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Carta de Santa Cruz defende reforma agrária e produção de alimentos saudáveis



08/08/2015

Documento entregue ao Papa Francisco foi elaborado no 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, na Bolívia.

Por Catiana de Medeiros

A defesa da terra e da soberania alimentar fazem parte da Carta de Santa Cruz, elaborada por militantes sociais de 40 países durante o 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, realizado entre os dias 7 a 9 de julho, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

O documento defende a promoção da Reforma Agrária integral, com a distribuição de terra de forma justa e equitativa.

Alerta ainda para “o surgimento de novas formas de acumulação e especulação da terra e do território como mercadorias, vinculadas ao agronegócio, que promove a monocultura destruindo a biodiversidade, consumindo e contaminando a água, deslocando populações camponesas e utilizando agrotóxicos que contaminam os alimentos”.

As organizações também reafirmaram a luta em defesa da produção de alimentos saudáveis e da soberania alimentar, condenando os transgênicos.

A Carta de Santa Cruz foi entregue ao Papa Francisco no último dia 11, quando esteve reunido pela segunda vez com os movimentos populares, na Bolívia. O primeiro encontro dos militantes com o Papa ocorreu em 2014, no Vaticano.

Confira abaixo a íntegra da carta:

Carta de Santa Cruz

As organizações sociais reunidas no Segundo Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, durante os dias 7, 8 e 9 de julho de 2015, concordamos com o papa Francisco em que as problemáticas social e ambiental emergem como duas faces da mesma moeda. Um sistema incapaz de garantir terra, teto e trabalho para todos, que mina a paz entre as pessoas e ameaça a própria subsistência da Mãe Terra, não pode seguir regendo o destino do planeta.

Devemos superar um modelo social, político, econômico e cultural onde mercado e o dinheiro se converteram nos reguladores das relações humanas em todos os níveis.

Nosso grito, o grito dos mais excluídos e marginalizados, obriga que os poderosos compreendam que não se pode seguir dessa forma. Os pobres do mundo se levantaram contra a exclusão social que sofrem cotidianamente. Não queremos explorar, nem sermos explorados. Não queremos excluir, nem sermos excluídos. Queremos construir um modo de vida no qual a dignidade se alce por cima de todas as coisas.

Por isso, nos comprometemos a:

1. Impulsionar e aprofundar o processo de mudança

Reafirmamos nosso compromisso com os processos de transformação e libertação como resultado da ação dos povos organizados, que a partir de suas memória coletiva tomam a história em suas mãos e decidem transformá-la, para dar vida às esperanças e às utopias que nos convocam a revolucionas as estruturas mais profundas de opressão, dominação, colonização e exploração.

2. Viver bem, em harmonia com a Mãe Terra

Seguiremos lutando para defender e proteger a Mãe Terra, promovendo a “ecologia integral” de que fala o papa Francisco. Somos fiéis a filosofia ancestral do “bem viver”, nova ordem de vida que propõe harmonia e equilíbrio nas relações entre os seres humanos e entre estes e a natureza.

A terra não nos pertence, nós pertencemos à terra. Devemos dela cuidar e trabalhá-la em benefício de todos. Queremos leis ambientais em todos os países em função do cuidado dos bens comuns.

Exigimos a reparação histórica e um marco jurídico que resguarde os direitos dos povos indígenas em nível nacional e internacional, promovendo um diálogo sincero a fim de superar os diversos e múltiplos conflitos que atravessam os povos indígenas, originários, camponeses e afrodescendentes.

3. Defender o trabalho digno

Nos comprometemos a lutar na defesa do trabalho como direito humano. Pela criação de fontes de trabalho digno, pelo desenho e implementação de políticas que restituam todos os direitos trabalhistas eliminados pelo capitalismo neoliberal, tais como os sistemas de seguridade social, a aposentadoria e o direito de sindicalização.

Rechaçamos a precarização, a terceirização e buscamos que se supere a informalidade através da inclusão, nunca com perseguição ou repressão.

Também levantamos a causa dos migrantes, deslocados e refugiados. Instamos aos governos dos países ricos a que derroguem todas normas que promovem tratamento discriminatório contra eles e que estabeleçam formas de regulação que eliminem o trabalho escravo, o tráfico de pessoas e a exploração infantil.

Impulsionaremos formas alternativas de economia, tanto em áreas urbanas como em zonas rurais. Queremos uma economia popular e social comunitária que resguarde a vida das comunidades e que prevaleça a solidariedade acima do lucro. Para isso é necessário que os governos fortaleçam os esforços que emergem das bases sociais.

4. Melhorar nossos bairros e construir moradias dignas

Denunciamos a especulação e a mercantilização dos terrenos e bens urbanos. Rechaçamos os despejos forçados, o êxodo e o crescimento dos bairros marginalizados. Rechaçamos qualquer tipo de perseguição judicial contra aqueles que lutam por uma casa para sua família, porque entendemos a moradia como um direito humano básico, o qual deve ter caráter universal.

