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O medo que os segue: oferecendo cuidados de saúde mental para refugiados no Chade

Foto: Sylvain Cherkaoui/Cosmos

29/08/2015

Psicólogos de MSF já atenderam cerca de 524 pacientes desde março deste ano

Ataques perpetrados pelo grupo Boko Haram na região do Lago Chade se intensificaram nas últimas semanas, e, como resposta, a presença militar na área também foi ampliada. O número de pessoas forçadas a deixar suas casas mais que dobrou, levando a um total de 75 mil deslocados no Lago Chade. O medo que se instaurou entre a população – que é composta por refugiados do Níger e da Nigéria, além de chadianos – tem sido cada vez mais acentuado pela violência contínua, que não mostra quaisquer sinais de arrefecimento. As necessidades de saúde mental são muitas, e com esse recente aumento da violência, elas só continuarão crescendo.

Desde o início de sua resposta à crise no Chade, em março de 2015, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) observou uma necessidade imediata de incorporar cuidados psicológicos às suas atividades médicas. Hoje, atuando no campo de refugiados de Dar Es Salam, na região do Lago Chade, os psicólogos de MSF ouvem as histórias de horror e de medo que assombram o cotidiano dos sobreviventes do conflito. Entre os pacientes que buscam apoio psicológico na clínica de MSF no acampamento, um em cada quatro apresentam sinais de depressão. Distúrbios de sono, reações emocionais intensas e de ansiedade relacionadas com o trauma também são comuns.

“Eu atendi Abeni*, uma menina de 16 anos que fugiu de Baga, na Nigéria”, lembra Forline Madjibeye, psicóloga de MSF. “Os pais dela foram mortos, assim como seus vizinhos. Ela pegou a mão do seu irmão pequeno e do seu sobrinho, bem como das quatro crianças que pertenciam aos vizinhos, e, de alguma maneira, chegou até aqui. Eu falei com ela ontem e ela disse que ainda não tem um cartão de refugiada, então não está recebendo nenhum alimento. As crianças ficam chorando porque estão com fome.”

Escapar dessa situação e chegar a um local com condições de vida extremamente difíceis só intensificam os efeitos psicológicos de um trauma como esse. De acordo com Forline Madjibeye, a responsabilidade de tomar conta de seis crianças em um acampamento de refugiados, junto ao que ela presenciou na Nigéria, teve um peso enorme sob Abeni. Ela continua sentindo medo, não consegue dormir, é extremamente estressada, e está sofrendo com depressão porque seu futuro é completamente incerto.

“Nós queremos poder devolver à Adeni algum senso de controle, para que ela possa lidar melhor com o medo e a tristeza que está sentindo e cuidar de si mesma e das crianças”, continua Forline Madjibeye. “Essa não é uma situação fácil, e outras pessoas, infelizmente, também passaram por isso. Então eu a encorajo a compartilhar suas experiências com os demais refugiados, e a não ficar em casa sozinha.”

Com o aumento da violência na região, a insegurança tem perseguido os refugiados desde o momento em que deixaram seus lares. Embora possam ter acreditado estarem fugindo rumo à segurança, eles ainda são assombrados pelos eventos, não se sentem seguros, e, assim, continuam revivendo o trauma. Seu “lar” agora é uma junção de tendas estruturadas no meio do deserto, onde eles podem estar vulneráveis a futuros ataques.

Aurelia Morabito, uma psicóloga que atua com MSF no Lago Chade há dois meses, explica que os sintomas apresentados pelos pacientes estão intrinsecamente ligados aos eventos traumáticos que viveram, mas também às condições de vida precárias e ao sentimento de medo que os refugiados enfrentam quando chegam ao acampamento.

“O processo de recuperação é longo. As pessoas testemunharam coisas horríveis; elas se tornaram refugiadas e depois chegaram a um acampamento onde a vida é sombria e muito difícil. Inicialmente, os pacientes têm estresse, não pós-traumático conseguem dormir. Mas não há outra opção além de ficar. Você não é só uma vítima do Boko Haram, você agora precisa passar pelo processo de aceitação de viver como um refugiado, ou de ter que tocar a vida em outro lugar, ou de ter que conviver com a realidade de que você não tem ideia do que o amanhã lhe reserva.”

Desde que o programa teve início em março, os psicólogos de MSF atenderam cerca de 524 pacientes. As equipes ofereceram consultas individuais, em família ou em dupla, e as crianças também podem participar de uma oficina de desenhos semanal para expressar o que estão sentindo.

“É mais fácil para as crianças expressarem o que estão sentindo por meio de desenhos”, diz Aurelia Morabito. “Depois, nós conversamos com elas e com seus pais sobre os desenhos, com o objetivo de ajudá-las a controlar seus medos. Em cada sessão, as crianças relembram histórias horríveis por meio de seus desenhos. Nós vemos ilustrações de armas e de helicópteros, e de pessoas decapitadas. Ouvimos histórias de crianças que fugiram da Nigéria, para depois sofrerem outro ataque no Níger, para voltarem novamente à Nigéria e presenciarem a violência mais uma vez. Muitas fugiram sozinhas durante a noite, ou passaram a noite escondidas na água, esperando que ninguém as encontrasse.”

