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SUDÃO DO SUL: MEDICINA HUMANITÁRIA EM MOVIMENTO

Foto: Siegfried Modola

19/04/2017

Fotógrafo Siegfried Modola fala sobre a provisão de cuidados de saúde às populações deslocadas e em perigo na província de Leer, no norte do país

O Sudão do Sul, país que se separou do Sudão em 2011 após décadas de conflito, está atualmente mergulhado em uma guerra civil entre os grupos étnicos dinka e nuer após tensões políticas entre o presidente Salva Kiir e seu antigo vice, Riek Machar.

O país é a nação mais nova do mundo. É uma região rica em óleo, mas, após anos de guerra, também é um dos lugares menos desenvolvidos no planeta.

Os confrontos dos últimos três anos forçaram milhões de pessoas a fugirem de suas casas, dividiram a população entre grupos étnicos e paralisaram as atividades de agricultura, deixando o país exposto à fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Ainda segundo a organização, ao menos um quarto dos sul-sudaneses deixaram suas casas.

A parte sul do antigo estado de Unity, região de origem de Riek Machar, foi gravemente afetada pela violência contínua e pelos confrontos duradouros entre o Exército do Governo pela Libertação da População Sudanesa (SPLA, na sigla em inglês) e pelo exército de oposição (SPLA-IO, na sigla em inglês).

Os civis estão pagando o preço mais alto, já que se encontram na frente de batalha do conflito. A população local não consegue ter acesso sequer aos serviços mais básicos e necessários à sobrevivência. Alimento e cuidados médicos são quase inexistentes, à exceção do que é oferecido por organizações humanitárias, quando há segurança o suficiente para realizarem seu trabalho.

Vilarejos inteiros foram incendiados durante confrontos contínuos. Há relatos constantes de violações graves dos direitos humanos perpetradas por diversos grupos armados que atuam na região.  

As pessoas foram deslocadas de seus lares diversas vezes, ou fugiram por completo de algumas regiões. Atualmente, há cerca de 120 mil pessoas no Complexo de Proteção aos Civis da ONU (PoC, na sigla em inglês) de Bentiu, e muitas delas vieram do antigo estado de Unity.

Após o recomeço do conflito em julho de 2016, a população teve que fugir mais uma vez, enquanto a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) teve de evacuar suas equipes internacionais que estavam em Leer e Thoynor. Em setembro, MSF iniciou um programa de cuidados básicos de saúde para continuar chegando à população necessitada.

Por meio de uma rede de agentes comunitários de saúde, promotores de saúde e promotores de saúde da mulher – cujos membros são parte da população afetada pelo conflito – MSF conseguiu oferecer cuidados de saúde na região.

Agentes comunitários de saúde são treinados para tratar os problemas de saúde mais comuns (como doenças de pele, infecções no trato respiratório, doenças provenientes de água contaminada e malária). Eles ficam na comunidade e, caso a população dali precise fugir, eles vão junto, de modo a continuar oferecendo cuidados. MSF reabastece os grupos de profissionais locais com suprimentos médicos e oferece supervisão e treinamento por meio de suas equipes internacionais.

Decolamos no início da manhã do aeroporto internacional de Juba, capital do país, em um voo de MSF. O aeroporto de Juba é um núcleo de atividade humanitária: diversas organizações de assistência estão tentando mandar suprimentos para a população do país, que carece urgentemente até dos serviços mais básicos.

Estou em um avião de oito lugares com a médica de MSF, dra. Philippa Pet, e um responsável pela segurança, também de MSF, Georg Geyer, líder da nossa equipe. Fazemos um voo de quase duas horas até Thaker, na província de Leer, no norte do país. O avião está cheio de suprimentos médicos e outros equipamentos necessários para nossa estadia de oito dias na floresta.

Aterrissamos em uma parte ventosa e empoeirada da floresta. A cena é desoladora. A certa distância vemos muitos tukuls (cabanas de barro), mas há poucas pessoas por ali.

