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HAITI - Entre a autodeterminação nacional e a herança do colonialismo

Crédito: PICRYL
04/03/2026

A ajuda externa pode tanto aliviar quanto aprofundar os problemas estruturais do país, destacando alternativas para uma cooperação verdadeiramente emancipatória

Por: Marc Arthur Bien Aimé

O Haiti, berço da primeira revolução escravista vitoriosa nas Américas (1804), enfrenta há séculos um paradoxo: sua independência pioneira contrasta com a profunda dependência de intervenções externas. A cooperação internacional, essencial para lidar com crises como o terremoto de 2010, frequentemente reproduz dinâmicas neocoloniais, impondo agendas alheias às necessidades locais.  

A Revolução Haitiana foi um marco na luta anticolonial, mas seu legado foi sabotado por potências como França e Estados Unidos. A França exigiu uma indenização exorbitante (150 milhões de francos), em 1825, para reconhecer a independência, estrangulando a economia haitiana por décadas. No século XX, a ocupação militar dos Estados Unidos (1915–1934) reforçou a centralização do poder e a marginalização das comunidades rurais, contribuindo para a formação de um Estado frágil e dependente. 

Hoje, a ajuda internacional representa cerca de 60% da economia do Haiti, segundo dados da CEPAL (2010)1. Organizações como a ONU e ONGs globais operam com lógicas verticalizadas, como evidenciado pela MINUSTAH (2004-2017), missão da ONU criticada por abusos e por priorizar a segurança em detrimento do desenvolvimento local. O terremoto de 2010 expôs essas fragilidades: bilhões em doações foram geridos por entidades estrangeiras, enquanto as instituições haitianas foram marginalizadas. Estima-se que apenas 10% dos recursos destinados ao período pós-terremoto tenham sido repassados diretamente ao governo haitiano, segundo relatório do Center for Global Development (2013)2.   

Cooperação Norte-Sul (CNS): ajuda com condicionalidades   

Liderada por EUA, Canadá e França, a CNS frequentemente vincula assistência a interesses geopolíticos e reformas neoliberais. Por exemplo, os Estados Unidos são um dos principais doadores bilaterais, com projetos nas áreas de saúde, infraestrutura e segurança. A USAID mantém parcerias com ONGs, mas há críticas de que suas ações priorizam interesses geopolíticos. A França apoia por meio de ONGs como a Cruz Vermelha, com foco em reconstrução e saúde (Croix-Rouge Française, 2012). 

As críticas à atuação internacional em países em crise, como o Haiti, apontam que a ajuda humanitária, embora fundamental em momentos emergenciais, não resolve problemas estruturais profundos. Essa assistência tende a ser paliativa, mantendo a situação de vulnerabilidade sem alterar as bases que produzem a pobreza e a desigualdade.  

Além disso, muitas vezes, essa ajuda vem acompanhada de condicionalidades impostas por instituições financeiras internacionais, como o FMI. Essas medidas, longe de promoverem autonomia e desenvolvimento sustentável, muitas vezes aprofundam a dependência externa e fragilizam ainda mais os Estados já enfraquecidos. 

Cooperação Sul-Sul (CSS): alternativas baseadas em solidariedade   

A Cooperação Sul-Sul (CSS), impulsionada principalmente por Cuba, Venezuela e Brasil, apresenta uma abordagem distinta, fundamentada na horizontalidade e reciprocidade. Cuba destacou-se ao capacitar 550 médicos haitianos por meio da ELAM (Escola Latino-Americana de Medicina) e manter presença médica contínua, inclusive após a catástrofe de 2010. A Venezuela, através do programa Petrocaribe, assegurou acesso a combustível em condições vantajosas, permitindo ao governo haitiano realocar recursos para áreas sociais prioritárias.  

Já o Brasil, mesmo com as controvérsias de seu comando na MINUSTAH, direcionou esforços para obras de infraestrutura essencial e qualificação das forças policiais locais. Esses exemplos concretos demonstram que é viável conciliar apoio externo com a preservação da autonomia nacional, contrastando com os modelos tradicionais de assistência internacional.  

Os desafios da cooperação efetiva  

Apesar dos avanços, a CSS enfrenta obstáculos seguintes:   

1. Escala limitada: Os recursos da CSS são menores comparados aos da CNS.   

2. Dependência de parcerias: Projetos como os de Cuba dependiam do financiamento venezuelano, afetado pela crise econômica.   

3. Falta de continuidade: Muitos programas são descontinuados após mudanças políticas nos países doadores.   

Além disso, a corrupção sistêmica no Haiti e a fragmentação das ONGs (o país tem mais de 10.000 organizações registradas) dificultam a eficácia da ajuda.   

