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Exibição de fotos da natureza reduziu violência em presídio, diz estudo



10/09/2016

O experimento foi realizado em uma prisão de segurança máxima no estado americano de Oregon chamada The Snake River

Manter contato com a natureza é uma estratégia muito usada por quem precisa diminuir o estresse acumulado no dia a dia. Cenários como matas, cachoeiras e campos abertos têm uma comprovada capacidade de acalmar as pessoas. Agora, um estudo apresentado recentemente na 124ª Convenção Anual da Associação de Psicologia Americana sugere que o poder tranquilizante dessas paisagens se mantém mesmo quando elas são admiradas pela tela de um vídeo. Para testar a hipótese, cientistas recorreram a um dos espaços mais tensos da contemporaneidade: uma penitenciária.

Segundo os pesquisadores, vídeos que mostram imagens de oceanos, florestas, rios, cenas de aquário e da Terra vista do espaço parecem reduzir a agressividade e o mau comportamento de detentos. “Nós precisamos da natureza para o nosso equilíbrio físico e psicológico. Ainda que o contato direto com o meio ambiente seja mais eficaz, estudos têm mostrado que a exposição indireta a ele pode proporcionar um alívio temporário do estresse psicológico na vida diária”, explica, em um comunicado, Patricia Hasbach, coautora do estudo e psicoterapeuta do Instituto Northwest Ecotherapy, nos Estados Unidos.

O experimento foi realizado em uma prisão de segurança máxima no estado americano de Oregon chamada The Snake River. Foram avaliados 48 presos abrigados em um bloco com celas e condições de vida iguais. Metade do grupo continuou com suas atividades normais, mas os outros 24 detentos passaram a contar com a exibição dos vídeos durante seu tempo de recreação, o que ocorria de três a quatro vezes por semana.

A intervenção durou um ano. Nesse período, constatou-se que, nos homens expostos às imagens de natureza, uma redução do comportamento agressivo em relação ao outro grupo de prisioneiros. “Levantamentos internos e entrevistas de estudo de caso com os presos sugeriram que emoções e comportamentos negativos, como agressão, angústia, irritabilidade e nervosismo, foram reduzidos após a visualização de vídeos. E isso durou até por horas após a visualização”, detalha Hasbach.

A autora destaca que até problemas recorrentes dentro da instituição, como brigas violentas e discussões apresentaram uma diminuição considerável. “Descobrimos que os presos que assistiram aos vídeos de natureza tiveram uma redução de 26% em suas infrações violentas”, informa. “Isso representa 13 incidentes violentos a menos ao longo do ano, uma redução substancial, uma vez que quase todos esses eventos resultam em lesões de presos ou funcionários”, complementa.

Lembranças

Na avaliação de Bernardo Cherulli, psicólogo especialista em terapia cognitiva, o estudo foi bem conduzido, o que o torna confiável, e traz resultados interessantes. “O assunto escolhido é de alta relevância, já que se trata de um problema real, para o qual são necessárias novas soluções. A pesquisa mostra como uma intervenção simples e barata pode melhorar a qualidade de vida tanto dos prisioneiros quanto de quem trabalha nas prisões”, opina o especialista, que não participou do estudo.

Cherulli também acredita que as imagens vistas pelos presos podem ter trazido tranquilidade por invocar sensações boas. “Mesmo que um indivíduo seja criado em um contexto urbano, imagens desse tipo são desde cedo relacionadas à paz e à tranquilidade. Comerciais de tevê, filmes e histórias contatadas na infância trazem uma ideia de que, quando estamos em uma praia ou próximos a uma floresta, ficamos em paz. Com isso, emparelhamos esses ambientes com momentos agradáveis ou de conquista, como se fosse um prêmio poder usufruir desses momentos. Assim, imagens da natureza podem ativar memórias e crenças, evocando bons sentimentos que levam a bons comportamentos”, considera.

Segundo Letícia Guedes, psicóloga da clínica Vivencialle, em Goiânia, efeitos semelhantes foram observados em outros grupos. “Algumas pesquisas, por exemplo, descrevem a melhora de pacientes internados quando entram em contato com a natureza”, diz. “Sem dúvida alguma, a natureza é capaz de reduzir o estresse e a ansiedade, melhorar a criatividade e, consequentemente, afetar a produtividade, além de causar sensação de bem-estar e felicidade”, acrescenta.


