhões de refugiados, a abrir suas fronteiras para aqueles que precisam.

“A tentativa da Europa de terceirizar o controle migratório está tendo um efeito dominó, com fronteiras fechadas em todo o caminho até a Síria. As pessoas têm cada vez menos locais para onde fugir”, disse Jérôme Oberreit. “Será que a situação em Azaz, onde 100 mil pessoas estão presas entre fronteiras fechadas e frentes de batalha, se tornará a regra, não a exceção mortal?”

O pacote financeiro do acordo UE-Turquia inclui 1 bilhão de euros em ajuda humanitária. Há, sem dúvida, necessidades na Turquia, um país que abriga, atualmente, quase três milhões de refugiados sírios. Mas essa ajuda foi negociada como uma recompensa por promessas de controle fronteiriço, em vez de ser baseada exclusivamente nas necessidades. Essa instrumentalização da ajuda humanitária é inaceitável.

“Políticas de dissuasão apresentadas para o público como soluções humanitárias só exacerbaram o sofrimento das pessoas em necessidade. Não há nada remotamente humanitário nessas políticas. Elas não podem se tornar a norma e devem ser questionadas”, disse Jérôme Oberreit. “MSF não receberá fundos de instituições e governos cujas políticas são tão prejudiciais. Estamos pedindo aos governos europeus que alterem suas prioridades – em vez de maximizar o número de pessoas que eles podem deportar, eles devem maximizar o número de pessoas que recebem e protegem.”

* Relatório do Acnur “Tendências Globais 2015”. Disponível aqui.

MSF tem prestado assistência às pessoas que fazem a travessia do mar Mediterrâneo para a Europa desde 2002. Apenas nos últimos 18 meses, médicos de MSF trataram cerca de 200 mil homens, mulheres e crianças na Europa e no mar Mediterrâneo. Atualmente, a organização está atendendo refugiados e imigrantes na Grécia, na Sérvia, na França, na Itália e no mar Mediterrâneo, bem como em países na África, na Ásia e no Oriente Médio.

As atividades de MSF são financiadas majoritariamente por doações privadas (92%). No entanto, a organização também está envolvida em algumas parcerias financeiras com doadores institucionais para programas específicos. Em 2015, os fundos de instituições da UE representaram 19 milhões de euros, enquanto fundos dos Estados-membros representaram 37 milhões de euros. MSF também utilizou 6,8 milhões de euros recebidos do governo norueguês. Em 2016, além da Comissão Europeia, MSF está envolvida em parcerias com nove Estados-membros europeus: Bélgica, Dinamarca, Irlanda, Luxemburgo, Países Baixos, Espanha, Suécia e Reino Unido.

Fonte: MSF

MSF faz apelo a líderes do G7 por ação urgente voltada para respostas de emergência a questões de saúde pública

Foto: Anna Surinyach

26/05/2016

Para MSF, é essencial também baixar os preços de medicamentos essenciais

Dois anos depois dos primeiros sinais da epidemia de Ebola na África Ocidental, o mundo hoje está um pouco mais preparado para responder a uma emergência como essa do que estava à época, alerta a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), na medida em que a falta de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) voltados para medicamentos necessários e os preços exorbitantes de medicamentos existentes demandam ação urgente e conjunta dos líderes mundiais reunidos no Japão.

Sistemas de Saúde Globais: “Não construam um hospital sem sala de emergência”

Enquanto os líderes dos países que compõem o G7 – Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – se reúnem em Ise-Shima nos próximos dois dias, MSF apela para que se comprometam de forma audaciosa com o investimento de recursos para responder às emergências de saúde que afetam o coração dos sistemas de saúde globais.

“É preciso dar atenção especial para garantir que a resposta a emergências de saúde permaneça como tema central de todas as discussões acerca da segurança da saúde e a cobertura universal da saúde (UHC, na sigla em inglês)”, afirma a Dra. Monica Rull, especialista em saúde de MSF na Suíça. “O fortalecimento da resposta de emergência precisa ser orientado pelas necessidades de saúde daqueles que se encontram em meio a crises, em vez de ela ser acionada apenas quando a questão é considerada uma ameaça à segurança internacional.”

O objetivo louvável da cobertura universal da saúde é que ninguém tenha de enfrentar dificuldades financeiras para ter acesso a cuidados de saúde, e se deve batalhar por isso.

