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Shakira doa US$ 15 milhões para o Haiti depois do furacão Matthew



09/10/2016

Muitas celebridades se solidarizaram com o desastre natural que ocorreu num dos países do Caribe, que atingiu severamente o Haiti, mas poucos arregaçaram as mangas e ajudaram de forma financeira, doando valores para reconstrução do pais, que atualmente, conta com umas das economias mais miseráveis do mundo.

A colombiana Shakira realizou uma doação de US$ 15 milhões de dólares para ajudar na reconstrução da Ilha, através da Fundação ALAS, que supervisionará a reconstrução.

O furacão Matthew apareceu na terça-feira cruzando a costa sudoeste do Haiti a quase de 230 quilômetros por hora, provocando chuvas torrenciais e inundações que causaram a morte de pelo menos novecentas pessoas e importantes danos materiais no país mais pobre do hemisfério ocidental.



Atingido por furacão Matthew, Haiti busca ajuda

Furacão arrasou o sul do Haiti (Foto: Nicolas Garcia / AFP / CP)

09/10/2016

A magnitude da devastação que deixou o furacão Matthew no Haiti ficou nítida neste sábado, três dias após a passagem do fenômeno que arrasou o sul do país e deixou centenas de mortos. Enquanto o Matthew ameaçava o litoral dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama pediu aos americanos que fizessem doações ao Haiti, onde milhões de pessoas precisam de assistência depois desse último desastre atingir o país mais pobre das Américas.

A passagem do furacão levou ao adiamento das demoradas eleições presidenciais e legislativas previstas para este domingo. Embora Porto Príncipe, capital e principal cidade haitiana, quase não tenha sofrido danos, o sul do país ficou devastado. Imagens aéreas da zona atingida pelo furacão mostram uma paisagem em ruínas, com moradias arrasadas e sem teto, árvores caídas e o solo coberto pelo lodo dos rios inundados.

Herve Fourcand, senador do departamento Sul, disse que vários povoados permanecem ilhadas por inundações e deslizamentos de terra. Jeremie, um município de 30.000 habitantes que ficou inacessível desde a sexta-feira, recebia os visitantes com cenas de desolação, sem energia elétrica pela destruição dos cabos e com as as comunicações interrompidas. Praticamente todas as casas de alumínio foram destruídas e apenas poucas construções de concreto ficaram de pé.

"É como se alguém tivesse um controle remoto e só apertasse o botão do vento para aumentar mais e mais", disse Carmine Luc, uma mulher de 22 anos. "Quando o teto da minha casa voou, me segurei na parede com a mão esquerda e com a direita agarrei com todas as minhas forças o meu filho de três anos, que gritava", contou. Um barco com nove contêineres de comida e medicamentos foi enviado a Dame Marie, no departamento de Grand'Anse, no oeste. "Provavelmente foi o departamento mais duramente atingiu e as condições não permitem o pouso de helicópteros", disse à AFP o ministro do Interior, Francois Anick Joseph. "Fazemos o melhor que podemos para ajudar os afetados", afirmou.

Comboios de ajuda foram enviados por terra, ar e mar a outras zonas atingidas de Grand'Anse, incluindo helicópteros militares que transportaram 50 toneladas de água, comida e medicamentos.

Não ficou nada

Mais ao sul, Les Cayes, o terceiro povoado do Haiti, ficou muito danificado. Em Sous-Roches, um tranquilo bairro em frente à praia, se transformou em um caos de lodo e árvores destruídas. O nível do rio começou a baixar, mas a água ficou revolta pelas inundações do mar. "Pensei que iria morrer. Vi a cara da morte", disse Yolette Cazenor, mulher de 36 anos, parada em frente a uma casa partida em duas por um coqueiro que caiu sobre ela.