O medo que os segue: oferecendo cuidados de saúde mental para refugiados no Chade

Foto: Sylvain Cherkaoui/Cosmos

29/08/2015

Psicólogos de MSF já atenderam cerca de 524 pacientes desde março deste ano

Ataques perpetrados pelo grupo Boko Haram na região do Lago Chade se intensificaram nas últimas semanas, e, como resposta, a presença militar na área também foi ampliada. O número de pessoas forçadas a deixar suas casas mais que dobrou, levando a um total de 75 mil deslocados no Lago Chade. O medo que se instaurou entre a população – que é composta por refugiados do Níger e da Nigéria, além de chadianos – tem sido cada vez mais acentuado pela violência contínua, que não mostra quaisquer sinais de arrefecimento. As necessidades de saúde mental são muitas, e com esse recente aumento da violência, elas só continuarão crescendo.

Desde o início de sua resposta à crise no Chade, em março de 2015, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) observou uma necessidade imediata de incorporar cuidados psicológicos às suas atividades médicas. Hoje, atuando no campo de refugiados de Dar Es Salam, na região do Lago Chade, os psicólogos de MSF ouvem as histórias de horror e de medo que assombram o cotidiano dos sobreviventes do conflito. Entre os pacientes que buscam apoio psicológico na clínica de MSF no acampamento, um em cada quatro apresentam sinais de depressão. Distúrbios de sono, reações emocionais intensas e de ansiedade relacionadas com o trauma também são comuns.

“Eu atendi Abeni*, uma menina de 16 anos que fugiu de Baga, na Nigéria”, lembra Forline Madjibeye, psicóloga de MSF. “Os pais dela foram mortos, assim como seus vizinhos. Ela pegou a mão do seu irmão pequeno e do seu sobrinho, bem como das quatro crianças que pertenciam aos vizinhos, e, de alguma maneira, chegou até aqui. Eu falei com ela ontem e ela disse que ainda não tem um cartão de refugiada, então não está recebendo nenhum alimento. As crianças ficam chorando porque estão com fome.”

Escapar dessa situação e chegar a um local com condições de vida extremamente difíceis só intensificam os efeitos psicológicos de um trauma como esse. De acordo com Forline Madjibeye, a responsabilidade de tomar conta de seis crianças em um acampamento de refugiados, junto ao que ela presenciou na Nigéria, teve um peso enorme sob Abeni. Ela continua sentindo medo, não consegue dormir, é extremamente estressada, e está sofrendo com depressão porque seu futuro é completamente incerto.

“Nós queremos poder devolver à Adeni algum senso de controle, para que ela possa lidar melhor com o medo e a tristeza que está sentindo e cuidar de si mesma e das crianças”, continua Forline Madjibeye. “Essa não é uma situação fácil, e outras pessoas, infelizmente, também passaram por isso. Então eu a encorajo a compartilhar suas experiências com os demais refugiados, e a não ficar em casa sozinha.”

Com o aumento da violência na região, a insegurança tem perseguido os refugiados desde o momento em que deixaram seus lares. Embora possam ter acreditado estarem fugindo rumo à segurança, eles ainda são assombrados pelos eventos, não se sentem seguros, e, assim, continuam revivendo o trauma. Seu “lar” agora é uma junção de tendas estruturadas no meio do deserto, onde eles podem estar vulneráveis a futuros ataques.

Aurelia Morabito, uma psicóloga que atua com MSF no Lago Chade há dois meses, explica que os sintomas apresentados pelos pacientes estão intrinsecamente ligados aos eventos traumáticos que viveram, mas também às condições de vida precárias e ao sentimento de medo que os refugiados enfrentam quando chegam ao acampamento.

“O processo de recuperação é longo. As pessoas testemunharam coisas horríveis; elas se tornaram refugiadas e depois chegaram a um acampamento onde a vida é sombria e muito difícil. Inicialmente, os pacientes têm estresse, não pós-traumático conseguem dormir. Mas não há outra opção além de ficar. Você não é só uma vítima do Boko Haram, você agora precisa passar pelo processo de aceitação de viver como um refugiado, ou de ter que tocar a vida em outro lugar, ou de ter que conviver com a realidade de que você não tem ideia do que o amanhã lhe reserva.”

Desde que o programa teve início em março, os psicólogos de MSF atenderam cerca de 524 pacientes. As equipes ofereceram consultas individuais, em família ou em dupla, e as crianças também podem participar de uma oficina de desenhos semanal para expressar o que estão sentindo.