Mas é evidente que as necessidades e as ameaças de epidemias de doenças em massa persistem, desde o afloramento de casos de Ebola anteriormente neste ano, na África Ocidental, ao atual surto de febre amarela em Angola.

A situação atual se resume a uma capacidade de resposta a emergência gravemente limitada em alguns países frágeis e em desenvolvimento. Os países do G7 deveriam aproveitar a oportunidade para liderar a comunidade internacional em mais ações para cobrir as lacunas às quais esses países não conseguem responder sozinhos, ou onde parte da população é negligenciada ou marginalizada.

“O fortalecimento de sistemas de saúde globais sem a ampliação da capacidade e dos recursos para responder a emergências é como construir um hospital, mas esquecer de incluir em suas dependências uma sala de emergência”, diz Jeremie Bodin, diretor-geral de MSF no Japão.

Baixem o preço de medicamentos vitais: sigam os passos da França no acesso a medicamentos

Médicos Sem Fronteiras parabeniza o governo francês por ter assumido a liderança na priorização do tema acesso a medicamentos, incluindo os preços exorbitantes dos produtos, e a falta de P&D voltado para medicamentos necessários. Ainda assim, o país tem enfrentado forte oposição de outros membros do G7 para manifestar claramente que os países do bloco irão assumir a liderança na resposta a temas relacionados com o acesso a medicamentos, incluindo preços.

O G7 deveria mudar o rumo e não apenas priorizar essa discussão, como também apoiar fortemente o painel de alto nível que trata do acesso a medicamentos do Secretariado Geral das Nações Unidas, que culminará em uma grande reunião a ser realizada em Nova York em setembro. Paralelamente, MSF pede a outros governos do G7 que não cedam à pressão por parte do lobby das farmacêuticas para ignorar ou minar as discussões acerca desse tema na cúpula e além.

“Todos os dias em nossos projetos, vemos as consequências enfrentadas pelas pessoas devido ao alto preço dos medicamentos ou ao fato de que tratamentos de que precisam simplesmente não existem”, afirmou o Dr. Greg Elder, coordenador médico da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Ainda hoje essa é uma crise global que demanda a atenção e a ação dos países mais poderosos do mundo. Os holofotes globais estão sobre os governos para que, finalmente, tirem as cabeças da areia e ofereçam uma solução para que todas as pessoas possam ter acesso aos medicamentos dos quais precisam para se manterem vivas e saudáveis. Eles também precisam acordar para o fato de que a cobertura de saúde universal será um sonho impossível sem que os altos preços sejam abordados.”

A atenção pública esteve concentrada nos preços exorbitantes dos novos medicamentos para hepatite C, que as companhias farmacêuticas estabeleceram em até US$ 1 mil por pílula – ou próximo de US$ 100 mil por curso do tratamento –, causando o racionamento global do tratamento para uma doença fatal que afeta 150 milhões de pessoas e mata cerca de 700 mil todos os anos.

Hoje, mesmo com novos medicamentos que podem resultar na cura em 12 semanas, a hepatite C é a principal causa de morte entre as doenças infecciosas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, cresce a indignação com a falta de antibióticos para tratar as infecções resistentes a medicamentos das pessoas, que, segundo prevê um relatório recente governo do Reino Unido, pode matar 10 milhões de pessoas por ano em 2050.

O Ebola é outro exemplo gritante, no qual vacinas e tratamentos não existiam para combater a doença que estava fugindo do controle. Esses exemplos refletem uma urgente necessidade de mudar a maneira como a pesquisa farmacêutica é conduzida para que a pesquisa seja orientada de forma a atender às necessidades de saúde essenciais e para que as pessoas possam ter acesso a medicamentos necessários a um preço factível.

“Os governos precisam parar de priorizar o comércio em vez de vidas humanas”, afirmou Nathalie Ernoult, da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “O tempo está se esgotando e todos estão assistindo de perto como os governos do G7 avançarão com essa questão.”