Duas semanas antes de nossa chegada, Thaker foi palco de confrontos entre diferentes grupos armados. Fomos informados de que muitos homens jovens fugiram com seu gado para outras regiões por razões de segurança.

Alguns minutos depois de nossa chegada, encontramos James*, supervisor de MSF que diz à dra. Philippa que há uma mulher com sérias complicações decorrentes de sua gravidez esperando por tratamento dentro de uma cabana próximo dali. O avião decola para partir sem nós enquanto nos aproximamos da mulher doente.

MSF tem poucos aviões em operação dentro do país, então eles voam com horários restritos. Cada minuto a mais em solo é um minuto desperdiçado em uma localidade diferente.  

A dra. Philippa examina a mulher, cuja gravidez está em estágio avançado. Ela ficou em trabalho de parto durante dois dias, mas o bebê ficou preso e há mais de 24 horas ela não sente nenhum movimento da criança. “Ela precisa ser transferida para nosso hospital de Bentiu”, diz a médica.

O avião que havia decolado há poucos minutos é chamado de volta pelo rádio após a dra. Philippa receber autorização para encaminhar a paciente à equipe de MSF em Juba. A jovem e uma acompanhante são levadas ao hospital de MSF que fica dentro da base da Missão da ONU para o Sudão do Sul (UNMISS, na sigla em inglês) em Bentiu, na província de Rubkona, para receber tratamento de emergência.

Na noite do mesmo dia, a equipe recebe a notícia maravilhosa de que a mãe está bem e de que o bebê nasceu frágil, mas vivo.

Poucas horas após nossa chegada em Thaker, a equipe estrutura sua clínica móvel ao ar livre.

Há uma área de espera, onde os pacientes recebem um cartão médico e as crianças são pesadas e avaliadas para febre e sintomas de desnutrição. Depois, os pacientes seguem para a área de consulta, onde são mandados para exames de urina, testes de malária ou diretamente para o ambulatório, onde podem receber medicamentos.

Pouco depois de meio-dia, já há dezenas de pessoas esperando ser atendidas sob a sombra de algumas árvores de acácia. São, em sua maioria, mulheres e crianças que vieram receber cuidados médicos. Há alguns homens idosos, mas, durante todos os dias em que estive aqui, vi pouquíssimos homens jovens. Ouvi dizer que a maioria deles partiu para os campos de gado.

O lugar é quente e inóspito. Ao meio-dia, a temperatura deve superar os 35 graus Celsius. A sensação é de secura. O vento queima a pele. Sinto sede constantemente. Não é um lugar em que as pessoas podem se dar ao luxo de adoecer. Eu me pergunto como essas mães e crianças sobrevivem em um ambiente tão hostil.  

Vejo uma mulher que não consegue andar direito se aproximando da clínica com o apoio de familiares. Tento entender o que aconteceu com ela.

Nyalolah*, de 16 anos, chega à clínica com a ajuda de seus familiares, que relatam uma série de episódios de colapso que testemunhamos pouco antes de sua chegada. Durante essas crises, ela fica sem reação e seu corpo inteiro fica tenso.    

A dra. Philippa me diz que a causa do problema não é clara, já que o exame físico não revelou qualquer anormalidade, que as crises não mostram qualquer característica de epilepsia e os exames feitos, ainda que limitados, tiveram resultado negativo. Nesse contexto, é difícil lidar com esse tipo de caso.  

Outra mulher chega com sua filha, que apresenta sinais de desnutrição grave. O bebê parece muito mais novo do que realmente é.

Uma idosa chega acompanhada de um parente – ela anda devagar, apoiando-se na outra mulher. Muitas das pessoas que conheci aqui percorreram longas distâncias para receber tratamento médico.

Vejo outra mulher deitada no chão, ao lado da fila para ser atendida. Ela está muito fraca para ficar sentada.

Uma mulher gravida é estabilizada após ficar inconsciente.

