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HAITI - Entre a autodeterminação nacional e a herança do colonialismo

Crédito: PICRYL
04/03/2026

A ajuda externa pode tanto aliviar quanto aprofundar os problemas estruturais do país, destacando alternativas para uma cooperação verdadeiramente emancipatória

Por: Marc Arthur Bien Aimé

O Haiti, berço da primeira revolução escravista vitoriosa nas Américas (1804), enfrenta há séculos um paradoxo: sua independência pioneira contrasta com a profunda dependência de intervenções externas. A cooperação internacional, essencial para lidar com crises como o terremoto de 2010, frequentemente reproduz dinâmicas neocoloniais, impondo agendas alheias às necessidades locais.  

A Revolução Haitiana foi um marco na luta anticolonial, mas seu legado foi sabotado por potências como França e Estados Unidos. A França exigiu uma indenização exorbitante (150 milhões de francos), em 1825, para reconhecer a independência, estrangulando a economia haitiana por décadas. No século XX, a ocupação militar dos Estados Unidos (1915–1934) reforçou a centralização do poder e a marginalização das comunidades rurais, contribuindo para a formação de um Estado frágil e dependente. 

Hoje, a ajuda internacional representa cerca de 60% da economia do Haiti, segundo dados da CEPAL (2010)1. Organizações como a ONU e ONGs globais operam com lógicas verticalizadas, como evidenciado pela MINUSTAH (2004-2017), missão da ONU criticada por abusos e por priorizar a segurança em detrimento do desenvolvimento local. O terremoto de 2010 expôs essas fragilidades: bilhões em doações foram geridos por entidades estrangeiras, enquanto as instituições haitianas foram marginalizadas. Estima-se que apenas 10% dos recursos destinados ao período pós-terremoto tenham sido repassados diretamente ao governo haitiano, segundo relatório do Center for Global Development (2013)2.   

Cooperação Norte-Sul (CNS): ajuda com condicionalidades   

Liderada por EUA, Canadá e França, a CNS frequentemente vincula assistência a interesses geopolíticos e reformas neoliberais. Por exemplo, os Estados Unidos são um dos principais doadores bilaterais, com projetos nas áreas de saúde, infraestrutura e segurança. A USAID mantém parcerias com ONGs, mas há críticas de que suas ações priorizam interesses geopolíticos. A França apoia por meio de ONGs como a Cruz Vermelha, com foco em reconstrução e saúde (Croix-Rouge Française, 2012). 

As críticas à atuação internacional em países em crise, como o Haiti, apontam que a ajuda humanitária, embora fundamental em momentos emergenciais, não resolve problemas estruturais profundos. Essa assistência tende a ser paliativa, mantendo a situação de vulnerabilidade sem alterar as bases que produzem a pobreza e a desigualdade.  

Além disso, muitas vezes, essa ajuda vem acompanhada de condicionalidades impostas por instituições financeiras internacionais, como o FMI. Essas medidas, longe de promoverem autonomia e desenvolvimento sustentável, muitas vezes aprofundam a dependência externa e fragilizam ainda mais os Estados já enfraquecidos. 

Cooperação Sul-Sul (CSS): alternativas baseadas em solidariedade   

A Cooperação Sul-Sul (CSS), impulsionada principalmente por Cuba, Venezuela e Brasil, apresenta uma abordagem distinta, fundamentada na horizontalidade e reciprocidade. Cuba destacou-se ao capacitar 550 médicos haitianos por meio da ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina) e manter presença médica contínua, inclusive após a catástrofe de 2010. A Venezuela, através do programa Petrocaribe, assegurou acesso a combustível em condições vantajosas, permitindo ao governo haitiano realocar recursos para áreas sociais prioritárias.  

Já o Brasil, mesmo com as controvérsias de seu comando na MINUSTAH, direcionou esforços para obras de infraestrutura essencial e qualificação das forças policiais locais. Esses exemplos concretos demonstram que é viável conciliar apoio externo com a preservação da autonomia nacional, contrastando com os modelos tradicionais de assistência internacional.  

Os desafios da cooperação efetiva  

Apesar dos avanços, a CSS enfrenta obstáculos seguintes:   

1. Escala limitada: Os recursos da CSS são menores comparados aos da CNS.   

2. Dependência de parcerias: Projetos como os de Cuba dependiam do financiamento venezuelano, afetado pela crise econômica.   

3. Falta de continuidade: Muitos programas são descontinuados após mudanças políticas nos países doadores.   

Além disso, a corrupção sistêmica no Haiti e a fragmentação das ONGs (o país tem mais de 10.000 organizações registradas) dificultam a eficácia da ajuda.   

Caminhos para uma Cooperação Emancipatória   

Para romper o ciclo de dependência, é essencial:   

1. Fortalecer instituições locais e evitar que ONGs substituam o Estado haitiano;   

2. Priorizar projetos de longo prazo em vez de ajuda emergencial, investindo em educação, saúde e infraestrutura sustentável;   

3. Incluir atores haitianos na tomada de decisões. Movimentos camponeses, intelectuais e lideranças comunitárias devem ter voz ativa;   

4. Rejeitar condicionalidades neoliberais. O FMI e o Banco Mundial devem abandonar políticas de austeridade que agravam a pobreza.   

Exemplos positivos incluem:   

O Pro Huerta (Argentina), que capacitou 200 mil haitianos em agricultura sustentável. 

A Brigada Henry Reeve (Cuba), que atendeu milhões em crises sanitárias.   

Conclusão: rumo a uma nova forma de solidariedade  

A cooperação internacional no Haiti evidencia um dilema persistente entre a assistência solidária e a reprodução de mecanismos de dominação. No entanto, o Haiti não precisa de mais intervenções que reproduzam colonialidade, mas de parcerias que fortaleçam sua autodeterminação. A cooperação internacional deve ser repensada para ouvir as vozes haitianas e enfrentar, finalmente, os séculos de espoliação que marcaram sua história. Enquanto a CNS perpétua dependência, a CSS oferece um caminho alternativo desde que seja ampliada, sustentável e verdadeiramente centrada no povo haitiano.

Fonte: Le Monde Diplomatique

GUTERRES LIDERA TRIBUTO DAS NAÇÕES UNIDAS ÀS VÍTIMAS DO TERREMOTO DE 2010 NO HAITIBR


17/01/2020

Cerimônia reuniu funcionários da ONU em Nova Iorque; tremor de 7 graus na escala Richter matou mais de 222 mil pessoas incluindo 102 funcionários das Nações Unidas; lista de boinas-azuis, mortos no sismo, inclui 20 brasileiros que serviam na Missão da ONU, Minustah.

