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Colômbia: necessidades humanitárias aumentam após último surto de violência

Foto: MSF
10/07/2015

Muitas comunidades estão encurraladas com medo de novos confrontos

Deslocamentos, restrições acerca da mobilidade e falta de acesso a bens e serviços básicos, como cuidados de saúde: essas são as principais consequências da escalada do conflito em vários municípios nos departamentos de Nariño, Cauca e Vale Cauca, no sudoeste da Colômbia, que causou uma crise humanitária entre a população. 

“O impacto na saúde mental dessas pessoas é enorme. O medo de novos confrontos e a falta de abrigo adequado está impedindo que algumas populações deixem seus municípios”, diz Pierre Garrigou, coordenador-geral da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Colômbia. “O confronto também levou a deslocamentos massivos em alguns lugares”, adiciona.

O incidente do dia 16 de abril, que matou 11 soldados, levou à retomada de bombardeios liderados pelas Forças Armadas. Em meio a um desses ataques, 26 guerrilheiros foram mortos. Após esse episódio, no dia 22 de maio, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) anunciaram um fim ao cessar-fogo unilateral, causando uma intensificação do conflito entre os dois lados, com confrontos, perseguições, bombardeios e dispositivos explosivos plantados em áreas povoadas.

Em maio e junho, um total de 525 incidentes violentos foram registrados em partes do país, 75% ocorreram em departamentos do sudoeste, de acordo com dados do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Resposta de MSF

Equipes de MSF que já trabalhavam na região estão respondendo ao aumento das necessidades humanitárias das populações nesses três departamentos desde o incidente em que 11 soldados morreram. Cerca de 1.800 pessoas participaram de atividades de saúde mental, incluindo grupos de atenção individual e em grupo, atividades psicossociais e treinamento em primeiros socorros psicológicos.

No município de Lopez de Micay, onde deslocados chegaram, as equipes também distribuíram kits de higiene e de cozinha, na medida em que as condições de vida nos abrigos são muito precárias.

Uma paciente com sintomas de estresse agudo atendida por MSF no auditório da escola Micay de Lopez – no litoral de Cauca Pacífico, onde há 865 novas pessoas deslocadas – chegou com seus quatro filhos: “Quando o bombardeio começou, eu caí no chão. Eu os escutei correndo ao redor do jardim. As crianças começaram a chorar, tudo parecia muito estar muito perto. Quando eles começaram a atirar, as crianças estavam chorando e me perguntaram, ‘mamãe, mamãe, nós vamos morrer?’ E eu falei a elas que ficassem quietas, e nós ficamos no chão até que tudo se acabasse. Eu não quero lembrar daquele horror, mas, todos os dias, as memórias voltam, eles fecham a porta e lá estou eu, sofrendo. Onde estamos agora, somos apenas um amontoado de gente. Eu me pergunto por quanto tempo ficaremos aqui, dormindo no chão.”

Equipe de emergência

“As necessidades humanitárias na região continuam aumentando, e uma equipe móvel de resposta de emergência já está em campo para reforçar a atuação das nossas equipes regulares na área”, explica Pierre Garrigou.

A equipe, composta por um psicólogo, um médico e um logístico, está, atualmente, atuando na área rural de Tumaco, avaliando as necessidades após o ataque do dia 22 de junho no gasoduto transandino, que afetou 301 comunidades na área do Rio Mira. Além disso, no centro urbano, onde, no último mês, houve 41 eventos violentos, 150 mil habitantes foram deixados sem abastecimento de água.

MSF atua na Colômbia desde 1985, nas regiões de Cauca e de Nariño. Em Cauca, equipes de MSF oferecem terapia individual e em grupo em hospitais e bairros. As equipes treinam líderes comunitários, promotores de saúde, parteiras e professores para oferecerem primeiros socorros psicológicos quando um incidente violento ocorrer.



Colômbia: ferimentos invisíveis

Foto: Anna Surinyach/MSF

18/06/2015

A psicóloga Juliana Puerta fala sobre o programa de saúde mental de MSF em Cauca

Rafael está na casa dos 40 anos, um homem com um espírito inquieto e disciplinado, que passou pelo conflito que, como ele diz, “felizmente, nunca me tocou”. Ele se refere ao fato de que o conflito não o deixou com nenhum “ferimento visível”, como ele os chama, embora tenha visto hostilidades armadas e combates em primeira mão, e enterrado amigos por causa da violência. “Civis inocentes”, diz ele.