HAITI: UMA NOVA VIDA APESAR DOS OBSTÁCULOS

Foto: Shiho Fukada/Panos

12/12/2015

A menina Esther Clercy nasceu em meio ao aumento sem precedentes do número de pacientes em hospital de MSF após cortes na área da saúde

Cherline deixando o Cruo de MSF com sua filha recém-nascida (Foto: Shiho Fukada/Panos)

Cherline Pierre já está com oito centímetros de dilatação e sua pressão arterial estava muito alta em sua chegada ao Centre de Référence en Urgence Obstétricales (Cruo, na sigla em francês) da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Porto Príncipe, no Haiti, no dia 16 de outubro. Ela é levada da área de triagem para a sala de parto imediatamente. Mas seu parto estagna, sua dilatação até mesmo se reduz para sete centímetros. Ela é transferida da sala de parto para outro leito.

Já são sete horas em trabalho de parto. Está levando muito tempo, e ela explica à enfermeira que não entende o porquê. Mas, de repente, acontece: Cherline é levada de volta à sala de parto, juntando-se a outras duas mulheres também em trabalho de parto, e dá à luz uma menina saudável. Sua filha é levada para a mesa de exames e posta sob luzes de aquecimento. O pessoal médico coloca uma pomada amarela sob as pálpebras do bebê para evitar infecções oculares que podem ocorrer durante o parto.

A obstetriz Judith Coissy segura Esther Clercy logo após o seu nascimento no 
Cruo de MSF (Foto: Shiho Fukada/Panos)

No dia seguinte, Cherline é transferida para outra ala para ser monitorada. Clercy, seu marido, visita regularmente, segurando a criança com um olhar um pouco desnorteado em seu rosto. Quando a bebê chora, ele a acalma desajeitadamente, mas ela não para. Ela está com fome. Cherline a amamenta, mas sente dores nas primeiras tentativas. A enfermeira dá alguns conselhos.

Cherline e Clercy decidem chamar sua filha de Esther Clercy, e, na manhã seguinte, Cherline, Clercy e Esther vão para casa. Clercy protege sua esposa e a filha recém-nascida contra o sol com dois guarda-chuvas novos, ainda com as etiquetas. Eles sobem em um tap tap – um tipo de micro-ônibus. Está lotado, mas os passageiros se mexem para dar lugar a Cherline e Esther. Eles descem na delegacia e andam sob seu guarda-chuva até um acampamento de refugiados estruturado após o terremoto de 2010 para as pessoas que tiveram suas casas destruídas. É uma longa caminhada em uma estrada não pavimentada no calor do meio-dia. Clercy pega a bebê e anda um pouco mais a frente, ansioso para levá-la para casa: um abrigo de 15 metros quadrados com paredes e telhado de revestimento metálico. Do lado direito, está a cama, do esquerdo, uma mesa pequena. Seus bens estão em um armário. Dentro da casa é mais quente do que do lado de fora.

Cherline deita sua bebê na cama. Ela está feliz por estar em casa.

Fonte: MSF


EBOLA: CUIDANDO DA “RAINHA NUBIA”

Foto: Sam Phelps

09/12/2015

Com um mês de vida, Nubia é o primeiro bebê recém-nascido a sobreviver ao Ebola de que se tem conhecimento

Com um mês de vida, Nubia é o primeiro bebê recém-nascido a ter sobrevivido ao Ebola de que se tem conhecimento. Ela é também o último caso da doença reportado na Guiné. Na semana em que ela voltou para casa, curada, a Dra. Marie-Claire Kolié, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), faz uma retrospectiva de quatro semanas emocionantes.

“Foi um começo triste”, diz a Dra. Marie-Claire Kolié, que trabalhou no centro de tratamento de Ebola de MSF na capital da Guiné, Conacri, desde o início da epidemia. No dia 23 de outubro de 2015, Mamasta, uma mulher em estágio avançado de gravidez, do vilarejo de Forecariah, foi admitida no centro. Ela já havia perdido um membro de sua família para o vírus, e os testes mostraram que ela também tinha a doença.

Quatro dias depois, Mamasta entrou em trabalho de parto e deu à luz uma menina. Como uma doença hemorrágica, o Ebola aumenta muito as chances de hemorragia grave. Durante o parto, Mamasta perdeu muito sangue. “Todos os profissionais queriam desesperadamente que a mãe sobrevivesse, mas sua condição se deteriorou rapidamente após o nascimento”, diz a Dra. Marie-Claire Kolié. Horas depois, Mamasta faleceu. A Dra. Marie-Claire Kolié se sentiu chocada e entristecida com a sua morte. “Em meu coração, eu achava que ela iria sobreviver”, conta.