Na abertura da cerimônia em memória das vítimas do terremoto do Haiti, ocorrido há 10 anos, o secretário-geral da ONU lembrou as mais de 222 mil pessoas que perderam suas vidas.  António Guterres prestou solidariedade aos milhares de haitianos que “continuam a sofrer os impactos da tragédia”. 

O tributo reuniu funcionários da organização, embaixadores dos países que apoiavam a Missão da ONU no Haiti, Minustah, que perdeu 102 funcionários, e outros participantes.
   
 Construção do monumento produzido pelo escultor Davide Dormino, com materiais dos escombros 

do Hotel Christopher, sede da Missão da ONU no país na época do terremoto. Foto: ONU/Mark Garten
 Confiança

O chefe da ONU lembrou que “o terremoto ocorreu, quando muitos haitianos estavam começando um novo ano com um senso de otimismo renovado e confiança no futuro de seu país.” Ele acrescentou que “em alguns segundos, essas esperanças se transformaram em pó.”

Em 12 de janeiro de 2010, um tremor de 7 graus de magnitude, deitou por terra o Hotel Christopher, sede da ONU no país caribenho.

Dentre os funcionários da ONU mortos no terremoto estava o vice-chefe da Missão, o brasileiro Luiz Carlos da Costa. Ao todo, 20 brasileiros perderam a vida.

Em seu discurso descreveu como “cidades foram destruídas, centenas de milhares de pessoas foram mortas e milhões de vidas mudadas para sempre.” Ele disse que nunca esquecerá “o choque e a tristeza em todo o mundo e nas Nações Unidas quando a escala da tragédia se tornou clara.”
Operação Humanitária

Nesta sexta-feira, Guterres destacou como “uma operação humanitária sem precedentes salvou vidas nos primeiros dias e semanas, à medida que organizações de ajuda internacional trabalhavam com haitianos e parceiros locais.” Guterres também citou que “o terremoto criou sérias novas ameaças à segurança, à estabilidade e à prosperidade do Haiti” e que a recuperação das muitas feridas físicas, emocionais, sociais e financeiras “desafiaria qualquer nação”.

Segundo ele, “após um dos dias mais sombrios de sua história, o Haiti recorreu à coragem e determinação de seu povo e à assistência de muitos amigos.” Entre os muitos desafios, Guterres disse que “as Nações Unidas lamentam profundamente a perda de vidas e o sofrimento causados ​​pela epidemia de cólera” e citou o “progresso significativo que foi feito para eliminar a doença.”

O secretário-geral adicionou que a ONU está comprometida “com a resolução de casos pendentes de exploração e abuso sexuais.” Para ele, atualmente, “a insegurança e o lento crescimento econômico estão contribuindo para o aumento das tensões sociais e a deterioração da situação humanitária.”

Guterres fez um apelo para que os haitianos “resolvam suas diferenças através do diálogo e resistam a qualquer escalada que possa reverter os ganhos da década passada.” Ele reiterou que “o Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti e as 19 agências, fundos e programas no país continuarão a trabalhar em parceria com o povo haitiano em seu caminho para a recuperação e a prosperidade.”

A capital do Haiti, Porto Príncipe, danificada pelo terremoto de janeiro de 2010. ONU/Marco Dormino
Monumento

Antes da cerimônia, o secretário-geral da ONU, António Guterres, inaugurou o monumento, em inglês “A Breath” em memória dos que perderam a vida no terremoto, localizado nos jardins da ONU.

O monumento veio do Haiti e foi produzido pelo escultor Davide Dormino, com materiais dos escombros do Hotel Christopher, sede da Missão da ONU no país na época.

Em 12 de janeiro de 2010, um tremor de 7 graus de magnitude, matou mais de 222 mil 

pessoas incluindo 102 trabalhadores da ONU. Minustah/Marco Dormino
 Resiliência

Segundo o secretário-geral António Guterres, na última década, “o Haiti se valeu da resiliência do seu povo e do apoio de muitos amigos para vencer este desastre.”

Ele afirmou que o Haiti “está se esforçando para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, incluindo o reforço das instituições tão cruciais para o bem-estar e para a prosperidade do seu povo.”  

O secretário-geral aproveitou a data para renovar “o compromisso das Nações Unidas em ajudar o Haiti e o seu povo na construção de um futuro melhor.” Ele expressou seus sentimentos a todos que perderam familiares, amigos e entes queridos no terremoto, há 10 anos. 

Fonte: ONU News


COM APOIO DA ONU, HAITI FAZ TRANSIÇÃO DA MANUTENÇÃO DA PAZ PARA O DESENVOLVIMENTO

Jean-Pierre Lacroix, subsecretário-geral da ONU para as Operações de Manutenção da Paz, em reunião do Conselho de Segurança sobre a situação no Haiti. Foto: ONU/Loey Felipe

19/04/2018 

As Nações Unidas já começaram a se preparar para uma presença pós-conflito no Haiti, disse o chefe de operações de paz da ONU ao Conselho de Segurança. Jean-Pierre Lacroix destacou que há muitas razões para estar “otimista” de que o progresso do país rumo à estabilidade é irreversível.

As Nações Unidas já começaram a se preparar para uma presença pós-conflito no Haiti, disse uma importante autoridade da ONU no início de abril (3), destacando que há muitas razões para estar “otimista” de que o progresso do país rumo à estabilidade é irreversível.

“Embora a obtenção de resultados deva continuar sendo nossa prioridade comum, já começamos a nos preparar para uma transição para uma presença que não seja de manutenção da paz, com base nas lições aprendidas no Haiti e em outros contextos”, afirmou o subsecretário-geral da ONU para Operações de Manutenção da Paz, Jean-Pierre Lacroix, disse ao Conselho de Segurança.

Ele afirmou que, nos próximos meses, seu escritório fornecerá avaliações de progresso para permitir que o órgão de 15 membros tome decisões bem informadas para a diminuição e eventual retirada da Missão da ONU de Apoio à Justiça no Haiti, conhecida pela sigla MINUJUSTH.

Estabelecida em outubro de 2017, a MINUJUSTH substituiu a Missão de Estabilização da ONU, MINUSTAH, que operou na pequena nação insular por 13 anos, sob liderança militar do Brasil.