Exigimos políticas públicas participativas que garantam o direito à moradia, a integração urbana de bairros marginalizados e o acesso integral ao habitat para edificar casas com segurança e dignidade.

5. Defender a Terra e a soberania alimentar

Promovemos a reforma agrária integral para distribuir a terra de maneira justa e equitativa. Chamamos a atenção dos povos para o surgimento de novas formas de acumulação e especulação da terra e do território como mercadorias, vinculadas ao agronegócio, que promove a monocultura destruindo a biodiversidade, consumindo e contaminando a água, deslocando populações camponesas e utilizando agrotóxicos que contaminam os alimentos.

Reafirmamos nossa luta pela eliminação definitiva da fome, pela defesa da soberania alimentar e pela produção de alimentos saudáveis. Também rechaçamos enfaticamente a propriedade privada de sementes por grandes grupos agroindustriais, assim como a introdução de produtos trangênicos substituindo aos nativos, pois destroem a reprodução da vida e da biodiversidade, criam dependência alimentar e causam efeitos irreversíveis sobre a saúde humano e o meio ambiente. Nesse sentido, reafirmamos a defesa dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas em relação à agricultura sustentável.

6. Construir a paz e a cultura do encontro

Nos comprometemos, a partir da vocação pacífica de nossos povos a intensificar as ações coletivas que garantam a paz entre todas as pessoas, povos, religiões, etnias e culturas.

Reafirmamos a pluralidade de nossas identidades culturais e tradicionais que devem conviver harmoniosamente sem que umas se sobreponhas a outras. Nos levantamos contra a discriminação de nossa luta, pois estão criminalizando nossos costumes.

Condenamos qualquer tipo de agressão militar e nos mobiliamos pelo cessar imediato de todas as guerras e ações desestabilizadoras ou golpes de Estado, que atentam contra a democracia e a vontade dos povos livres.

Rechaçamos o imperialismo e as novas formas de colonialismo, sejam militares, financeiras ou midiáticas. Nos pronunciamos contra a impunidade dos poderosos e a favor da liberdade dos lutadores sociais.

7. Combater a discriminação

Nos comprometemos a lutar contra qualquer forma de discriminação entre os seres humanos, seja por diferenças étnicas, cor de pele, gênero, origem, idade, religião ou orientação sexual. Todas e todos, mulheres e homem, devemos ter os mesmos direitos. Condenamos o machismo, qualquer forma de violência contra a mulher, em particular os feminicídios, e gritamos: Nenhuma a menos!

8. Promover a liberdade de expressão

Promovemos o desenvolvimento de meios de comunicação alternativos, populares e comunitários, frente ao avanço dos monopólios midiáticos que ocultam a verdade. O acesso à informação e a liberdade de expressão são direitos dos povos e fundamento de qualquer sociedade que se pretenda democrática, livre e soberana.

O protesto é também um forma legítima de expressão popular. É um direito e aqueles que o exercem não devem ser perseguidos.

9. Colocar a ciência e a tecnologia a serviço dos povos

Nos comprometemos a lutar para que a ciência e o conhecimento sejam utilizados a serviço do bem-estar dos povos. Ciência e conhecimento são conquistas de toda a humanidade e não podem estar a serviço do lucro, exploração, manipulação ou acumulação de riquezas por parte de alguns grupos. Persuadimos a que as universidades se encham de povo e seus conhecimentos sejam orientados a resolver os problemas estruturais mais que a gerar riquezas para as grandes corporações. Deve-se denunciar e controlar as multinacionais farmacêuticas que, por um lado, lucram com a expropriação de conhecimentos milenares dos povos originários e, por outro, especulam e geram lucros com a saúde de milhões de pessoas, colocando o negócio na frente da vida.

10. Rechaçamos o consumismo e defendemos a solidariedade como projeto de vida

Defendemos a solidariedade como projeto de vida pessoal e coletivo. Nos comprometemos a lutar contra o individualismo, a ambição, a inveja e a ganância que se aninham em nossas sociedade e muitas vezes em nós mesmos. Trabalharemos incansavelmente para erradicar o consumismo e a cultura do desperdício. Seguiremos trabalhando para construir pontes entre os povos, que nos permitam derrubar os muros da exclusão e da exploração!

Fonte: MST


Exército Boliviano conclui missão de paz da ONU no Haiti

Foto: Victoria Hazou UN/MINUSTAH

02/07/2015

Ximena Moretti

O Exército Boliviano finalizou sua participação na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) após nove anos. Durante a missão, mais de 3.000 militares bolivianos trabalharam sem descanso para devolver a segurança e a estabilidade política e prestar assistência humanitária aos habitantes do Haiti, em cooperação com outros 20 países.

Como parte do plano de redução do componente militar da MINUSTAH estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), o último contingente de tropas da Bolívia – formado por 205 soldados – voltou a La Paz em 15 de junho, “após concluir seu compromisso internacional”, diz o Coronel Rodolfo Javier Garvizu Díaz, diretor de Operações de Paz do Exército Boliviano. Os soldados chegaram ao Quartel-General de Miraflores, na capital boliviana, após finalizar suas atividades na MINUSTAH, em 26 de maio.