Nos meus três primeiros dias em Thaker, a equipe de MSF tratou mais de 600 pacientes.

Nyareat*, de 24 anos, chega acompanhada de sua filhinha de quatro meses, Nyakueka*, que tem febre. Ela andou durante uma hora para chegar até a clínica.

Há dignidade entre as pessoas que conheci, que enfrentam um grande sofrimento diário para sobreviver.

No fim da tarde, uma mulher com suspeita de meningite chega à clínica acompanhada de um grupo de familiares.

“Essa história deveria ser sobre os profissionais locais de MSF no projeto. Eles são os que enfrentam boa parte dos perigos em suas profissões. Eles são alvejados por gangues armadas que acham que eles têm dinheiro, visto que trabalham para uma organização internacional. Meu trabalho aqui é treiná-los, e garantir que eles saibam diagnosticar e tratar pacientes. Eles que ficam para trás quando vamos embora”, diz a dra. Philippa.

James*, de 33 anos, é supervisor de MSF. Ele trabalha para a organização há um ano e é o líder da equipe nesta região. Ele explica os perigos de seu trabalho.  

“Como agentes de saúde, fazemos um trabalho perigoso. Seguimos a população em qualquer localidade onde esteja ou para onde quer que vá. Uma vez, passei oito horas no pântano com outras pessoas para que pudéssemos nos esconder de homens armados. Cinco pessoas foram baleadas e morreram ao meu lado nesse dia. Também me lembro de ver uma mãe segurando o filho, tentando amamentá-lo, sem saber que ele havia morrido. Contudo, eu amo esse trabalho. Amo servir a minha comunidade, porque as pessoas precisam de assistência médica. Elas precisam que nós estejamos aqui para ajudá-las. Muitas delas morrem porque não conseguem chegar a tempo ao hospital. Muitas crianças morrem de desnutrição, e também pela falta de vacinas”, diz James.

Richard*, de 34 anos, é agente comunitário de saúde de MSF. Ele trabalha para a organização desde 2013. Nesse mesmo ano, o projeto de MSF nessa região foi interrompido por questões de segurança.

“Trabalhamos em uma região de muita insegurança. Por isso, o maior problema para a população local é a falta de alimento e cuidados médicos. Temos que nos concentrar e usar da melhor forma possível os suprimentos que MSF nos manda semanalmente”, diz Richard.

Nyasunday*, de 25 anos, é mãe de quatro filhos: Nyapal*, de um ano, Nyakuoth*, de 5, Nyabora*, de 9 e Nyanhial*, de 8. Ela explica sua situação enquanto espera sua consulta médica:

“Todos estamos sofrendo aqui. Os confrontos destruíram nossas casas e agora temos que ficar na floresta. Precisamos nos esconder o tempo todo, porque tememos por nossas vidas. Meu marido está em Juba e não consegue voltar porque a estrada não é segura para uma viagem. Ele não está aqui para me ajudar, e eu estou lutando para cuidar de meus filhos. Não temos alimento e eu me preocupo muito com o futuro. Muitas vezes nos alimentamos de lírios aquáticos para sobreviver. Essa não é uma boa vida para meus filhos. Torço por um amanhã melhor”, diz Nyasunday.

A situação pode mudar de um minuto para o outro, e as equipes de MSF precisam estar preparadas para agir adequadamente. A prioridade é minimizar os riscos do perigo de grupos armados. Normalmente, equipes de MSF não são alvejados nesse tipo de contexto. Contudo, a imprevisibilidade da situação significa que as coisas podem dar errado de repente.

Na tarde do dia 22 de março, já há cinco dias no projeto, ouvimos relatos da população local sobre movimentos de tropas na região, além de rumores sobre a possibilidade de um ataque na vizinhança.

O coordenador de projeto de MSF em Juba toma a decisão de evacuar os profissionais internacionais no dia seguinte, a fim de evitar que eles sejam pegos em meio ao fogo cruzado do conflito.