Profissionais de MSF cercam a bebê Nubia após a notícia de sua alta do centro 
de tratamento de Ebola de MSF em Conacri (Foto: Sam Phelps)

Ninguém esperava que o bebê, que nasceu com Ebola, fosse sobreviver por muito tempo. Durante a epidemia, nenhum bebê nascido de mães infectadas haviam vivido por mais do que algumas horas. Mas apesar do mau prognóstico, e dos desafios de cuidar de um recém-nascido em uma zona de isolamento usando vestimentas de proteção, a equipe médica estava determinada a salvá-la.

“Cuidar de um recém-nascido que não tinha condições de expressar sua dor foi difícil”, diz a Dra. Marie-Claire Kolié. “Mas nós não desistimos; oferecemos cuidados a todo o momento.”

O nome escolhido para a bebê foi Nubia, por causa de uma enfermeira de MSF, e o pessoal médico começou a chamá-la de “a rainha”.

Nubia foi tratada com dois medicamentos experimentais – Zmapp e GS-5734. A cada hora, a equipe de médicos se revezava para checar sua respiração e seus batimentos cardíacos. As enfermeiras do berçário iam até a zona de isolamento em intervalos regulares para pegá-la no colo, alimentá-la e trocar suas fraldas.

Foi um momento muito tenso para a equipe. “Ela ficou doente várias vezes e um pânico geral se instalava ali”, diz a Dra. Marie-Claire Kolié.

Soumah, tia de Nubia, a caminho de casa após a bebê ter recebido alta 
do centro de tratamento de Ebola de MSF em Conacri (Foto: Sam Phelps)

Mas, gradualmente, a condição de Nubia melhorou e, um mês depois, os testes mostraram que ela havia vencido o vírus. No dia 28 de novembro, Nubia recebeu alta do centro de tratamento de Ebola e voltou para sua família.

“Eu fiquei muito feliz”, diz a Dra. Marie-Claire Kolié. “Eu gostaria de agradecer a todos os profissionais, internacionais e locais, pelo apoio e cuidado que ofereceram a nossa última paciente.”

Nubia ainda não está totalmente fora de perigo. Muitos sobreviventes de Ebola sofrem de problemas de saúde contínuos mesmo muito tempo após terem vencido a doença, e MSF continuará prestando suporte médico à criança, assim como oferece assistência médica gratuita e apoio psicológico a outros sobreviventes de Ebola e às suas famílias, e ao pessoal médico que esteve em contato direto com pacientes do vírus.

Caso se passarem 42 dias sem quaisquer novos casos, a epidemia, que já tirou cerca de 11.300 vidas na África Ocidental, estará oficialmente encerrada na Guiné. Na medida em que o país se prepara para este momento, MSF está se organizando para inaugurar uma clínica em Conacri para os sobreviventes da doença.

Desde março de 2014, as equipes de MSF na África Ocidental trataram 10.288 pacientes de Ebola, incluindo 1.932 pacientes em Conacri, na Guiné.

Fonte: MSF

Ato público pelas vítimas do bombardeio em Kunduz, Afeganistão



02/11/2015

MSF - Na terça-feira (3/11), completará um mês do bombardeio ao hospital de trauma de Médicos Sem Fronteiras em Kunduz, no Afeganistão. Junte-se a MSF em um ato público em homenagem aos nossos colegas e pacientes mortos e feridos nesta tragédia.

Nós nos reuniremos na Praia de Copacabana, às 18h30, ao lado do Posto 5. Com este evento, também queremos evitar que o sofrimento de 300 mil pessoas - que ficaram sem acesso à saúde por causa da destruição desta unidade médica - seja esquecido.

O hospital era a única instalação do tipo no noroeste do Afeganistão, com mais de 460 profissionais habilitados para oferecer cuidados cirúrgicos, pós-operatórios e de reabilitação de altíssima qualidade. Só em 2014, mais de 22 mil pacientes receberam cuidados no hospital e mais de 5.900 cirurgias foram realizadas.

Bombardear unidades de saúde é uma violação do Direito Internacional Humanitário e Médicos Sem Fronteiras exige que uma investigação independente apure exatamente o que aconteceu. Em qualquer conflito armado, as instalações médicas, pacientes e profissionais de saúde têm de ser respeitados. Não podemos deixar que esse tipo de ataque continue acontecendo. Até as guerras têm regras.