Durante 10 horas, as fortes rajadas do Matthew e uma chuva forte arrasaram também os cultivos nos campos da comunidade, o que sugere meses ainda mais difíceis para o país. Mais de 80% dos cultivos se perderam em algumas áreas, de acordo com o escritório de Assuntos Humanitários das Nações Unidas. Cerca de um milhão de pessoas precisam de ajuda urgente, disse a organização humanitária CARE France: "As pessoas não têm nada exceto a roupa que vestem".

As promessas de ajuda se multiplicaram enquanto os Estados Unidos anunciaram o envio de um buque com 300 efetivos especializados em emergências médicas, assistência e reconstrução, além de três helicópteros, que se somarão a a mais 250 homens e nove outros helicópteros já prontos para serem deslocados para o Haiti. O grupo de ajuda humanitária International Relief Teams, com sede na Califórnia, disse ter doado 7 milhões de dólares em materiais médicos, junto com as organizações internacionais MAP International e Hope for Haiti.

A França, por sua vez, anunciou o envio de 32 toneladas de ajuda humanitária e equipe para purificação de água. A Venezuela, que sofre uma grave crise econômica e desabastecimento, enviou três cargas de ajuda e alimentos. Mais um desastre natural devasta o Haiti, que em janeiro de 2010 foi devastado por um terremoto que destruiu grande parte da capital e deixou mais de 250.000 mortos.



Papa pede solidariedade mundial ao Haiti após furacão

Foto: EFE

09/10/2016

O Papa Francisco expressou neste domingo (9) "confiança no sentido de solidariedade" das comunidades internacional e católicas para ajudar a população do Haiti, devastada pela passagem do furacão Matthew.

"Conheci com dor as graves consequências provocadas pelo furacão que nos últimos dias afetou o Caribe, principalmente o Haiti, deixando várias vítimas e deslocados, além de danos materiais", disse após a reza do Ângelus dominical.

O pontífice enviou condolências às pessoas desabrigadas e convidou o mundo a se "unir à oração por estes irmãos e irmãs, tão duramente afetados".

O furacão Matthew arrasou o Haiti, onde segundo a apuração provisória morreram 336 pessoas, apesar de diversas autoridades indicarem que o número de mortos já passa de 870. Além disso, foram registrados 211 feridos e 61.537 pessoas permanecem deslocadas.

Após a passagem pelo Caribe, o furacão Matthew voltou a tocar a terra nos Estados Unidos, no estado da Carolina do Sul.

Fonte: Terra


Defesa organiza doações para o Haiti

27/08/2016

O Ministério da Defesa, em parceria com a Cruz Vermelha Brasileira, realiza a 2° Campanha de Solidariedade ao Haiti, que tem por objetivo arrecadar alimentos e roupas, entre outros itens, para doação a crianças haitianas. A campanha, que é coordenada pelo Institution Sacré Coeur Jésus do Haiti e pelo Ordinariado Militar do Brasil, teve início no dia 15 de junho e vai até 30 de setembro. Já foram arrecadados mais de 20 toneladas de alimentos não perecíveis, roupas e material de limpeza.

A campanha irá beneficiar crianças e suas famílias, totalizando cerca de mil pessoas.

A campanha irá beneficiar meninos e meninas, com idade entre 3 e 10 anos, e suas famílias, totalizando cerca de mil pessoas. Muitas destas crianças perderam seus pais no terremoto ocorrido em janeiro de 2010, e foram acolhidas por parentes ou vivem em orfanatos.

Freiras do Institution Sacré Coeur Jésus do Haiti com as doações recebidas.

A expectativa é recolher entre 60 e 70 toneladas até o final da campanha, que está organizada em 12 cidades: Brasília, São Paulo, Bauru (SP), Marília (SP), Adamantina (SP), Ribeirão Preto (SP), Anápolis (GO), Goiânia, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Florianópolis.