Na manhã do dia 23 de março, depois de estruturarmos nossa segunda clínica em Gier, a poucos quilômetros de Thaker, voltamos ao ponto inicial para esperar o mesmo avião de MSF que nos trouxe para nos tirar da região.

Georg Geyer, ponto focal da segurança de MSF e nosso líder de equipe neste projeto, explica as dificuldades de trabalhar no Sudão do Sul:

“Trabalhei para MSF em mais de oito países, mas o Sudão do Sul se mostrou um lugar muito difícil para. Posso enxergar claramente as enormes necessidades da população aqui. Eles precisam de alimento e medicamentos. O acesso a áreas como essa de grande insegurança pode ser desafiador. Sou responsável pela minha equipe, e preciso mantê-la em segurança”, diz Georg.

* Por razões de segurança, todos os nomes foram alterados.

Sudão do Sul: faltam medicamentos por todo o país


Foto: Diana Zeyneb Alhindawi

10/04/2016

Carta aberta da Dra. Joanne Liu, presidente internacional de MSF

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) expressa sua frustração ao constatar que, em um contexto já dramático de violência e deslocamentos prolongados, o alerta que fizemos há um ano para a comunidade humanitária e doadores não levou a nenhuma ação estrutural ou decisiva para evitar uma escassez a nível nacional de medicamentos essenciais no Sudão do Sul.

O conflito no Sudão do Sul já dura mais de dois anos, impactando fortemente sua população e, como sempre, colocando os mais vulneráveis em risco. Além dessa situação humanitária que já é terrível, uma emergência médica adicional e evitável está se desdobrando.

A interrupção do Fundo de Medicamentos de Emergência (EMF, na sigla em inglês) – programa que assegurava o financiamento, a aquisição e a provisão de medicamentos essenciais para todo o Sudão do Sul – agora gerou a escassez inaceitável e devastadora de medicamentos no país. Embora o cumprimento dos objetivos do programa tenha sido oficialmente repassado para o governo, quase não restam dúvidas de que não haveria condições de preencher essa lacuna em meio à crise contínua no país.

Esforços para prevenir o pior foram apenas temporários, sem que houvesse reconhecimento do impacto mais amplo dessa escassez massiva de medicamentos. Foram distribuídas e transferidas reservas de medicamentos, o que, no entanto, não impediu que nossas equipes testemunhassem a escassez na maioria das instalações de saúde primária em regiões onde trabalhamos. Por exemplo, em Aweil e no seu entorno, nós visitamos 42 unidades e centros médicos, dos quais 12 estavam completamente fechados e 23 já haviam tido de fechar e os pacientes estavam tendo de comprar seus medicamentos prescritos no mercado. Tudo isso foi agravado por um surto de malária que eclodiu no ano passado, quando tratamos mais casos graves da doença do que nunca, apesar das doações e distribuições de testes e tratamentos. Ainda assim, muitos pacientes chegaram em estágios avançados da doença por causa da falta de acesso a medicamentos básicos a nível local.

Embora previsíveis na época de nosso alerta, esses fatos agora estão refletidos e foram confirmados por mecanismos oficiais de informação. Ainda assim, nenhuma abordagem estrutural foi formulada para o futuro próximo, diante do fato de que a escassez de medicamentos agora é uma realidade em todo o país. Uma nova estação chuvosa está se aproximando rapidamente, prometendo novos surtos, bem como uma logística complicada. Essa não é uma situação que possa ser resolvida por um único ator isoladamente, mas parecem faltar esforços conjuntos.

Portanto, estamos novamente fazendo um apelo a todos os doadores, atores e autoridades para que se unam a fim de evitar uma crise médica completa, que está agravando ainda mais uma situação humanitária já terrível. A população não pode ter o acesso a medicamentos vitais negado. Se esses grupos não se unirem, a vida de milhares de pessoas estará em perigo e a parcela mais vulnerável desse país será novamente impactada desproporcionalmente, particularmente mulheres e crianças.