“É mais fácil para as crianças expressarem o que estão sentindo por meio de desenhos”, diz Aurelia Morabito. “Depois, nós conversamos com elas e com seus pais sobre os desenhos, com o objetivo de ajudá-las a controlar seus medos. Em cada sessão, as crianças relembram histórias horríveis por meio de seus desenhos. Nós vemos ilustrações de armas e de helicópteros, e de pessoas decapitadas. Ouvimos histórias de crianças que fugiram da Nigéria, para depois sofrerem outro ataque no Níger, para voltarem novamente à Nigéria e presenciarem a violência mais uma vez. Muitas fugiram sozinhas durante a noite, ou passaram a noite escondidas na água, esperando que ninguém as encontrasse.”

The aim of the MSF mental health team is to provide support to the refugees to lessen the burden of the trauma, and to ensure that they have a professional to talk to for as long as they need. Psychologists listen to patients in a safe and confidential space, and through acknowledgement of their suffering, help them find the best coping strategies.

O objetivo da equipe de saúde mental de MSF é oferecer apoio aos refugiados para diminuir o fardo do trauma, e para assegurar que eles tenham um profissional com quem falar pelo tempo que precisarem. Os psicólogos ouvem os pacientes em um espaço seguro e confidencial, e por meio do conhecimento de seu sofrimento, os ajudam a encontrar as melhores formas de lidar com aquilo.

“Durante nossas sessões, os psicólogos de MSF ouvem e tentam normalizar as reações dos refugiados”, explica Aurelia. “Isso ajuda a estabilizar e a passar segurança aos pacientes enquanto eles se conectam com outros e compartilham experiências. Nós sabemos que não conseguimos parar o sofrimento, mas podemos ajudar as pessoas a lidarem melhor com suas reações insuportáveis.”

MSF atua na região do Lago Chade, no Chade, desde março de 2015, pouco depois das primeiras ondas de refugiados fugindo da violência do Boko Haram na Nigéria. Além de seu programa de saúde mental no campo de refugiados de Dar Es Salam, MSF também está administrando clínicas móveis que oferecem cuidados básicos de saúde à população local e deslocada. Em breve, a organização também irá incorporar um componente de saúde mental a essas clínicas móveis.

Na capital N’djamena, MSF apoiou hospitais do Ministério da Saúde após dois ataques do Boko Haram que aconteceram nos dias 15 de junho e 11 de julho. Desde abril, MSF treina funcionários do Ministério da Saúde na gestão de vítimas em grande quantidade de uma só vez, e fez doações a três hospitais da capital, para ajudar a ampliar a capacidade nacional de responder a cenários de emergência.

MSF atua no Chade desde 1981. A organização administra programas regulares em Abéché, Am Timan, Massakory e Moissala. Em julho deste ano, MSF também começou a trabalhar em Bokoro, na província de Hadjer Lamis, em resposta à desnutrição aguda na região.

*O nome foi alterado para proteger a identidade.

Fonte: MSF


De onde vem a maldade?



17/02/2015

Se você tivesse a chance de colocar um punhado de insetos inofensivos dentro de uma máquina trituradora, iria gostar da experiência? E que tal assustar um desconhecido com um barulho alto e insuportável?

Esses são alguns dos testes realizados pelo psicólogo Delroy Paulhus na tentativa de entender as personalidades "nefastas" que andam por aí.

Ele basicamente quer responder a uma pergunta que muitos de nós já fizemos: por que algumas pessoas têm prazer em serem cruéis? Não aquelas classificadas como psicopatas ou condenadas por crimes violentos, mas especificamente os bullies das escolas, os trolls da internet e até membros da sociedade tidos como respeitáveis, como políticos e policiais.

Segundo Paulhus, é muito fácil tirar conclusões rápidas e simplistas sobre esse tipo de indivíduo. "Temos uma tendência a querer simplificar o mundo dividindo as pessoas entre as boas e as más", afirma o psicólogo, professor da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá.

Mas, segundo ele, existe uma "taxonomia" para os diferentes tipos de maldade encontradas no dia-a-dia.

'Tríade do Mal'

O interesse de Paulhus começou com os narcisistas – indivíduos incrivelmente egoístas e vaidosos que atacam os outros para defender sua própria autoestima.

Há pouco mais de uma década, um aluno seu, Kevin Williams, sugeriu que explorassem a possibilidade de essas tendências ao egocentrismo estarem ligadas a duas outras características desagradáveis: o maquiavelismo (uma manipulação fria) e a psicopatia (uma insensibilidade aguda e indiferença ao sentimento dos outros).

Juntos, os dois cientistas descobriram que os três traços eram bastante independentes, apesar de às vezes coincidirem, formando uma "Tríade do Mal".

A honestidade dos voluntários nos testes de Paulhus o surpreendeu. Ele percebeu que os participantes que concordavam com frases como "Gosto de provocar pessoas mais vulneráveis" ou "Não é uma boa ideia me contarem segredos" geralmente se abriam sem pudor e tinham passado por alguma experiência de bullying, na adolescência ou na vida adulta.