The aim of the MSF mental health team is to provide support to the refugees to lessen the burden of the trauma, and to ensure that they have a professional to talk to for as long as they need. Psychologists listen to patients in a safe and confidential space, and through acknowledgement of their suffering, help them find the best coping strategies.

O objetivo da equipe de saúde mental de MSF é oferecer apoio aos refugiados para diminuir o fardo do trauma, e para assegurar que eles tenham um profissional com quem falar pelo tempo que precisarem. Os psicólogos ouvem os pacientes em um espaço seguro e confidencial, e por meio do conhecimento de seu sofrimento, os ajudam a encontrar as melhores formas de lidar com aquilo.

“Durante nossas sessões, os psicólogos de MSF ouvem e tentam normalizar as reações dos refugiados”, explica Aurelia. “Isso ajuda a estabilizar e a passar segurança aos pacientes enquanto eles se conectam com outros e compartilham experiências. Nós sabemos que não conseguimos parar o sofrimento, mas podemos ajudar as pessoas a lidarem melhor com suas reações insuportáveis.”

MSF atua na região do Lago Chade, no Chade, desde março de 2015, pouco depois das primeiras ondas de refugiados fugindo da violência do Boko Haram na Nigéria. Além de seu programa de saúde mental no campo de refugiados de Dar Es Salam, MSF também está administrando clínicas móveis que oferecem cuidados básicos de saúde à população local e deslocada. Em breve, a organização também irá incorporar um componente de saúde mental a essas clínicas móveis.

Na capital N’djamena, MSF apoiou hospitais do Ministério da Saúde após dois ataques do Boko Haram que aconteceram nos dias 15 de junho e 11 de julho. Desde abril, MSF treina funcionários do Ministério da Saúde na gestão de vítimas em grande quantidade de uma só vez, e fez doações a três hospitais da capital, para ajudar a ampliar a capacidade nacional de responder a cenários de emergência.

MSF atua no Chade desde 1981. A organização administra programas regulares em Abéché, Am Timan, Massakory e Moissala. Em julho deste ano, MSF também começou a trabalhar em Bokoro, na província de Hadjer Lamis, em resposta à desnutrição aguda na região.

*O nome foi alterado para proteger a identidade.

Fonte: MSF


Iêmen: crimes de guerra e escassez grave do essencial

Foto: Sebastiano Tomada/Getty Reportage
01/08/2015

Por Dr. Mégo Terzian, presidente de MSF na França

Desde que o conflito eclodiu no fim de março no Iêmen entre rebeldes houthi e forças da coligação liderada pela Arábia Saudita, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestou assistência médica a quase 7 mil feridos de guerra.

Equipes de MSF trabalhando no país testemunharam mulheres grávidas e crianças morrendo após chegarem tarde demais a centros de saúde por conta da escassez de petróleo ou porque tiveram de esperar durante dias por uma breve trégua no conflito. Pessoas que precisavam de tratamento médico emergencial também morreram após serem mantidas em barricadas vigiadas por combatentes nas estradas.

MSF também ofereceu cuidados a vítimas de bombardeios perpetrados pela coligação – no fim de março, quando o campo de deslocados internos de El-Mazraa na província de Hajjah foi bombardeado, ferindo ao menos 34 pessoas, 29 das quais já chegaram mortas ao hospital; no fim de maio, quando um caminhão-tanque na cidade de Taiz foi atingido por bombas, deixando 184 pessoas com queimaduras graves; e, em 4 de julho, quando equipes trataram cerca de 70 vítimas em Beni-Hassan, no noroeste do Iêmen, após diversos ataques aéreos que tiveram como alvo um mercado movimentando no fim do mês do Ramadan.

Igualmente beligerante, os houthis bombardearam indiscriminadamente áreas residenciais densamente povoadas de Aden por semanas e, em 19 de julho, quando as forças de resistência do sul lutaram para recuperar o controle da cidade, também o fizeram em uma região densamente povoada. Em poucas horas, 150 vítimas – mulheres, crianças e idosos – chegaram ao hospital de MSF. Quarenta e dois chegaram mortos e diversas dúzias de corpos tiveram de continuar do lado de fora porque não havia mais espaço no hospital.

No país, a população está sofrendo com uma grave escassez de alimentos e medicamentos, e a gasolina tornou-se muito rara, ameaçando a sobrevivência dos mais vulneráveis. Com a falta de combustível para o funcionamento de geradores e estações de bombeamento, alguns hospitais não estão mais aptos a funcionarem e a obtenção de água limpa é cada vez mais problemática. Para conseguir gasolina, as pessoas ficam em filas por horas, ou até dias, com a esperança de poder fugir da zona de combate ou transportar uma vítima ou alguém doente ao hospital mais próximo. A estação de malária começou e casos suspeitos de febre hemorrágica estão aumentando. Embora MSF tenha conseguido as autorizações necessárias para levar mais de 100 toneladas de medicamentos e suprimentos médicos ao país, instalações do Ministério da Saúde e clínicas privadas não conseguiram, e não estão recebendo nenhum tipo de suprimento. Em Aden, o preço da farinha aumentou 70% em algumas regiões e a carne é praticamente inexistente. Dados coletados por MSF em Khamir e Saada mostraram que 15% das crianças estão subnutridas.