Após já ter abordado essas preocupações ao escrever para grandes doadores e após diversas reuniões bilaterais, eu me sinto compelida a reiterar nosso apelo publicamente, na forma desta carta aberta.

Dra. Joanne Liu

Presidente Internacional – Médicos Sem Fronteiras

Bentiu, Sudão do Sul: população em acampamento enfrenta riscos de saúde crescentes

Foto: MSF

06/08/2015

Superlotação do local e condições de higiene precárias agravam a proliferação de surtos de doenças

“A situação atual é precária, com novas pessoas chegando todos os dias ao acampamento de Proteção de Civis da ONU em Bentiu, em busca de abrigo e proteção. O agravamento do conflito no estado de Unity em abril forçou a saída de muitas pessoas de suas casas e, hoje, cerca de 110 mil deslocados vivem aqui. Isso é mais do que o dobro do número de pessoas que estavam aqui há alguns meses e o local parece mais uma cidade do que um acampamento.

Instalações sob pressão

O influxo extra de pessoas aumentou a pressão sob os recursos existentes, incluindo o hospital mantido pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) que está operando quase em capacidade máxima. Temos observado um aumento significativo nos casos de malária ao longo do mês passado, tendo tratado mais de 2 mil casos apenas em julho, e admitido mais de 150 pessoas com malária grave com complicações em nossa instalação. A fim de reduzir esses números, e de limitar as complicações da malária grave, começamos a apoiar três clínicas de emergência no acampamento voltadas para crianças com menos de cinco anos, que oferece acesso imediato a diagnóstico e tratamento.

A desnutrição grave também é muito preocupante. Só em julho, nosso hospital admitiu mais de 100 crianças pequenas sofrendo de desnutrição grave com complicações para receberem tratamento terapêutico intensivo. Infelizmente, muitas crianças chegam tarde demais ao hospital, com sintomas avançados, resultando em uma alta taxa de mortalidade (23% de mortalidade reportada em julho).

Risco de surto de doença

Há um risco real de ocorrer um surto do vírus hepatite E. Embora tenha havido casos esporádicos de hepatite E detectados desde outubro de 2014, nas últimas seis semanas, parece ter havido um aumento consistente e significativo no número de pessoas com icterícia (sinais de inflamação no fígado) que testaram positivo para hepatite E por meio de teste rápido de diagnóstico. MSF está observando uma alta taxa de hospitalização (37%) e de fatalidade (4%). Três mulheres grávidas que haviam dado à luz morreram nas últimas semanas.

Higiene precária

Água contaminada, higiene e saneamento precários estão implicando fortemente no surgimento de grandes surtos de hepatite E. Diante desse suposto surto, as condições de higiene no acampamento de Bentiu precisa ser melhorado urgentemente. Isso inclui a ampliação de instalações com pontos de água limpa e a distribuição de sabonetes, junto a mensagens sobre higiene que permitam que as pessoas reduzam os riscos de transmissão para si próprias e suas famílias, e estejam atentas aos sinais e sintomas da infecção por hepatite E.

É preciso intensificar os esforços

MSF faz um apelo a todos os prestadores de cuidados de saúde, atores que fornecem água e saneamento e doadores que intensifiquem seus esforços dentro do acampamento de Proteção de Civis de Bentiu o mais rápido possível, com o intuito de deter futuras transmissões de doenças e de aliviar o sofrimento da população deslocada que vive neste acampamento.”

A Dra. Ruby Siddiqui é epidemiologista e apoia os projetos de Médicos Sem Fronteiras por meio de vigilância médica, do monitoramento e da investigação de surtos. Atualmente, ela está atuando no campo de Proteção de Civis da ONU em Bentiu, no Sudão do Sul, onde cerca de 110 mil pessoas estão abrigadas.