Muito menor do que sua antecessora, que tinha mais de 4 mil militares e policiais – a maioria brasileiros –, a MINUJUSTH ajuda o Haiti a desenvolver a polícia nacional, fortalecer as instituições do Estado de Direito e promover e proteger os direitos humanos.

Embora o Conselho de Segurança deva renovar o MINUJUSTH, cujo mandato inicial expira em 15 de abril de 2018, Lacroix disse que a ONU está determinada a garantir que seja a última operação de manutenção da paz implantada no Haiti.

No mês passado, a ONU divulgou uma avaliação estratégica da MINUJUSTH, incluindo 11 pontos de referência de uma transição suave para uma presença que não envolva a manutenção da paz, no último trimestre de 2019.

“O Haiti percorreu um longo caminho para alcançar a relativa estabilidade política e de segurança que está desfrutando agora, mas persistentes incertezas econômicas, que podem resultar em exclusão social, particularmente de jovens e pessoas mais vulneráveis, podem minar esse progresso”, disse Lacroix.

Nova missão da ONU no Haiti tem como objetivo fortalecer o Estado de direito no país

Bandeira da ONU é levantada na cerimônia de lançamento da MINUJUSTH. 
Foto MINUJUSTH/Logan Abassi

10/01/2018 

A chefe da nova Missão das Nações Unidas de Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), Susan Page, disse que a operação terá como foco exclusivo fortalecer o Estado de direito no país.

“O novo mandato estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU é trabalhar com o governo haitiano para fortalecer suas instituições de Estado de direito. Também continua a apoiar a polícia nacional haitiana e a trabalhar para a Justiça e os direitos humanos — e isso inclui informação, monitoramento e análise”, disse ela em entrevista ao UN News.

A chefe da nova Missão das Nações Unidas de Apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH), Susan Page, disse que a operação terá como foco exclusivo fortalecer o Estado de direito no país.

“O novo mandato estabelecido pelo Conselho de Segurança da ONU é trabalhar com o governo haitiano para fortalecer suas instituições de Estado de direito. Também continua a apoiar a polícia nacional haitiana e a trabalhar para a Justiça e os direitos humanos — e isso inclui informação, monitoramento e análise”, disse ela em entrevista ao UN News.

A MINUJUSTH também inova ao estabelecer uma estratégia de saída. “Em dois anos, podemos estabelecer como (vamos sair do país), mas com metas de progresso isso pode ser medido”, salientou.

A chefe da missão declarou que a equipe da ONU no país criou uma estratégia com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que promovem sociedades mais justas, pacíficas e inclusivas, e está trabalhando em conjunto com o governo haitiano.

“É uma forma de unir toda a equipe da ONU no país, junto com a missão de paz, para atingir esses objetivos”, declarou, acrescentando que o governo “já disse ser um parceiro nessa busca para atingir seu próprio desenvolvimento”.

Page explicou que enquanto a MINUJUSTH está quase exclusivamente baseada na capital, Porto Príncipe, também terá uma “abordagem móvel” que levará equipes para outras regiões do país — atingindo um maior número de pessoas.

A chefe da missão disse ao UN News que as equipes irão focar em paz, justiça e Estado de direito para ajudar a população haitiana a determinar suas necessidades, e então conectá-la com figuras políticas de alto nível para verificar como a ONU pode ajudar o governo a atender essas necessidades.

“Uma vez que tiverem uma ideia sobre o que a população está buscando, sobre o que precisam saber, esperamos que essa abordagem de baixo para cima e de cima para baixo ajude o Haiti a fortalecer suas próprias instituições com um pouco de nossa ajuda”, explicou.

Page vê essa nova abordagem como um novo modelo de operações de paz, lembrando que com o objetivo de fazer mais com menos, “uma das formas de atingir mais pessoas é sermos mais flexíveis e mais móveis”.

Sobre a situação em campo, Page afirmou que o sistema político no Haiti está mais estável. “Agora que o Haiti elegeu oficiais em todos os níveis, incluindo nos níveis locais, temos algo com que trabalhar”.

Sobre o combate ao cólera no país, Page expressou esperança de que o Haiti atinja a meta de zero transmissão.

“Uma das formas com as quais continuamos a trabalhar é por meio da equipe de país”, disse, mencionando a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), que estão trabalhando para fortalecer o saneamento e os sistemas de fornecimento de água.



Em ano marcado pelo fim da Missão da ONU, Haiti ganha novo presidente



03/01/2018

Jovenel Moise assumiu a presidência do Haiti depois de dois anos de instabilidade política, algo constante no país, que enfrenta agora a árdua tarefa de garantir a segurança da população após a saída da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (Minustah), que durou 13 anos.

Empresário do ramo da agricultura e sem experiência na política, Moise, de 49 anos, tomou posse em 7 de fevereiro com uma mensagem de união para construir um Haiti melhor. O país ainda sofre as consequências do forte terremoto de janeiro de 2010, que deixou 300 mil pessoas mortas e a mesma quantidade de feridos.

A chegada do novo presidente ao poder terminou com um ano de governo provisório liderado pelo ex-presidente do Senado, Jocelerme Privert, que assumiu o Executivo depois de Michel Martelly completar cinco anos no poder sem que um sucessor tivesse sido escolhido por causa de uma crise política e eleitoral.

"Vou precisar de todos, candidatos, políticos, os que votaram em mim e os que não votaram, para mudar este país, para construir um Haiti melhor para todo mundo", afirmou Moise no discurso de posse, consciente da realidade da nação, onde quase 60% da população vive abaixo da linha da pobreza.

Ele também assumiu o desafio de ajudar o país a se recuperar dos prejuízos causados em outubro de 2016 pelo furacão Matthew, que deixou 573 mortos, provocou o aumento da epidemia de cólera de 2010 e gerou perdas de US$ 2 bilhões (20% do PIB), um quarto dessa quantidade no setor agrícola, conforme dados oficiais.

Este ano, o país voltou a sofrer as dificuldades, com duas semanas de diferença, de outros dois furacões: Irma e María. Os dois ciclones coincidiram com uma série de grandes protestos contra a aprovação da Lei de Orçamento, que eleva os impostos de vários serviços públicos.

Após um 2016 crítico, as previsões da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) com relação à economia haitiana assinalam que este ano terminará com um crescimento de 1%, que chegará a 2% em 2018.