Coloque uma camiseta branca e junte-se a nós.

O que: Ato público pelas vítimas do bombardeio em Kunduz
Onde: Praia de Copacabana, ao lado do Posto 5 (altura da Rua Sá Ferreira)
Quando: terça-feira (3/11), às 18h30


MSF lança petição mundial pela investigação do ataque no Afeganistão

Foto: Andrew Quilty/Oculi

16/10/2015

Pedido é para que os EUA consintam com investigação sobre os ataques aéreos devastadores ao hospital de MSF em Kunduz

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) lançou hoje uma petição pedindo aos cidadãos de todo o mundo que reivindiquem ao presidente Barack Obama e aos Estados Unidos o consentimento com uma investigação independente dos bombardeios do hospital de trauma de MSF em Kunduz, no Afeganistão, em 3 de outubro.

MSF solicitou uma investigação independente pela Comissão Internacional Humanitária para a Apuração dos Fatos (IHFFC, na sigla em inglês) dos repetidos ataques aéreos norte-americanos ao hospital, que mataram 12 profissionais da organização e 10 pacientes, e feriram mais de 30 pessoas. A Comissão é o único órgão permanente estruturado especificamente para investigar violações do Direito Internacional Humanitário. Agora que a Comissão ofereceu formalmente seus serviços, MSF está pedindo aos Estados Unidos e ao presidente Obama que dêem seu consentimento com uma investigação acerca dos bombardeios do hospital de Kunduz. O consentimento é requerido antes que uma investigação verdadeiramente imparcial possa ser iniciada.


O ataque destruiu completamente o hospital, interrompendo o acesso de centenas de milhares de pessoas a cuidados de trauma emergenciais no norte do Afeganistão, o que representa uma grave violação do Direito Internacional Humanitário.

“O respeito às leis de guerra é o que protege nossos profissionais e pacientes em meio a zonas de conflito no mundo inteiro”, afirma Jason Cone, diretor executivo de MSF nos Estados Unidos. “Precisa haver uma investigação independente e imparcial para estabelecer os fatos desse terrível ataque ao nosso hospital. Pedimos ao presidente Obama que consinta com a investigação conduzida pela Comissão Internacional para a Apuração dos Fatos imediatamente. O consentimento com a investigação é um passo essencial para que o presidente Obama demonstre o comprometimento do governo dos EUA com as Convenções de Genebra e que as forças americanas reconheçam e respeitem as instalações médicas como espaços protegidos sob o Direito Internacional Humanitário.”

As coordenadas geográficas precisas do hospital de Kunduz, operante há quatro anos, foram fornecidas às autoridades americanas e afegãs em Washington e em Cabul dias antes dos bombardeios, e o hospital continha cerca de 200 pacientes e profissionais no momento do ataque. Investigações conduzidas pelos EUA, pela OTAN e pelo governo afegão foram iniciadas, mas é impossível esperar que as partes envolvidas no conflito conduzam investigações independentes e imparciais acerca de atos militares nos quais estão envolvidos.

A preservação de instalações de saúde como espaços neutros e protegidos depende de uma investigação independente. Sem o reconhecimento desses princípios, MSF e outras organizações humanitárias não poderiam atuar em zonas de conflito e outros locais tomados pela violência. MSF não poderia oferecer a assistência médica de que tantas pessoas precisam desesperadamente.  

O pedido de MSF não diz respeito apenas aos eventos em Kunduz, nem apenas aos Estados Unidos. É direcionado a todas as nações e partes envolvidas em conflitos, e uma oportunidade para que todos reafirmem seu comprometimento com o Direito Internacional Humanitário, para que reafirmem o direito de organizações como MSF de prover assistência médica de forma independente e imparcial em meio a zonas de conflito e para que reafirmem o esforço de trazer ao menos alguma humanidade em meio à pior das circunstâncias, agora e no futuro.

A petição é uma iniciativa global que também será conduzida por escritórios de MSF por todo o mundo, inclusive MSF-Brasil


#independentinvestigation
#investigaçãoindependente
#evenwarshaverules
#atéasguerrastêmregras

Fonte: MSF


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