Fonte: MSF


Sudão do Sul: MSF pede acesso humanitário urgente ao estado do Alto Nilo

Foto: Paul Jawor/MSF

24/07/2015

População encurralada pela violência está impedida de receber qualquer tipo de cuidados

Na medida em que os confrontos se intensificam no estado do Alto Nilo, no Sudão do Sul, e as necessidades humanitárias das pessoas aumentam, organizações humanitárias estão enfrentando dificuldades crescentes para chegar às áreas mais gravemente afetadas, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). MSF pede a todas as partes do conflito que permitam o acesso irrestrito à Malakal e a regiões de seu entorno para que agências humanitárias possam prestar assistência urgente às milhares de pessoas encurraladas pela violência.

“Dezenas de milhares de pessoas têm estado sem acesso a cuidados médicos há três meses”, diz William Robertson, gestor do programa de MSF no Sudão do Sul. “Isso está acontecendo em meio a uma nova onda de violência que está ameaçando a vida de inúmeros civis.”

A cidade de Malakal, cujo governo foi alterado diversas vezes ao longo dos últimos 18 meses, foi esvaziada em consequência de combates contínuos. Nas últimas seis semanas, MSF conseguiu fazer uma única distribuição de suprimentos médicos e alimentares para seu centro de saúde em Wau Shilluk, nos arredores de Malakal. Há 77 crianças com desnutrição aguda grave no programa ambulatorial de nutrição terapêutica de MSF, mas, atualmente, não há como reabastecê-lo com alimentos terapêuticos prontos para uso.

Com a cidade de Malakal em estado de alerta, e com uma presença militar massiva, muitas pessoas fugiram para o complexo de “proteção de civis” mais próximo. No entanto, o local não é seguro; MSF tratou nove pessoas feridas em um tiroteio que tinha por objetivo atingir diretamente o complexo no início de julho.

Nos dias 19 e 20 de julho, o hospital de MSF em Malakal recebeu 36 civis feridos, incluindo 16 mulheres e cinco crianças, que estavam viajando em um caminhão quando foram atacados por um grupo armado. Alguns tiveram múltiplos ferimentos por estilhaço, causados por granadas, e outros tinham ferimentos a bala. Cinco deles precisaram de cirurgia emergencial. Esse é apenas um exemplo dos inúmeros episódios de violência contra civis no estado do Alto Nilo.

Outras pessoas fugiram de Malakal para a cidade de Melut, no norte do país. MSF foi obrigada a suspender suas atividades médicas na cidade por duas vezes nas últimas seis semanas, deixando os 20 mil deslocados que vivem no acampamento de Denthoma 1 sem cuidados médicos.

Já outras pessoas fugiram de Malakal para a margem oposta do rio Nilo Branco, onde há escassez de insumos básicos, como alimentos, água limpa e medicamentos.

“A violência contínua no Sudão do Sul está forçando cidadãos comuns a viverem em condições desumanas”, diz William Robertson. “As pessoas estão sendo expostas à violência constante, ao aumento dos deslocamentos, ao medo de ataques, a surtos de doenças e ao risco de inanição. MSF está profundamente preocupada com a recusa contínua do acesso de organizações humanitárias às regiões em conflito e outras áreas remotas do Sudão do Sul, o que está deixando a população sem a assistência humanitária de que necessitam urgentemente. Nosso único propósito é prestar assistência àqueles em necessidade, independentemente de afiliação política, raça, etnia ou região onde estão vivem.”



Sudão do Sul: situação humanitária é alarmante no Alto Nilo enquanto civis são atingidos em tiroteio em Malakal

Foto: Matthias Steinbach

02/07/2015

MSF recebeu em seu hospital nove pacientes feridos, incluindo mulheres e idosos

Após um tiroteio em Malakal, no estado de Alto Nilo, em 1º de julho, direcionado ao complexo de Proteção de Civis (Protection of Civilians ou PoC, em inglês), a organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) recebeu nove pacientes feridos, incluindo mulheres e idosos, em seu hospital no complexo. Esse acontecimento se soma a uma situação humanitária já deteriorada no estado ao longo das últimas semanas, que deixou a população civil constantemente exposta a episódios de violência, aumento do número de feridos, mais deslocamentos, maiores taxas de desnutrição e risco de surtos de doenças.