Com grandes expectativas, Moise lançou em maio um projeto chamado "Caravana da Mudança", um plano para impulsionar a produção nacional, especialmente no setor agrícola, vital para a empobrecida nação. A iniciativa já está funcionando no departamento de Artibonite, no norte do país, mas os resultados ainda são pouco expressivos.

O Haiti é um país extremamente vulnerável aos fenômenos naturais, e em agosto, como parte de uma estratégia traçada entre governo, organismos internacionais e sociedade civil, foi lançada uma ação para lutar contra a mudança climática e o desmatamento, com investimento de US$ 300 milhões.

O país termina o ano de 2017 com a missão de garantir a segurança da população após a retirada da Minustah, que chegou ao país em 2004 para dar apoio depois de um movimento armado derrubar o então presidente, Jean-Bertrand Aristide.

A missão da ONU, que foi reforçada para ajudar o Haiti a se recuperar do terremoto de 2010, deu espaço a uma pequena presença policial que se centrará em apoiar à Polícia, promover o Estado de Direito e vigiar o respeito aos direitos humanos. Um mês depois da retirada da missão, oito policiais foram assassinados, evidenciando a fragilidade do órgão.

O governo de Jovenel Moise decidiu este ano ressuscitar o antigo Exército, dissolvido por Aristide durante o seu primeiro mandato, em 1995, pela participação dos seus membros em golpes de Estado e violações dos direitos humanos. A decisão de Moise divide à sociedade, já que o Exército é acusado de alguns dos piores crimes da história do país.

Fonte: Yahoo!


APÓS MAIS DE 13 ANOS, MISSÃO DA ONU DESPEDE-SE DO HAITI

Foto: ONU/Marco Dormino

14/10/2017

Minustah será substituída por operação menor que se concentrará no apoio à justiça; Brasil deteve comando das forças de paz desde 2014; ONU News conversou com chefe da Minustah, Sandra Honoré, e com o comandante das forças, Ajax Porto Pinheiro.

Laura Gelbert Delgado, da ONU News em Nova Iorque.

Após 13 anos, a Missão da ONU de Estabilização no Haiti, Minustah, encerra suas operações neste domingo.

A Minustah foi criada em 1º de junho de 2004 pela resolução 1542 do Conselho de Segurança.

Democracia

Nesta quinta-feira, o Conselho realizou seu último debate sobre a Minustah. O encontro contou com a participação da representante especial do secretário-geral no Haiti, Sandra Honoré.

Ela declarou que considera positivas as relações entre a ONU e o povo haitiano e afirmou que a organização continuará apoiando a democracia no país caribenho.

Contribuições

Em entrevista à ONU News, Sandra Honoré contou o que espera para o futuro do Haiti após a Minustah.

"A minha mensagem seria uma mensagem de que o Haiti está definitivamente virando a página agora e precisa de todo o apoio dos parceiros da comunidade internacional para continuar sobre o caminho do desenvolvimento sustentável".

Brasil

O Brasil comandou o componente militar da Minustah desde o início da missão em 2004. Foi também o país que mais enviou tropas. Mais de 37,5 mil brasileiros participaram das operações em contingentes que se renovavam a cada semestre.

No total, mais de 96 mil boinas azuis integraram a Missão que teve a contribuição de 20 países.

O último comandante brasileiro no Haiti, o general Ajax Porto Pinheiro conversou com exclusividade com a ONU News antes de participar de uma sessão no Conselho de Segurança, na quinta-feira.

O general disse que a Minustah deixará um legado no país de uma missão que não foi apenas de estabilização, mas que desenvolveu-se também no aspecto humanitário. Ajax Porto Pinheiro contou uma curiosidade sobre a língua portuguesa que resultou do contato dos soldados com crianças haitianas.

"O soldado brasileiro, nos momentos em que ele não está sob tensão, ele está rindo, naturalmente ele é assim. Isso criou uma ligação com as crianças (…), com a população como um todo, mas principalmente com as crianças. E aí eles foram aprendendo, as palavras portuguesas, depois ligaram e começam a falar. O haitiano é o povo que eu conheci que tem mais facilidade de aprender uma língua diferente".

Terremoto

Entre outras ações, a Minustah atuou em atividades de recuperação, reconstrução e estabilização após o arrasador terremoto de 12 de janeiro de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas no Haiti, incluindo 102 funcionários das Nações Unidas.

A partir de terça-feira começam as atividades da Missão da ONU para o Apoio à Justiça no Haiti, Minujusth.

Em julho, o subsecretário-geral da ONU para Operações de Paz, Jean Pierre Lacroix, falou à ONU News, em português, sobre o fim da Minustah e a transição para a nova Missão.

Fonte: Rádio ONU

ONU NÃO É A ÚNICA A DEIXAR O HAITI: OS HAITIANOS TAMBÉM QUEREM SAIR DE LÁ

© Sputnik/ Igor Patrick

19/09/2017

Conforme a data de retorno do contingente brasileiro na Minustah se aproxima, a Sputnik Brasil foi ao Haiti e descobriu que eles não são os únicos deixando o país. Dados da Organização Internacional de Migração (OIM) e do Instituto de Políticas de Migração (MPI) mostram que 80% dos jovens com diploma de ensino superior planejam migrar do Haiti.

O índice geral também impressiona: 60% dos haitianos declaram que gostariam de migrar se tiverem a chance.

Historicamente concentrados na República Dominicana, Cuba, Canadá e Estados Unidos, os haitianos começam a formar comunidades em países não-tradicionais. No Chile já são 18 mil, no Brasil 67 mil somados os legais e as estimativas dos indocumentados. De acordo com o ex-representante especial do Secretariado-Geral e ex-chefe do Escritório das Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti, Ricardo Seitenfus, "a terra haitiana sempre teve uma característica de expulsar seus filhos do solo pátrio desde a época da independência até os recentes raros momentos de democracia e estabilidade", servindo inclusive como justificativa para o início da Minustah.

A aproximação diplomática trazida entre o Haiti e os países da missão — em sua maioria latino-americanos — porém, causou o novo êxodo à parte sul do globo. Benesses na concessão dos vistos de permanência oferecidas após o terremoto de janeiro de 2010 que matou mais de 300 mil haitianos tornaram a América do Sul um sonho para boa parte da população.

"Não havia migração periódica [para a América do Sul], só para ilhas vizinhas e EUA. Agora há um direcionamento especialmente ao Chile e ao Brasil. Houve um eldorado haitiano em 2012, 2013, embora tenha se tornado um pesadelo quando entramos [o Brasil] em crise", Seitenfus disse à Sputnik.