Crimes de guerra e a grave escassez de itens essenciais resultam na população sendo submetida ao dobro de sofrimento, causado não só por diferentes partes do conflito, mas também pela Resolução 2216 (2015) adotada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas em abril. Proposta pela Jordânia e apoiada ativamente pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, o objetivo da Resolução – Capítulo VII da Carta – era pôr um fim à violência no Iêmen, impondo, entre outras coisas, um embargo de armas sobre os houthis. A coligação militar foi, então, presentada com a oportunidade de bombardear toda a infraestrutura do país, como estradas, aeroportos, portos e postos de gasolina, que poderiam garantir uma vantagem militar aos rebeldes, e impor restrições às rotas aéreas e marítimas que, rapidamente, resultaram no isolamento de todo o país do resto do mundo. É óbvio que a Resolução escolheu o alvo errado na medida em que, longe de “pôr um fim à violência”, só impulsionou o apetite beligerante de diversas partes do conflito e prejudicou a população. A exceção de poucos comboios, a Organização das Nações Unidas, que manifesta sua enorme preocupação com a situação humanitária sempre que tem oportunidade, não estruturou uma rede de suprimentos para facilitar o transporte de itens de primeira necessidade, como medicamentos, alimentos e combustível.

Em face do que estamos testemunhando em Aden, tememos que as ofensivas lideradas pela coligação, na busca pela recuperação de territórios dos houthis, inflijam, a curto prazo, ainda mais violência sobre os civis encurralados pelas partes envolvidas no conflito e os exponham a retaliações armadas. Além disso, também tememos que aqueles países que apoiam a coligação em sua empreitada de “liberar” o Iêmen – custe o que custar – vejam essa violência como um efeito colateral aceitável. Um efeito colateral que pode ser a menor das preocupações dos governos, como vimos, nos últimos meses, durante nossas tentativas de reunir diplomatas em Paris, Genebra e Washington, por causa da necessidade de pressionar as partes beligerantes para que poupem a vida dos civis.

Ainda há tempo para os Estados responsáveis pelo custo humano do conflito fazerem tudo o que está ao seu alcance para reduzi-lo, sancionando os crimes de guerra como tal, cometidos por diversas partes, e restaurando urgentemente o acesso da população a serviços essenciais.

Fonte: MSF


Angelina Jolie Pitt visita deslocados internos de Mianmar

Angelina Jolie Pitt conversou com várias famílias
desalojadas. Foto: Acnur/T.Stoddart

01/08/2015

Enviada especial da Agência da ONU para Refugiados está no estado de Kachin, onde 100 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas; atriz apela por acesso humanitário à região.

Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York.

A atriz americana Angelina Jolie Pitt está em Mianmar, em mais uma missão como enviada especial do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Acnur. Ela chegou esta quinta-feira à cidade de Myitkyina, no estado de Kachin, no norte do país.

Lá, mais de 100 mil pessoas abandonaram suas casas e vivem como deslocadas internas desde 2011, quando foi quebrado um acordo de cessar-fogo entre o exército de Mianmar e grupos étnicos.

Saúde

Angelina Jolie Pitt conversou com várias famílias desalojadas e ouviu relatos sobre as dificuldades que enfrentam para acessar serviços básicos, principalmente cuidados de saúde.

Segundo o Acnur, uma senhora de 90 anos de idade contou à Jolie Pitt que se viu obrigada a abandonar sua casa pelo menos 10 vezes desde 1960, época de um golpe militar no país.

Dificuldades

A atriz e enviada especial também conversou com uma família que acaba de se tornar deslocada: o grupo passou 10 dias na floresta até chegar à cidade, mas lamentou que amigos e familiares permanecem presos na florestas e precisam de ajuda urgentemente.

Angelina Jolie Pitt reforçou a importância de se permitir o acesso de ajuda humanitária ao local, para que as famílias de deslocados internos recebam assistência.

Eleições

O Acnur explica que nenhuma organização de ajuda humanitária local ou internacional consegue acessar essa área de conflito há um mês. Em Mianmar, a enviada especial destacou que "mulheres e meninas precisam ter um papel no processo de paz do país".

Jolie Pitt lembrou que as negociações sobre um possível cessar-fogo continuam e as eleições gerais estão marcadas para novembro. Por isso, ela acredita ser "essencial que o povo de Mianmar, até mesmo os deslocados, possam participar de decisões que irão afetar seu futuro".

Fonte: Rádio ONU


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