Preparativos

Para tratar dos procedimentos técnicos e o envio dos itens arrecadados, um grupo de trabalho reuniu-se na última terça-feira (23), na Cúria Militar do Ministério da Defesa. Na reunião, coordenada pelo arcebispo militar do Brasil, Dom Fernando Guimarães e pelo assessor especial do Gabinete do Ministro, Demétrio Carneiro da Cunha Oliveira, foram definidas a logística de transporte nos pontos de coletas espalhados pelas cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, por exemplo, os itens serão estocados no 1º Depósito de Suprimento do Exército (1ºDSup), e posteriormente, passarão por desembaraçados alfandegários, colocados em container para só então o embarque em navio.

O transporte dentro do território nacional conta com o apoio de empresas e do Exército. Brasileiro. No trecho Rio de Janeiro-Porto Príncipe, o transporte será custeado pela Cruz Vermelha. A data de entrega das doações na capital haitiana está prevista para o dia 10 de dezembro.

O arcebispo militar do Brasil, Dom Fernando Guimarães reuniu-se com o grupo de trabalho, no ministério da Defesa, para tratar dos procedimentos técnicos e o envio dos itens arrecadados.

O arcebispo militar do Brasil, Dom Fernando Guimarães reuniu-se com o grupo de 
trabalho, no ministério da Defesa, para tratar dos procedimentos técnicos e o envio 
dos itens arrecadados.

Participaram ainda da reunião, o conselheiro nacional da Cruz Vermelha Brasileira (CVB), Fernando Antunes, o coordenador de Diplomacia Humanitária da CVB, André Camargo, a coordenadora da Campanha Nacional, Tânia Maria Borges e o ecônomo do Ordinariado Militar, coronel Gregoratto.

O que doar

Alimentos não perecíveis (leite em pó, arroz, açúcar, café, feijão, óleo, farinhas em geral, enlatados e macarrão), material de limpeza e escolar (exceto livros e cadernos), roupas, calçados, enxoval para bebê e tecidos.

Doações em Brasília (DF)

Local: Colégio Cor Jesu (Sagrado Coração de Jesus)
Endereço: Avenida L2 sul - Quadra 615 - Bloco G.

*Entrega na recepção da escola, de segunda a sexta-feira, das 7h às 17 horas, e aos sábados, das 8h às 12 horas

(*) Favor informar que as doações são para a Campanha de Solidariedade às crianças do Haiti.
Mais informações com Tânia (61) 99213-1031 ou Sandra (61) 99214-5321.

Por Ten Fayga Soares



Patricia Arquette fala de seu projeto para levar saneamento básico ao Haiti

Foto: Getty Images

10/04/2016

Tão implacável na filantropia quanto em seus papéis no cinema e na TV, Patricia Arquette é cofundadora da GiveLove, que desenvolve projetos de saneamento básico no Haiti.

Quando ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação em Boyhood (2014), em fevereiro de 2015, Patricia Arquette fez um discurso de agradecimento que viralizou, especialmente por seu pedido por salários e direitos iguais para homens e mulheres nos Estados Unidos. A fala, no entanto, tocou também em outro tema importante e igualmente incomum para o palco da premiação: saneamento básico. Essa é a causa abraçada pela atriz.

Em 2010, após o terremoto que devastou o Haiti, Patricia fundou no país a ONG GiveLove, em parceria com a estilista e amiga de longa data Rosetta Getty, focada em projetos de saneamento local. A intenção é evitar a proliferação de doenças causadas por esgoto a céu aberto e água sem tratamento, como a cólera. "Elas matam mais crianças no mundo do que aids, malária e tuberculose juntas", diz.

Por que o saneamento básico? Não é necessariamente uma causa pela qual as pessoas se mobilizam por conscientização.

Realmente não é, e isso é frustrante. Mas há comunidades que não têm sequer acesso à água tratada e não podemos simplesmente ignorar isso. Saneamento básico é absolutamente crucial. Além de contrair cólera, muitas crianças do Haiti também pegam parasitas por causa do esgoto despejado na água que elas consomem. Isso contribui para uma má nutrição, já que dificulta a absorção dos nutrientes da pouca comida que comem.

Você viaja muito ao Haiti?