A diáspora haitiana em números
© SPUTNIK/ IGOR PATRICK

O perfil do migrante haitiano

Há grupos diferentes saindo do Haiti. Enquanto os escolarizados procuram a continuidade dos estudos em solo estadunidense ou europeu, o Brasil recebe desde 2014 os de baixa escolaridade, ocupando vagas em setores de serviços no Sudeste e Sul do país.

A haitiana Faradjine Alfred, 26 anos, é um exemplo. Fala cinco idiomas (francês, crioulo, inglês, espanhol, português), entende três (alemão, mandarim e italiano), graduou-se em Linguística na Universidade Estatal do Haiti e fez mestrado na Universidade Complutense de Madrid. Formada há 4 anos, ela até hoje não conseguiu nenhum emprego formal no próprio país.

"Nós jovens não temos oportunidades, é muito difícil conseguir um emprego decente no Haiti", reclama. Em um beco sem saída, Faradjine já decidiu: em 2018 pretende se mudar possivelmente para a Europa ou para os Estados Unidos, embora a facilidade com o português também a faça considerar o Brasil mesmo em meio à crise política e econômica.
Entrevista de Faradjine Alfred à Sputnik Brasil

"Os que vão para o Brasil buscam trabalhos de nível mais baixo porque quem tem [o diploma de nível superior] tenta chegar a outros países", disse o embaixador brasileiro em Porto Príncipe, Fernando Vidal, que falou com exclusividade à Sputnik Brasil. Ele encomendou um levantamento no ano passado para filtrar o perfil dos migrantes e descobriu que a maioria dos haitianos aqui chegam para trabalhar em setores com menos especialização, como a indústria alimentícia.

Seria o caso de trabalhar na atração da migração haitiana qualificada? Especialistas divergem. Para a coordenadora do Centro de Pesquisas e Práticas Decoloniais e Pós-coloniais aplicadas às Relações Internacionais e ao Direito Internacional (Eirenè) da UFSC, Karine de Souza Silva, falta estrutura às universidades brasileiras para cooptar este público. Embora Santa Catarina seja um dos estados com a maior concentração de haitianos, poucos são os que chegam ao estado com diploma.

"Continuamos a receber homens jovens, com pouca formação que chegam para trabalhar e trazer a família. Há três anos estamos recebendo estudantes haitianos na universidade, tivemos 25 deles, mas se formam e a maioria vai embora porque não há estrutura para oferecer disciplinas em outros idiomas. Se o Brasil quer receber essa mão de obra qualificada, também deveria simplificar o processo de validação do diploma, que é caro e leva muito tempo", pensa a professora.

Já Seitenfus pensa que se quiser contribuir para a melhora do Haiti, o Brasil não pode empreender na "drenagem de cérebros" do país. "É fundamental criar condições no Haiti para que os haitianos permaneçam no seu território nacional. Enquanto não auxiliarmos na construção de um Estado funcional, com possibilidades de empregabilidade e iniciativa privada forte, nós veremos a situação se agravar", critica.


Quem decidiu voltar

A quantidade ainda é tímida, mas alguns haitianos, depois de formados e com condição de vida estabilizada, resolvem voltar ao país. Não há números, mas há exemplos. É o caso da administradora Savela Jacques Berenji, 36 anos.

A despeito da profissão dos pais, um carpinteiro e uma costureira, ela teve acesso às melhores escolas haitianas, se graduou no Instituto Haitiano de Ciências Comerciais e é mestre em Mudança social na Construção da Paz pela Future Generations University, na Virgínia, Estados Unidos. Estagiou na Índia, no Quênia e no próprio Haiti. Mesmo com ofertas generosas para trabalhar no exterior, decidiu fazer a diferença no próprio país.

"Cada um desses lugares me marcou. Trabalhamos em favelas, províncias, bairros desfavorecidos e era preenchida de ideologia e esperança. Isso me levou a retornar ao Haiti para colocar toda a minha alma a serviço da população e ajudar os haitianos a tornarem-se autônomos", conta.
Savela Berenji: "Quero que os haitianos sejam independentes para não precisarem 
do dinheiro de outros países" © SPUTNIK/ IGOR PATRICK

Ayla Berenji: Pretendo continuar o trabalho de minha mãe, fazer voluntariado em países 
desfavorecidos e aprender com eles. © SPUTNIK/ IGOR PATRICK

Desde 2012, Savela é diretora de uma ONG que trabalha com empoderamento da comunidade, construção de lideranças e redução da criminalidade por meio do esporte. Ela diz não ter a pretensão de ver grandes mudanças durante o seu tempo de vida, motivo pelo qual prepara a filha Ayla Berenji, 12 anos, para assumir a batuta quando mais velha. Mesmo com a pouca idade, Ayla já fala 5 idiomas com fluência.

"Eu a preparo para um grande futuro no Haiti. Espero que ela possa estudar em uma boa universidade na França ou no Canadá, talvez na Inglaterra. Se depois de seus estudos ela não voltasse ao Haiti para trazer de volta o que aprendeu, consideraria que perdi dinheiro em sua educação", avalia.

Savela não precisa se preocupar. Bem articulada, a menina se diz consciente dos privilégios que tem por frequentar uma boa escola privada. Ela nem pensa em viver fora do Haiti. "É claro que vou retornar, eu quero continuar o sonho da minha mãe em melhorar as vidas nas comunidades".

Talvez seja cedo para usar os exemplos como um alento de um país que necessita urgentemente de mão de obra especializada para sua construção. Embora não existam números globais, um levantamento do Centro Schomburg de Pesquisa sobre a Cultura Negra indicou que 7000 haitianos migrarão permanentemente para os Estados Unidos só neste ano.

CRIANÇAS HAITIANAS CONTINUAM SENDO PRIORIDADE NA MINUSTAH

Foto: Divulgação/EB

16/08/2017

Porto Príncipe (Haiti) – Semanalmente, aos sábados, crianças do Orfanato Rosa Mine de Diegues, localizado em em Porto Príncipe, recebem um pouco de atenção e carinho dos “capacetes azuis” da Companhia de Engenharia de Força de Paz (BRAENGCOY). A atividade, de caráter voluntário, faz parte do calendário de cooperação civil-militar (CIMIC) da Companhia, além de também permitir que os militares conheçam mais de perto o dia a dia da comunidade haitiana.