Caminhos para uma Cooperação Emancipatória   

Para romper o ciclo de dependência, é essencial:   

1. Fortalecer instituições locais e evitar que ONGs substituam o Estado haitiano;   

2. Priorizar projetos de longo prazo em vez de ajuda emergencial, investindo em educação, saúde e infraestrutura sustentável;   

3. Incluir atores haitianos na tomada de decisões. Movimentos camponeses, intelectuais e lideranças comunitárias devem ter voz ativa;   

4. Rejeitar condicionalidades neoliberais. O FMI e o Banco Mundial devem abandonar políticas de austeridade que agravam a pobreza.   

Exemplos positivos incluem:   

O Pro Huerta (Argentina), que capacitou 200 mil haitianos em agricultura sustentável. 

A Brigada Henry Reeve (Cuba), que atendeu milhões em crises sanitárias.   

Conclusão: rumo a uma nova forma de solidariedade  

A cooperação internacional no Haiti evidencia um dilema persistente entre a assistência solidária e a reprodução de mecanismos de dominação. No entanto, o Haiti não precisa de mais intervenções que reproduzam colonialidade, mas de parcerias que fortaleçam sua autodeterminação. A cooperação internacional deve ser repensada para ouvir as vozes haitianas e enfrentar, finalmente, os séculos de espoliação que marcaram sua história. Enquanto a CNS perpétua dependência, a CSS oferece um caminho alternativo desde que seja ampliada, sustentável e verdadeiramente centrada no povo haitiano.

Fonte: Le Monde Diplomatique

Sobre o Haiti



29/07/2025

Haiti (pronunciado em português europeu: [ajˈti]; pronunciado em português brasileiro: [ajˈtʃi]; em francês: Haïti, pronunciado: [a.iti]; em crioulo haitiano: Ayiti), oficialmente República do Haiti (République d’Haïti; Repiblik Ayiti), é um país do Caribe. Ocupa uma pequena porção ocidental da ilha de Hispaniola, no arquipélago das Grandes Antilhas, que partilha com a República Dominicana. Ayiti (“terra de altas montanhas”) era o nome indígena dos taínos para a ilha. 

Em francês o país é chamado de La Perle des Antilles (A Pérola das Antilhas), por conta de sua beleza natural. O ponto mais alto do país é Pic la Selle, com 2 680 metros de altitude. Tanto em área quanto em população, o Haiti é o terceiro maior país do Caribe (depois de Cuba e da República Dominicana), com 27 750 quilômetros quadrados e cerca de 10,4 milhões de habitantes, sendo que pouco menos de um milhão deles vivem na capital, Porto Príncipe. O francês e o crioulo haitiano são as línguas oficiais do país. 

A posição histórica e etno-linguística do Haiti é única por várias razões. Quando conquistou a independência em 1804, se tornou a primeira nação independente da América Latina e do Caribe, sendo o único país do mundo estabelecido como resultado de uma revolta de escravos bem-sucedida e a segunda república da América. A Revolução Haitiana, feita por escravos e negros libertos, durou quase uma década; todos os primeiros líderes do governo foram antigos escravos. O país é uma das duas nações independentes do continente americano (junto com o Canadá) que designa o francês como língua oficial; as outras áreas de língua francesa no continente são todos departamentos ou coletividades ultramarinas da França. 

O Haiti é o mais populoso membro pleno da Comunidade do Caribe (CARICOM). O país também é um membro da União Latina. Em 2012, o Haiti anunciou sua intenção de obter o estatuto de membro associado da União Africana. É o país mais pobre da América, medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A violência política tem ocorrido regularmente ao longo da história do país, o que levou a instabilidade no governo. Mais recentemente, em fevereiro de 2004, um golpe de Estado originário do norte do país forçou a renúncia e o exílio do presidente Jean-Bertrand Aristide. Um governo provisório assumiu o controle com a segurança proporcionada pela Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti (MINUSTAH).





Lema: “L’union fait la force” (“A união faz a força”) 

Hino nacional: “La Dessalinienne” (“A Dessaliniana”) 

Capital: Porto Príncipe 

Cidade mais populosa: Porto Príncipe 

Língua oficial: Francês e Crioulo haitiano 

Governo: República semipresidencialista 
– Presidente Jovenel Moïse 
– Primeiro-ministro Joseph Joute 

Independência da França: 
– Declarada 1 de janeiro de 1804 
– Reconhecida 1825 Moeda: Gourde (HTG)




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