O contingente – o último dos 15 enviados ao Haiti ao longo de nove anos – incluiu 185 homens e 20 mulheres. Durante a missão da ONU, um total de 3.108 militares bolivianos, entre eles 174 mulheres, participaram da iniciativa de manutenção da paz em contingentes que se revezavam a cada seis meses.

“Estamos orgulhosos porque contribuímos com nossa presença, recursos humanos e meios para cumprir a missão criada pelas Nações Unidas para estabilizar o país”, disse o General de Brigada José Luis Begazo Ampuero, Comandante Geral do Exército da Bolívia, na cerimônia de encerramento, na Base de Tiwanaku, em Porto Príncipe.

“Queridos irmãos e irmãs, com vocês conhecemos a vida do quartel. Posso garantir que o Haiti não os esquecerá, porque temos vocês em nossos corações. Enquanto vão embora, eu garanto que podem voltar como convidados ou turistas, mas sempre como nossos irmãos e irmãs”, disse o ministro da Defesa do Haiti, Lener Renaud.

Gratidão dos outros países

Representantes de outros países destacaram a participação do contingente boliviano e expressaram sua gratidão.

“Ao longo de muitos anos de luta e sacrifício, os capacetes azuis conquistaram um lugar como símbolo de esperança para milhões de pessoas que vivem em lugares atingidos pela guerra”, disse o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, em sua mensagem pelo Dia Internacional dos Soldados da Paz da ONU.

Como parte da MINUSTAH, as tropas bolivianas ajudaram o Haiti a enfrentar uma série de desafios de segurança e humanitários. Por exemplo, a missão cumpriu um papel essencial após o terremoto de janeiro de 2010, que deixou mais de 200.000 mortos, incluindo 96 capacetes azuis.

Na ocasião, o contingente boliviano ofereceu assistência humanitária, auxiliando a população civil afetada pelo desastre natural. Também prestou ajuda aos membros da ONU no quartel-general em Porto Príncipe, “demonstrando responsabilidade, disciplina, profissionalismo e espírito de grupo”, afirma o Cel Garvizu.

Os soldados bolivianos também ajudaram a combater um surto de cólera em outubro de 2010, além de outras doenças endêmicas que afetaram grande parte da população haitiana.

“Durante a epidemia de cólera, o contingente boliviano prestou assistência de saúde à população infectada, através do estabelecimento de hospitais de campanha, da evacuação dos mortos e de ajuda com medidas preventivas nas instalações da MINUSTAH”, diz o Cel Garvizu. “Por sua disciplina e a capacidade operativa”, o contingente boliviano foi designado como a “Reserva da Força Multinacional da MINUSTAH”, responsável por reforçar, apoiar e relevar os setores de responsabilidade de outros contingentes durante sua permanência no Haiti.

Além disso, os militares bolivianos participaram de patrulhamentos de segurança e reconhecimento aéreo e terrestre, ajudaram a escoltar comboios e auxiliaram no controle de distúrbios civis; também organizaram uma força de reação imediata com capacidade operacional para fazer frente a qualquer incidente que pudesse afetar a segurança dentro de sua área de responsabilidade.

O Exército Boliviano contribuiu para a segurança e a ordem pública da população civil local como parte do esforço feito pelos 21 países que formam a MINUSTAH.

Exército Boliviano participou de outras missões internacionais

O Haiti não é o único país onde militares bolivianos participaram de missões internacionais. Antes, os soldados bolivianos já haviam integrado missões de paz em Angola, na Costa do Marfim e no Congo.

Para o Exército Boliviano, participar dessas missões representa “um sentimento de fraternidade por ter contribuído com a pacificação de um país irmão. No aspecto militar, isso contribuiu para que o pessoal mobilizado na missão adquirisse maior experiência em missões de paz”, diz o Cel Garvizu. “A solidariedade com nossos vizinhos foi sem dúvida um aspecto que teve um efeito positivo em todos os membros dos distintos contingentes.”

A participação e os valores das Forças Armadas Latino-Americanas na MINUSTAH foram essenciais ao restabelecimento da paz, assim como ao respeito pelos direitos humanos, diz o Coronel (r) do Exército do Chile Carlos Ojeda.

“Estamos certos de que, pela conduta, o êxito, o trabalho abnegado e a utilidade demonstrados, o Exército [da Bolívia] será novamente convocado a cumprir esse compromisso que mantemos com a ONU desde 1997”, disse o ministro da Defesa da Bolívia Reymi Ferreira, de acordo com o site boliviano La Patria en Línea .

Participar de missões de manutenção da paz no exterior ajuda as Forças Armadas a propiciar segurança pública em casa.

“A segurança é um tema transversal em toda atividade militar para acabar com as diversas ameaças atuais e emergentes que podem afetar o desenvolvimento normal de atividades em nosso território”, diz o Cel Garvizu. “Participar da proteção do ambiente é outro desafio que o Exército Boliviano prioriza, além de várias tarefas que realizamos para beneficiar a população da Bolívia.”

Fonte: DefesaNet


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