A expectativa é que esta atividade seja repassada, gradativamente, aos órgãos e entidades do próprio país, até o final da Missão, a fim de garantir que essa assistência se mantenha com a saída da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti).

Com essa ação, a BRAENGCOY espera contribuir com o objetivo de garantir um futuro melhor para as crianças haitianas, além de colaborar com desenvolvimento social do país.
Para saber mais sobre a BRAENGCOY acesse: www.facebook.com/braengcoy.eb


APÓS 13 ANOS DE MISSÃO, BRASIL ENVIA ÚLTIMOS SOLDADOS AO HAITI

Missão de paz do Brasil no Haiti (Eduardo Munoz/Reuters)
31/05/2017

A ONU classificou a missão como um sucesso para as pretensões diplomáticas e militares do Brasil no cenário internacional

Rio de Janeiro – Treze anos depois de os primeiros brasileiros terem embarcado para liderar o braço militar da operação de paz da ONU no Haiti, as Forças Armadas enviam nesta quinta-feira seu último contingente para a missão, considerada um sucesso para as pretensões diplomáticas e militares do Brasil no cenário internacional.

Especialistas consultados pela Agência Efe fizeram um balanço sobre a participação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah, na sigla em francês), que teve início em junho de 2004, após a renúncia e o exílio do então presidente do país, Jean Bertrand-Aristide, e será encerrada oficialmente em 17 de outubro deste ano, por decisão do Conselho de Segurança da ONU.

À época governado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil assumiu o comando da Minustah como parte da estratégia de política externa “ativa e altiva” promovida pelo então chanceler Celso Amorim.

A ideia era projetar a imagem do país como capaz de se envolver em temas relevantes no plano internacional. Assim, a liderança de uma missão de paz era ideal pelos benefícios políticos e militares gerados em caso de êxito.

O mandato da Minustah, porém, se estendeu além do previsto por diversos fatores. O mais importante deles ocorreu em 2010, quando um forte terremoto destruiu o Haiti e matou mais de 220 mil pessoas.

O perfil da missão também mudou desde 2004. O combate às milícias que atuavam na capital Porto Príncipe deu lugar a um trabalho mais policial nos últimos anos.

Considerando o último contingente de 950 soldados que embarca para o Haiti nesta quinta-feira, o Brasil enviou 37.000 militares à Minustah ao longo dos 13 anos da missão, segundo o Ministério da Defesa.

Do total, a maior parte deles foi disponibilizada pelo Exército (29.627). Marinha e Aeronáutica contribuíram com 6.114 e 317, respectivamente.

A pesquisadora do Instituto Igarapé e especialista em relações internacionais, Adriana Erthal Abdenur, considera a Minustah a missão mais importante nos quase 70 anos de história da participação do país em operações da ONU.

“Foi a de maior duração, a que empregou o maior número de brasileiros e a que apresentou os maiores desafios logísticos e operacionais”, afirmou Adriana em entrevista à Agência Efe.

“A participação na Minsutah dá maior credibilidade ao pleito brasileiro de se tornar um ator mais relevante na segurança internacional, inclusive no seu próprio entorno estratégico. Isso é particularmente importante para a defesa que o Brasil faz com frequência da resolução pacífica de conflitos e da importância do multilateralismo”, analisou.

Para o professor do Instituto de Relações Interacionais da PUC-RJ e pesquisador do German Institute of Global and Area Studies (GIGA), Kai Michael Kenkel, o Brasil mostrou ter capacidades materiais e normativas para contribuir para assuntos centrais que diferem os atores importantes no cenário internacional.

“A determinação se a Minustah foi positiva ou negativa para a imagem do Brasil sempre também foi atrelada ao sucesso da operação e à ausência de escândalos que colocariam o esforço sob outra luz. Como se evitaram manchetes negativas, a participação no Haiti foi um sucesso”, avaliou.

Quem também concorda com o balanço positivo da missão é Marcelo Valença, professor do Instituto de Relações Internacionais da UERJ.

“Foi um exercício de credibilidade e autoridade no plano internacional. Foi a primeira vez que o Brasil assumiu uma missão grande, espinhosa, do começo ao fim. Provamos que temos condições de realizar tarefas como essa”, afirmou.

Fora o reconhecimento internacional, a Minustah gerou diversos benefícios militares ao Brasil. Kenkel ressaltou que as Forças Armadas tiveram a oportunidade de participar de uma missão prestigiosa, ganhando experiência no terreno e usando a capacidade dos soldados para melhorar a situação desastrosa no Haiti.

Já Valença destacou a criação do Centro Conjunto de Operações de Paz em 2010, no Rio de Janeiro, que passou a oferecer uma estrutura de ponta para o treinamento de brasileiros e estrangeiros, além de cursos que integram militares e civis.

“O centro juntou todos os braços das Forças Armadas em um só lugar. É um polo de capacitação. Recebemos franceses, alemães, chilenos, argentinos. Essas pessoas estão vindo para cá tanto para ensinar como para aprender”, explicou.

“O Brasil não só enviou soldados para o Haiti. Levamos trabalho social, saúde, engenharia e preocupação com o bem-estar. Esse é um movimento que a ONU já vem fazendo desde 1990, mas a forma usada pelo Brasil quebrou a separação entre as forças armadas internacionais e a ajuda social”, comentou o professor.

Há também ganhos em termos de influência no plano regional. Segundo Adriana, o Brasil fez gestões diplomáticas desde as negociações sobre o primeiro mandato da Minustah para que houvesse maior participação de países latino-americanos em cargos de chefia e também no número de tropas enviadas ao Haiti.

O movimento da diplomacia brasileira buscava ocupar um “vazio” deixado pela retirada política de atores que tradicionalmente participavam de missões da ONU no Haiti, como os Estados Unidos, o Canadá e a França.

“A liderança brasileira foi explicitamente exercida por meio do comando militar, já que pela primeira vez na história não houve rodízio de nacionalidades do ‘force commander’ de uma missão. Mas também houve, e há, um forte componente político por trás da participação do Brasil como líder regional”, explicou a pesquisadora.

Apesar do consenso sobre o saldo positivo, a Minustah também é alvo de críticas. Ao longo dos últimos anos, questionou-se no Brasil os investimentos feitos pelo governo na missão e o número de soldados do país mortos no Haiti.