Um dos pacientes recebidos havia sido gravemente ferido e morreu pouco depois de ter sido levado à instalação de MSF. Três pacientes em estado grave foram estabilizados e encaminhados para dar sequência ao tratamento e cinco continuam recebendo cuidados ali. Todos aqueles que foram tratados por MSF são deslocados internos e estão entre as mais de 30 mil pessoas que tentam escapar do conflito no Sudão do Sul buscando abrigo no complexo de Malakal da Organização das Nações Unidas (ONU).

Desde o início do conflito em dezembro de 2013 no Sudão do Sul, civis, incluindo pacientes e profissionais médicos, tem sofrido ataques frequentes. MSF condena fortemente o tiroteio direcionado ao complexo e pede a todas as partes do conflito que respeitem civis, profissionais médicos e pacientes.

MSF é uma das maiores organizações que oferecem assistência médica e humanitária no Sudão do Sul, com mais de 3.100 profissionais no país e projetos na Etiópia, em Uganda e no Sudão, atendendo refugiados do Sudão do Sul. Até o momento, MSF mantém projetos em seis dos 10 estados do Sudão do Sul, incluindo Unity, Alto Nilo e Jonglei, onde a população sofre consequências graves do conflito.

Fonte: MSF


Sudão do Sul: situação humanitária se torna alarmante com escalada de conflito

Foto: MSF

26/05/2015

Aumento da violência forçou a interrupção de serviços médicos, destruiu estruturas de saúde e forçou a retirada de profissionais médicos

A intensificação dos confrontos no Sudão do Sul está expondo os civis à violência generalizada e restringindo gravemente o oferecimento de ajuda que é urgentemente necessária, afirmou a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Um aumento da violência nos estados de Unity, Jonglei e Alto Nilo resultou na interrupção de serviços médicos e na destruição de estruturas de saúde. Profissionais médicos tiveram de ser evacuados.

“A escalada [da violência] deixou as pessoas em zonas de conflito expostas à violência e sem cuidados médicos e assistência humanitária, que são muito necessários”, disse Paul Critchley, coordenador-geral de MSF no Sudão do Sul. “Todas as partes do conflito devem respeitar civis e estruturas de saúde, a fim de evitar ainda mais sofrimentos desnecessários.”

No estado de Alto Nilo, MSF está oferecendo assistência médica essencial para salvar vidas de pessoas que foram feridas em confrontos violentos em Melut, apesar de não poder mais enviar suprimentos médicos e profissionais. A insegurança em andamento está impedindo aviões de pousarem e forçou centenas de pessoas a buscarem abrigo no complexo de “Proteção de Civis”, da Organização das Nações Unidas (ONU), nos últimos dias. A capacidade de MSF de oferecer cuidados àqueles em necessidade está em risco, a menos que a passagem de profissionais e suprimentos seja garantida.

Em Malakal, MSF também está tratando os feridos dos recentes combates, embora os confrontos tenham impedido a prestação de assistência médica na semana passada para cerca de 30 mil pessoas que estão vivendo no complexo de “Proteção de Civis”, local que tem visto um enorme fluxo de recém-chegados. A situação altamente volátil continua impedindo a entrada de equipes na cidade de Malakal, onde boa parte dos combates ocorreram.

No estado de Jonglei, a cidade de Phom El-Zeraf (Nova Fangak) estava na linha de frente de batalha ao longo dos últimos meses. Durante uma visita à região na terça-feira (19/05), uma equipe de MSF descobriu que a cidade havia sido efetivamente destruída, com árvores e casas desabadas após incêndios e prédios escolares destruídos. O hospital, uma das principais instalações de saúde na parte norte do estado, foi demolido. Sua destruição tem grande impacto sobre as pessoas em uma área com poucas alternativas de cuidados médicos.