Eu fui para lá umas 14 vezes desde 2010. Mas, nesse momento, não é interessante para a organização que eu esteja sempre por perto. Isso atrairia uma atenção desnecessária, além de envolver um risco de segurança para a equipe que trabalha lá. Às vezes, quando você tem um ótimo time, quanto menos você ficar presente, melhor.

Ser mãe de dois filhos afeta a maneira como você vê a situação no Haiti?

Eu desejo para as crianças haitianas uma vida melhor, assim como desejo para os meus próprios filhos. Não damos valor suficiente ao fato de que sabemos que podemos ir ao banheiro e lavar as mãos sem que fiquemos doentes. E essa não é a realidade na maior parte do mundo. Sempre tento explicar à minha filha Harlow como vivem outras crianças. Ela tem muito orgulho de mim, mesmo que não diga. Um dia, quando estava organizando seu material escolar, encontrei um trabalho no qual ela escreveu: "Quando eu crescer, quero ajudar pessoas, assim como a minha mãe faz".

EM NÚMEROS:

- Custa 25 dólares construir um banheiro em uma casa haitiana.
- 86% da população urbana nos Estados Unidos tem tratamento de esgoto.
- 2% da população urbana do Haiti mora em locais com saneamento básico.
- 1 morte por cólera registrada nos EUA desde 2010.
- 8.813 mortes por cólera no Haiti desde 2010.

Como ajudar?

Acesse os links e conheça melhor o trabalho da ONG:


Facebook/GiveLoveOrg

Brasil e Haiti, um mundo de histórias


24/04/2013

Explodir pedras, perfurar rochas, construtores. Varrer ruas, limpar praias brasileiras, garis. Depenar galinhas, subir caixotes. Por que não vender bijuterias, artesanato? Esses são os destinos de professores, técnicos de enfermagem, mecânicos, contadores, pedagogos haitianos, senegaleses, dominicanos quando encontram o solo brasileiro. 

Pessoas qualificadas e com um sonho de reerguer suas vidas com o trabalho. Muito trabalho para reconstruir o que nem mesmo terremotos ou crises econômicas e sociais podem fazer ruir: sua dignidade.

O destino desses sonhadores é um Brasil que parece aquecer cada vez mais sua economia, abrindo postos de trabalhos diversificados, muito bem anunciados entre os viajantes que aportam em Brasileia, Acre, que tem funcionado como porta de entrada para o país. Porta por onde já  passaram mais de seis mil imigrantes.

O governo do Estado oferece três refeições por dia aos imigrantes. Desde 2010 já foram gastos R$ 3 milhões
 (Foto: Angela Peres/Secom)
Desses tantos, alguns fazem questão de contar suas histórias. Correm, amotoam-se e desandam a falar, na língua que mais for compreensível - crioulo, francês, espanhol, inglês, wolof -, o importante é tentar fazer os outros entenderem cada passo de suas viagens, de seus diplomas, da vontade de encontrar um bom trabalho.

Paramos e ouvimos um rapaz de fala mansa, bem vestido, roupa quase passada a ferro. Croinchy Zache, 32, haitiano, nascido em Jaemel, pergunta em um inglês fluente: “Você sabe onde posso conseguir bons livros de português?”. 

Seu sonho é trabalhar dando aulas ou como tradutor no Brasil. Estudou inglês na República Dominicana e, com o diploma na mão, diz: “No Haiti não é fácil arrumar um bom trabalho, mesmo que você tenha graduação”. Ele aponta para mais dois amigos - um contador e outro turismólogo -, todos com o diploma à mostra. E sentencia: “Estou aqui para mudar de vida”.

Croinchy Zache exibe com orgulho diploma de inglês avançado conquistado na República Dominicana 
(Foto: Arison Jardim/Secom)
Em meio à confusão de braços e bocas na espera de uma marmita para o jantar, Chisnel Laventures pensa no passado recente de seu país e em um futuro próximo para si. Ele tira fotos dos companheiros de abrigo famintos e comenta: “Quero um dia lembrar dessas dificuldades”. Com um olhar esperançoso, continua: “Quando estivermos de volta com a dignidade que tínhamos”. 