De acordo com o Ministério da Defesa, o Brasil investiu R$ 2,55 bilhões na Minustah. A ONU reembolsou o país em R$ 930,9 milhões até o momento, valores que são referentes ao emprego da tropa e não cobrem os gastos relativos ao preparo dos militares.

Quanto às perdas humanas no Haiti, o Ministério da Defesa esclareceu que não houve morte de brasileiros em confrontos armados. No total, 25 militares morreram na missão, 18 deles no terremoto de 2010. Além deles, dois comandantes da missão faleceram no exercício do cargo.

O general José Luiz Jaborandy Júnior, de 57 anos, morreu em setembro de 2015 a bordo de um avião que decolou no Haiti com destino a Manaus. Em janeiro de 2006, o general Urano Teixeira da Matta Bacellar foi encontrado morto no hotel em que estava hospedado em Porto Príncipe. Uma investigação posterior da ONU concluiu que o militar se suicidou.

Adriana ressaltou outro problema frequente em missões de manutenção de paz: a criação de uma “bolha de serviços” para atender à chamada “indústria da assistência”. “Esses espaços produzem não apenas ressentimento entre as populações locais, mas também tendem a nutrir um grau de dependência socioeconômica”, explicou.

“Apesar disso, diria que a Minustah desempenhou um papel importante em evitar um colapso total da sociedade haitiana, possivelmente com reflexos para toda a região”, acrescentou a pesquisadora do Instituto Igarapé.

Outro ponto criticado da missão no Haiti são as 111 denúncias de abuso sexual feitas à ONU entre 2007 e 2017, nenhuma delas contra soldados brasileiros. O Ministério da Defesa afirmou que a conduta dos militares do país é considerada exemplar internacionalmente e que todos recebem instruções específicas sobre o tema antes de participar em operações brasileiras no exterior.

“O fato é que (os abusos sexuais) demoraram a ser reconhecidos como um problema grave para a ONU. No entanto, agora há praticamente um consenso sobre a necessidade de se criar novos mecanismos de prevenção e justiça. É preciso atuar para evitar novos casos, através de treinamento e conscientização, mas também assegurar que quem os comete não ficará impune e que alguma assistência será prestada às vítimas. Isso requer ação não apenas da ONU, mas principalmente dos países que enviam tropas e policiais”, afirmou Adriana.

Fonte: EXAME.com

EXÉRCITO BRASILEIRO E MARINHA DO BRASIL COMEÇAM A EMBARCAR PARA O HAITI OS ÚLTIMOS CONTINGENTES

Foto: 11ª Bda Inf L / Agência Verde-oliva - EB

19/05/2017
       
Com Agência Verde-Oliva e Nomar

O 26º Contingente do Batalhão Brasileiro de Força de Paz (BRABAT 26), que será o último a atuar em solo haitiano, começou, no dia 16 de maio, a embarcar para a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH).

O primeiro escalão da tropa despediu-se do Brasil no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), com uma solenidade presidida pelo Comandante Militar do Sudeste, General de Exército João Camilo Pires de Campos, com a presença de autoridades civis e militares.



A maior parte dos integrantes do BRABAT 26 pertence à 12ª Brigada de Infantaria Leve (Aeromóvel), com sede em Caçapava (SP). Segundo a Organização das Nações Unidas, esse contingente encerrará as atividades militares do contingente brasileiro no país amigo, após mais de 13 anos de missão.

A Marinha do Brasil (MB) realizou, no dia 12 de maio, a Cerimônia de Ativação do 26° Contingente do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais – Haiti.

Durante a solenidade, ocorrida no Pátio Brigada Real da Marinha, no Comando da Divisão Anfíbia, no Rio de Janeiro (RJ), os 175 militares selecionados para a missão fizeram a troca do gorro camuflado pelo gorro azul, símbolo dos mantenedores da paz das Organizações das Nações Unidas (ONU).

O evento foi presidido pelo Comandante da Força de Fuzileiros da Esquadra, Vice-Almirante, Fuzileiro Naval, Cesar Lopes Loureiro.

O primeiro grupo do contingente começou a embarcar em voos da Força Aérea Brasileira a partir do dia 16 de maio, quando iniciará o revezamento de tropas de fuzileiros navais.

Após 13 anos de serviços prestados à ONU, esta será a última missão dos fuzileiros na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (que será desativada pela ONU). Ao longo dos anos, a MB enviou para o país 6.135 militares.

CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU APROVA FIM DA MISSÃO DE ESTABILIZAÇÃO NO HAITI

Foto: UN Photo/Rick Bajornas

13/04/2017

Ivan Richard Esposito - Repórter da Agência Brasil *

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou nesta quarta (13), por unanimidade, o encerramento da Missão de Estabilização no Haiti (Minustah), chefiada pelo Brasil há 13 anos. Segundo a decisão do conselho, a retirada das tropas ocorrerá de forma gradual, a partir de 15 de outubro.

A Minustah será substituída por uma “operação sucessora”, chamada de Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti. Além de fazer o monitoramento, elaborar relatórios e analisar situações relacionadas aos direitos humanos, a nova missão também auxiliará o governo haitiano no reforço das instituições do Estado de Direito.

De acordo com a Agência ONU, a nova missão será composta por até sete unidades policiais, com 980 militares, e 295 oficiais de polícia individuais por um período inicial de seis meses, a partir do dia 16 de outubro. A atual tem pouco mais de 1.000 políciais individuais e 11 unidades policiais.

A nova missão também atuará na proteção dos civis sob ameaça iminente de violência física, dentro das suas capacidades e áreas de implantação, conforme necessário.

Eleição presidencial

No início da semana passada, a chefe da missão atual, Sandra Honoré, disse que o Haiti fez progressos significativos na consolidação da democracia e na manutenção da segurança e da estabilidade com a eleição do presidente Jovenel Moïse, em 7 de fevereiro.

Para, Honoré a eleição marcou o “restabelecimento da ordem constitucional” no país caribenho. Ao Conselho de Segurança da ONU, Sandra Honoré disse que é a hora de “reformular a parceria entre a comunidade internacional, as Nações Unidas e o Haiti, a fim de monitorar preocupações como as questões de direitos humanos e assegurar que os progressos alcançados desde o estabelecimento de 2004 da Minustah sejam duradouros”.

Participação brasileira

Ao longo dos 13 anos no Haiti, o Brasil foi a nação que mais enviou tropas para a Missão de Estabilização, segundo a ONU. De 2004 a fevereiro de 2010, o país manteve um contingente de 1.200 militares, com rotação semestral. E, desde 2004, o comando militar de todas as tropas que compõem a Minustah, provenientes de 19 países, é exercido por generais brasileiros.