Essas pessoas também apresentaram uma tendência maior a serem infiéis a seus parceiros e a trapacear em exames.

Paulhus notou ainda que essas características não apareciam em um primeiro contato frente a frente com o voluntário. "Essas pessoas estão lidando com a sociedade cotidianamente, por isso têm autocontrole suficiente para não se meterem em confusão. Mas uma coisa ou outra em seu comportamento acaba chamando a atenção", afirma o psicólogo.

Malvado por natureza

James Bond, vivido por Daniel Craig, é um exemplo de personalidade sinistra e sedutora
Crédito: Divulgação

Quando Paulhus começou a examinar a fundo essas mentes macabras, outras perguntas foram surgindo. Por exemplo, será que as pessoas nascem malvadas?

Estudos que comparam gêmeos idênticos e não-idênticos sugerem que existe um componente genético relativamente grande para o narcisismo e a psicopatia, enquanto o maquiavelismo parece ser mais influenciado pelo ambiente.

Mas o fato de herdarmos alguns desses traços não nos isenta de responsabilidades. "Não acredito que uma pessoa nasça com genes de psicopata e que nada possa ser feito para que isso não se desenvolva", afirma Minna Lyons, da Universidade de Liverpool, na Grã-Bretanha.

Basta olhar para os anti-heróis da cultura pop – James Bond, Don Draper (do seriado Mad Man) e Jordan Belfort (o protagonista de O Lobo de Wall Street) – para perceber que personalidades sinistras são bastante sedutoras, uma descoberta sustentada por outros estudos científicos.

Lyons e sua equipe descobriram ainda que indivíduos notívagos tendem a apresentar mais características ligadas à maldade. Eles se arriscam mais, são mais manipulativos e tendem a explorar outras pessoas.

Isso pode fazer sentido se pensarmos na evolução humana: talvez as pessoas com uma personalidade hermética tinham mais chances de roubar e ter relações ilícitas enquanto os demais dormiam, então acabaram evoluindo para serem criaturas da noite.

Cantos obscuros

Recentemente, Paulhus começou a examinar mais profundamente as partes mais sombrias da psique humana. "Preparamos questionários com perguntas mais extremas e descobrimos que alguns voluntários facilmente admitiam já ter causado dor em outras pessoas apenas por prazer", conta.

Para ele, essa tendência não é apenas um mero reflexo do narcisismo, da psicopatia ou do maquiavelismo, mas sim uma subespécie de maldade, à qual deu o nome de "sadismo cotidiano".

O "triturador de insetos" propiciou a Paulhus e seus colegas entender se aquilo se tratava de um comportamento verdadeiro. Sem que os participantes soubessem, a máquina foi adaptada para dar aos insetos uma saída, mas ainda assim produzia sons arrepiantes que imitavam o ruído dos animais sendo esmagados.

Algumas pessoas eram tão sensíveis que se recusavam a participar da experiência, enquanto outras demonstraram ter prazer na tarefa. "Esses indivíduos foram os que marcaram mais pontos no meu questionário sobre sadismo cotidiano", afirma Paulhus.

Caça aos trolls

Paulhus acredita que esse comportamento é semelhante ao dos chamados trolls da internet. "Eles são a versão online do sadista cotidiano porque passam um bom tempo procurando pessoas para atacar".

Um pesquisa anônima com indivíduos que deixam comentários com teor de trolagem na rede concluiu que eles são os que marcam mais pontos nos testes de personalidade cruel e têm o prazer como sua principal motivação.

Os estudos de Paulhus chamaram a atenção da polícia e de agências militares, que querem trabalhar com ele para investigar por que algumas pessoas abusam de suas posições.

"A preocupação dessas forças é que alguns indivíduos escolham empregos junto a elas por acreditarem que terão um mandado para infligir dor em outros", explica o psicólogo. Se for assim, poderiam ser criados testes que filtrariam e eliminariam candidatos com uma personalidade mais sombria.

Paulhus também está animado com os resultados de novas pesquisas sobre "maquiavelismo moral" ou "narcisismo comunitário" – pessoas com algumas características macabras mas que as usam para algo positivo.

Ele lembra que pessoas com essa personalidade em geral têm mais iniciativa e autoconfiança para realizar o que desejam. "Até Madre Teresa de Calcutá tinha um lado mais frio", diz o psicólogo. "Afinal, você não vai ajudar o mundo ficando bonzinho em casa."

Fonte: BBC Brasil


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