Órfãos da pátria haitiana 

Laventures é haitiano, como a maioria dos seis mil imigrantes que passaram pelo Acre. Um país destruído por um terremoto em janeiro de 2010, mas historicamente ainda mais abalado por sua economia e desigualdade social.

Haiti convive há anos com a fuga de sua população (Foto: Angela Peres/Secom)
Apesar do seu protagonismo como a primeira colônia a se tornar independente das metrópoles europeias, em 1804, o Haiti é hoje o país mais pobre da América Latina. Antes mesmo do desastre de 2010, a situação era crítica - 80% da população vivia abaixo da linha da pobreza.

Somado à miséria extrema, a questão política esteve sempre instável entre 1820 e 1996, razão pela qual o país tem sofrido grandes impactos regionais devido a processos migratórios. Conflitos internos deslocaram mais de 300 mil pessoas para fora de suas cidades. 

Entre 1991 e 1994 os Estados Unidos foram foco de uma onda migratória que movimentou 68 mil pessoas. Deixaram o Haiti e com apenas um dia de barco chegavam ao mais poderoso país do mundo. Outros 30 mil foram para a República Dominicana.

Brasil, nova realidade e oportunidades

O casal Vilsaint se reencontrou em Brasileia após um ano de saudade. As filhas serão as próximas a vir 
(Foto: Angela Peres/Secom)
O amor e a alegria. A esposa e duas filhas ficaram para trás há  um ano para Vilsaint Letesse. Ficaram em um Haiti sem perspectivas, sem emprego, numa miséria que aumentou quando a terra tremeu em janeiro de 2010. Foram 7 graus de magnitude na escala Richter de impacto e outras 14 réplicas de magnitude 5. Quase 300 mil mortos.

Nesse cenário, Letesse resolveu procurar uma solução para a família. Juntou o dinheiro que tinha, reuniu parentes e conseguiu ao todo 3 mil dólares. Era a chance para embarcar em uma rota que se consolidava. Passou pela República Dominicana, Panamá, Peru e chegou até o Brasil por Brasileia em 4 de janeiro de 2012.

Não demorou muito e o pedagogo, que sonhava um dia estudar filosofia e bioquímica, foi contratado para explodir pedras. “Eu perfuro, coloco a dinamite, e buuuum!”, ilustra. Ele está há um ano e alguns meses trabalhando na usina hidroelétrica de Santo Antônio, em Rondônia.

Mas o que fazia o caribenho empregado em Brasileia? Ele estava ali para buscar parte de sua felicidade - sua esposa acabara de chegar ao Brasil. Lá estava sorridente Vilsaint Mirlene Charls. Letesse fez logo questão de levá-la ao seu hotel, que pôde pagar tranquilamente, graças ao salário mensal de um emprego estável. Ele já está com um contrato de mais um ano com a construtora.

A meta agora é arrumar a nova casa, alugada especialmente para a chegada de sua esposa, e trazer as duas filhas, de 9 e 6 anos. “Elas estão com as duas avós, mas devem estar chorando”, diz o pedagogo que detona rochas. “Mirlene chorava de saudade todos os dias.” A esposa confirma com um sorriso tímido.

O casal segue esperançoso que o novo país lhes garanta uma nova chance de viver, de crescer e de criar suas crianças. Ao menos podem em junho deste ano comemorar os 10 anos de casados. “A festa vai ser simples, mas estaremos juntos”, diz Mirlene, feliz da vida.

O abrigo

O governo do Estado decretou este mês Situação de Emergência Social para alertar o governo federal
(Foto: Angela Peres/Secom)
O espaço, cedido pelo governo do Estado, tem capacidade para 200 pessoas, mas nas últimas semanas está abrigando 1.300. Um mundo de línguas e histórias, "bonjour" nas primeiras horas do dia, "buenas tardes" à medida que o calor aumenta, "merci" sempre, "gracias" ainda mais... O que poderia se tornar um caos e revolta ainda maior transparece polidez e alguns sorrisos.