Após o terremoto, que atingiu o Haiti  em janeiro de 2010, o Brasil passou a manter um contingente maior no país, formado por cerca de 2.200 soldados e oficiais. Desde o início da participação brasileira até hoje, mais de 13 mil militares brasileiros serviram no Haiti.  Em agosto de 2016, havia 1.303 brasileiros na missão.

*Com informações da ONU News

ONU SE PRONUNCIA SOBRE O TÉRMINO DA MISSÃO NO HAITI

Foto: BRABAT / EB

01/04/2017

No dia 17 de março, ocorreu, na Log Base, uma reunião com a Sra Sandra Honoré, Representante Especial do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas e Chefe da Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (MINUSTAH – sigla em francês), cujo tema principal foi a resolução da ONU sobre o término da missão.

Foi ressaltado, pela Sra Sandra Honoré, que o país está passando por um progresso lento em relação aos direitos humanos e por um período delicado de transição política.

Outro aspecto mencionado é que o fim da missão ocasionará grandes impactos a todos os envolvidos com a MINUSTAH, principalmente os profissionais haitianos.

Outros tópicos abordados foram a extensão da missão por mais seis meses, com término previsto para 15 de outubro e uma diminuição escalonada do componente militar até essa data; a redução do componente policial de 951 para 295 policiais; e a diminuição também do componente civil de maneira progressiva.

Além do Force Commander do Componente Militar no Haiti, General de Divisão Ajax Porto Pinheiro, também esteve presente na reunião o Comandante do Batalhão Brasileiro de Infantaria de Força de Paz (BRABAT), os Comandantes dos contingentes militares de outros países, integrantes da Polícia das Nações Unidas (UNPOL) e representantes civis da MINUSTAH.

Fonte: Defesanet

Crise se prolonga no Haiti com impugnação dos resultados eleitorais

Jovenel Moise, do Partido Haitiano Tet Kale (PHTK), foi declarado vencedor 
em resultados preliminares divulgados pelo Conselho Eleitoral Provisório 
do Haiti (Foto: Hector Retamal/AFP)

06/12/2016 

Três partidos contestam a vitória de Jovenel Moise, que teve 55% dos votos. Primeira eleição, em outubro de 2015, foi cancelada após fraudes e contestação.

A interminável crise eleitoral prossegue no Haiti, depois de três dos candidatos impugnarem nesta sexta-feira (2) os resultados do primeiro turno da eleição presidencial, em meio a um drama que paralisa o desenvolvimento do país caribenho.

Segundo os dados anunciados na segunda-feira à noite pelo Conselho Eleitoral Provisório (CEP), Jovenel Moise - do Partido Haitiano Tet Kale (PHTK), apoiado pelo ex-presidente Michel Martelly - obteve em 20 de novembro 55% dos votos; logo depois está Jude Célestin, com 19,52%; Moise Jean-Charles, com 11,04%; e Maryse Narcisse, com 8,99%.

Antes do anúncio dos resultados, o partido Lapeh, de Celestin, já havia escrito oficialmente ao CEP para contestar a maneira como haviam sido tratados os documentos saídos dos centros de votação.

"O decreto eleitoral estabelece que o eleitor deve assinar a folha de comparecimento ou, se não souber ler nem escrever, colocar sua digital. Lamentavelmente, o CEP escolheu não considerar este aspecto", disse nesta sexta-feira à AFP Gérard Germani, conselheiro político de Celestin.

O partido Pitit Dessalines, de Moise Jean-Charles, foi, inclusive, mais longe e acusou o CEP de corrupção.

"Segundo vários depoimentos, ao redor do hotel que abrigava o CEP na segunda-feira à noite havia veículos com muitos dólares dentro para negociar com os membros (do organismo)", assegurou à AFP o advogado deste partido, Evelt Fanfan.

"A prova é que três (dos nove) membros do CEP se negaram a assinar o documento com o anúncio dos resultados porque não estavam de acordo com esta prática".

O presidente do CEP, Leópold Berlanger, não quis fazer comentários sobre este conflito interno.

Certo de sua vitória, Jovenel Moise se mantém firme diante das críticas de seus principais adversários e das repetidas manifestações de centenas de moradores dos bairros pobres de Porto Príncipe.

Crise política e econômica

"O povo se expressou e agora acredito que seja a hora de nós, meus adversários, começarmos a entender que o país não pode se afundar nesta situação de violência", declarou Moise à AFP.

O primeiro turno da eleição presidencial ocorreu inicialmente em outubro de 2015 e Jovenel Moise já havia vencido. Mas, devido a contestação do resultado e das fraudes em massa, a votação foi anulada.
Como o mandato do presidente Michel Martelly, eleito em 2011, chegava ao fim, o Parlamento escolheu em fevereiro Jocelerme Privert, até então presidente do Senado, como presidente provisório.
Moise considera que já é hora de virar a página: "O país não pode aguentar mais esta eterna campanha presidencial", repete. "Sabemos que ganhamos as eleições no primeiro turno".

Apesar de ter conquistado 55% dos votos, Jovenel Moise não tem uma ampla popularidade no país, já que em 20 de novembro apenas 21% dos eleitores foram às urnas.

A instabilidade política paralisa o desenvolvimento econômico do país mais pobre das Américas, onde mais de 60% dos habitantes vivem com menos de dois dólares por dia. A dívida externa supera os dois bilhões de dólares e, diante da ausência de investimentos públicos e privados, o crescimento está parado em 2%.

Quase sete anos depois do terrível terremoto que matou mais de 200 mil pessoas, em janeiro de 2010, 55 mil haitianos continuam sobrevivendo em acampamentos em condições sobre-humanas, segundo a Organização Internacional de Migrações (OIM).

E a passagem do furacão Matthew, em outubro, voltou a ameaçar as esperanças de uma recuperação econômica.

No sul agrícola, a destruição dos cultivos colocou a nação em uma nova crise humanitária: mais de 800 mil haitianos necessitam de ajuda com urgência, segundo a ONU.

Diante desta situação, os jovens de classe média somente vislumbram sua salvação no exílio nos Estados Unidos: mais de cinco mil haitianos estão atualmente em centros de acolhida da Califórnia e vários milhares chegam ao Brasil e Chile, onde é mais fácil conseguir vistos.

Fonte: G1

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