Rafael vive em sua terra com sua esposa, cinco filhos e neto, em um vilarejo na região de Alto Río Guapi, território composto por 10 vilarejos habitados por 638 famílias. Ali, em 21 de maio, as forças militares da Colômbia iniciaram uma ofensiva militar contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs). “Os aviões, helicópteros, bombas e explosões eram coisas que pessoas daqui não conheciam. Houve muito nervosismo, pessoas que não conseguiram lidar com a situação. As crianças estavam chorando muito e não sentiam vontade de comer. Minha filha foi uma das pessoas que foi muito afetada. Eu falei a eles que, enquanto eles estivessem conosco (pai e mãe), nada iria acontecer.”

Na manhã do terceiro dia de confronto, todos os habitantes do vilarejo onde Rafael mora (cerca de 160 pessoas) decidiram ir embora. “Ninguém ficou. A única coisa que você poderia levar consigo eram roupas. No passado, nós tivemos motivos para ir embora por causa da violência, mas resistimos; desta vez, foi muito mais forte, então, fomos embora.”

Naquele dia, as pessoas de outros vilarejos próximos também começaram a deixar suas casas, juntando-se às 110 famílias (468 pessoas) que chegaram em canoas à área urbana do município de Guapi, buscando ajuda humanitária e casas de parentes que poderiam acolhê-los. “Os subsídios não são suficientes, nós não temos potes, fogão ou baldes para recolher água. O alimento que é distribuído não é suficiente para famílias grandes”, conta ele, na medida em que seus olhos começam a lacrimejar.

“Agora, a comunidade está se sentindo melhor, nós somos muito unidos e trabalhamos todos juntos para garantir que a ajuda seja compartilhada. Aqueles que só estão chegando agora, que vieram de outros vilarejos, que, por vários motivos, não tinham tido condições de deixar antes, não estão bem. Eu falei a eles para visitarem MSF para que possam receber apoio emocional, para que, assim, não fiquem mais presos a seus maus pensamentos e possam enxergar coisas boas também.”

“Estamos ainda mais preocupados com aqueles que ainda estão aqui, que não têm condições de sair de onde estão, com medo e com fome, porque não conseguem ganhar a vida.” Dada a situação na região, as atividades produtivas como caça, pesca, agricultura e mineração artesanal foram suspensas.

Rafael curou seis pessoas que sofriam de espanto, palavra que, em espanhol, significa susto, usada para designar de forma tradicional as reações pós-traumáticas agudas, por meio de medicina tradicional de origem africana, e ele continuará curando “todos aqueles que precisam, porque eu aprendi isso para ajudar a todos”.

Desde sua chegada na área urbana de Guapi, uma equipe de psicólogos da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem trabalhado em coordenação com agências do Estado e outras ONGs ali presentes para responder às necessidades psicológicas das populações. A equipe ofereceu treinamento para a identificação de sinais de alerta sobre a saúde mental e de primeiros socorros psicológicos para 24 pessoas que estão realizando atividades psicossociais e de cuidados de saúde primária voltadas para as pessoas afetadas. Os profissionais também conduziram atividades psicoeducativas em grupo com 140 pessoas das comunidades afetadas – a maioria delas já participou de várias sessões – , a fim de normalizar as reações, identificar as pessoas que precisam de cuidados clínicos individuais, em família ou em grupo, e reavivar e fortalecer mecanismos de enfrentamento individuais, em família ou comunitários, que lhes permitem lidar com a situação.

Em consultas clínicas, a equipe tratou 23 crianças e 31 adultos que apresentaram reações esperadas nesses casos: 55% tiveram sintomas pós-traumáticos, 43% outros sintomas de ansiedade e 2% sintomas relacionados à depressão.

Embora essas reações a eventos violentos sejam normais, é essencial que a importância da oferta de cuidados psicológicos precoces a essas pessoas seja reconhecida, a fim de aliviar prontamente a dor emocional e prevenir o desenvolvimento de desordens como o estresse pós-traumático, condição que causa grande sofrimento e, por vezes, torna-se crônica.

O projeto de MSF na Colômbia está trabalhando ativamente para assegurar que o serviço de cuidados psicológicos seja uma prioridade para as autoridades de saúde, especialmente nas regiões onde acontecem os conflitos armados.

Fonte: MSF


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