Manhã cedinho e pé no chão, lá se vão lavar a roupa da semana, escovar os dentes, despertar para mais um dia de luta. Em meio ao charco que rodeia o abrigo, o risco para transmissão de doenças. Há aqueles que trabalham para deixar o ambiente um bocadinho mais limpo.

Trissaint Ezechiel segue sempre sorridente, mesmo limpando a sujeira feita pelos colegas
(Foto: Arison Jardim/Secom)
Direto de L’Estère, Hait, Trissaint Ezechiel varre com simpatia a sujeira de seus companheiros. Simpatia em pessoa, Ezechiel informava sobre seus passos: lá ia ele tentar o café da manhã - pão e café com leite -, fornecido pelo governo do Estado.

Mesmo que as condições não sejam as melhores, o sorriso era recorrente. O lugar transparece esperança, como se aquela lama, colchões no chão, mil corpos dividindo o mesmo ar poeirento fossem o último estágio de sofrimento antes de uma nova vida.

O abrigo também é lugar de ouvir histórias. René Guerson, 31, já conhecia o Brasil, ainda mais a zona rural. Em 2010 ele foi um dos jovens haitianos escolhidos pelo Movimento Sem-Terra para conhecer a cultura camponesa.

São 1.300 histórias de uma nova vida, e o Acre virou uma porta de entrada para elas
(Foto: Angela Peres/Secom)
No Brasil, Guerson teve oportunidades de vivenciar o campo em diversos Estados, como São Paulo, Espírito Santo e Sergipe. Por meses pôde estudar no Instituto Federal  do Sergipe. Agricultura agora é sua especialidade, coisa que vem de família, já que o pai e a mãe eram agricultores.

Passado um ano de experiência, voltou ao seu país, mas, insatisfeito com as oportunidades, juntou dinheiro trabalhando com o que aprendera e se mandou para o Brasil novamente, agora pela rota ilegal. O Brasil passou a conceder 1.200 vistos legais por ano para os haitianos, porém, a demanda cresce a cada dia, e a maioria prefere passar 15 dias viajando para tentar a sorte na fronteira Peru-Brasil.

Outras nacionalidades estão utilizando a rota da imigração ilegal que passa pelo Acre. Os senegaleses já são 71
(Foto: Arison Jardim/Secom)
Grupos vindos de outros países têm se formado - senegaleses, dominicanos e um rapaz de Bangladesh. Logo pela manhã, um grupo se reúne para ler o Corão, livro sagrado dos islamismo. São do Senegal, e um deles afirma: “Nós, senegaleses, não temos problemas, só queremos trabalhar, tudo é trabalho”.

Eheilham Arimar-Thiam, 34, é como se fosse um líder no grupo. Fala português e está sempre à frente na conversa. O motivo da vinda de todos é só um: “Nosso país é muito pobre, não tem guerra, mas também não tem emprego”. Passou sete meses estudando o português, viajou vários países trabalhando e agora pretende chegar a São Paulo para encontrar o irmão.

As mulheres

Liceron Marie procura por emprego em sua área; quer trabalhar como enfermeira 
(Foto: Angela Peres/Secom)


“Sou enfermeira e quero trabalhar com o que eu sei. As empresas só contratam homens”, suplica Liceron Marie, 26, vinda de Delmas, Haiti. Uma realidade ainda mais dura para as mulheres, pois a maioria das empresas que recrutam os imigrantes é de construção civil.

Um estudo que envolve profissionais do Brasil, Equador, Peru, Bolívia e Haiti, realizado por organismos nacionais e internacionais já está sendo feito. No caso do Brasil, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), ligada às Nações Unidas, vai fazer parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego.

O coordenador no Brasil é o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais Duval Fernandes. O mercado de trabalho feminino já está entre os temas. “Elas não vão para a construção civil [maior contratante]. A possibilidade é conseguir trabalho em profissões como empregadas domésticas ou áreas de serviços”, diz o professor.