No estado de Unity, MSF foi forçada a evacuar seu hospital na cidade de Leer, em 9 de maio deste ano, na medida em que a linha de frente de batalha se aproximou, deixando aproximadamente 200 mil pessoas na região sem nenhum cuidado médico. MSF fez contato, no começo desta semana, com um trabalhador sul-suldanês, que relatou que ele estava escondido com muitos outros civis em uma ilha no pântano, para evitar estar em meio a tiroteios.

“Um foguete carregado de granadas caiu  na água ao lado dele, mas, felizmente, não detonou. Ele passou nove horas na água. Quando conseguiu voltar para a ilha, entregou os corpos de duas crianças que havia retirado da água para seus pais. Ele disse que uma mulher do grupo foi sequestrada e alguém está cuidando do bebê dela”, disse Paul Critchley.

Em Bentiu, os confrontos e a insegurança ao longo das últimas semanas forçaram MSF a suspender diversas clínicas móveis nos arredores da região. Em Nhialdiu, MSF estava oferecendo consultas médicas todos os dias para centenas de pessoas. A organização continua administrando um hospital dentro do complexo de “Proteção de Civis” em Bentiu, que recebeu mais de 11 mil recém-chegados – a maioria deles são mulheres e crianças. Muitas pessoas compartilharam com MSF histórias terríveis da violência da qual  estão escapando: vilarejos inteiros incendiados; famílias separadas; ataques e matanças; tendo de deixar feridos para trás; e violência sexual contra mulheres e crianças. MSF tratou uma mulher grávida que chegou com uma perna gravemente ferida de uma bomba que havia explodido. Ela não pôde receber nenhuma assistência médica por nove dias.

Aqueles que conseguiram chegar a um dos complexos de “Proteção de Civis” também não estão sendo poupados da violência. Bombardeios e tiroteiros frequentes, próximos das áreas onde os civis estão abrigados, resultaram em balas e bombas ultrapassando o local e ferindo moradores em diversas ocasiões. Em março, MSF tratou uma criança de nove anos que foi atingida por um tiro disparado do lado de fora do complexo de “Proteção de Civis” enquanto ela dormia ali dentro. Tensões sectárias também estão elevadas dentro dos acampamentos, com o hospital de MSF em Bentiu tratando o triplo do número de ferimentos relacionados à violência: foram quase 150 casos em abril e cerca de 50 casos todos os meses no ano passado. A estação chuvosa que se aproxima e as condições de superlotação agravadas pelo recente influxo de novas chegadas em vários acampamentos são causas adicionais de preocupação.

MSF é uma das maiores provedoras de ajuda médica e humanitária no Sudão do Sul, tendo mais de 3.500 profissionais pelo país,  além de projetos na Etiópia e em Uganda que recebem refugiados do Sudão do Sul. Até agora, MSF opera projetos em seis dos 10 estados do país, incluindo em Unity, Alto Nilo e Jonglei, onde o conflito tem tido um custo elevado para a vida da população. MSF também administra atividades na Área Administrativa de Abyei. As equipes estão respondendo a diversas necessidades de saúde, incluindo cirurgias, cuidados obstétricos, malária, calazar, vacinações contra doenças evitáveis e desnutrição. MSF pede a todas as partes do conflito que respeitem instalações médicas para permitir que organizações de ajuda tenham acesso a comunidades afetadas e que permitam que pacientes recebam tratamentos médicos, independentemente de suas origens ou etnias. Até agora, neste ano, MSF ofereceu 167.207 consultas ambulatoriais, das quais 62.269 foram para crianças com menos de cinco anos; 10.367 pacientes foram hospitalizados, dos quais 5.123 eram crianças com menos de cinco anos; realizou 5.096 cirurgias e 3.587 partos; 1.102 pacientes estão sob tratamento para calazar; 6.243 crianças foram tratadas por desnutrição, das quais 1.102 foram hospitalizadas.

Fonte: MSF


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