Apesar da dura viagem e das condições impróprias no abrigo, crianças também chegam ao Brasil pela rota ilegal
(Foto: Angela Peres/Secom)
Outro ponto importante é a expectativa dos que chegam aqui. Muitos se submetem aos "coiotes" (espécie de atravessadores humanos), com a promessa de ganhar um salário de até R$ 10 mil. Mas a realidade encontrada é outra. A enfermeira Liceron está há um mês em Brasileia e soube de oportunidades a partir de um primo, que conseguiu chegar até São Paulo.

Uma das mulheres é contadora e mostra seu cartão comprovando a formação. Helas Rose-Mythe está há mais de um mês tentando ter acesso a sua documentação para permanecer legalmente no país e tentar a sorte. Ela, como os tantos e tantos seres humanos, dignos de uma boa vida, tentam o mínimo no Brasil.



Haiti: teste para a Humanidade

20/06/2011

Coluna Leonardo Boff

O desastre que se abateu sobre o Haiti, arrasando Porto Príncipe e matando milhares de pessoas e privando o povo das estruturas mínimas para a sobrevivência, representa um teste para a humanidade. Segundo os prognósticos dos que acompanham sistematicamente o estado da Terra, não demorará muito e seremos confrontados com vários Haitis, com milhões e milhões de refugiados climáticos, provocados por eventos extremos que poderão ocasionar uma verdadeira devastação ecológica e dizimar incontáveis vidas humanas. O Haiti pode ser um sinal do anjo exterminador que passa, sinistro, ceifando vidas.

É neste contexto que duas virtudes, ligadas à essência do humano deverão ganhar especial relevância: a hospitalidade e a solidariedade.

A hospitalidade, já o viu o filósofo Kant, é um direito e um dever de todos, pois todos somos habitantes, melhor, filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade. Estarão as nações dispostas a atender a este direito básico àquelas multidões que já não poderão viver em suas regiões superaquecidas, sem água e sem colheitas? O instinto de sobrevivência não respeita os limites dos estados-nações. Os bárbaros de outrora derrubaram impérios e os novos "bárbaros"de hoje não farão outra coisa, caso não sejam exterminados pelos ecofacistas que usurparam a Terra para si. Paro por aqui porque os cenários prováveis e não impossíveis são dantescos.

A segunda virtude é a solidariedade. Ela é inerente à essência social do ser humano. Já os clássicos do estudo da solidariedade como Renouvier, Durkheim, Bourgeois e Sorel enfatizaram o fato de que uma sociedade não existe sem a solidariedade de uns para com os outros. Ela supõe uma consciência coletiva e o sentimento de pertença entre todos. Todos aceitam naturalmente viver juntos para juntos realizarem a política que é a busca comum do bem comum.

Devemos submeter à crítica o conceito da modernidade que parte da absoluta autonomia do sujeito na solidão de sua liberdade. Diz-se: cada um deve fazer o seu sem precisar dos outros. Para os seres humanos assim solitários poderem viver juntos precisam, de fato, de um contrato social, excogitado por Rousseau, Locke e Kant. Mas esse individualismo é ilusório e falso. Há que se reconhecer o fato real e irrenunciável de que o ser humano é sempre um ser de relação, um-ser-com-os-outros, sempre enredado numa trama de conexões de toda ordem. Nunca está só. O contrato social não funda a sociedade mas apenas a ordena juridicamente.

Ademais, a solidariedade possui um transfundo cosmológico. Todos os seres, desde os topquarks e especialmente os organismos vivos são seres de relação e ninguém vive fora da rede de inter-retro-conexões. Por isso, todos os seres são reciprocamente solidários. Um ajuda o outro a sobreviver - é o sentido da biodiversidade - e não necessariamente são vítimas da seleção natural. Ao nivel humano, ao invés da seleção natural, por causa da solidariedade, interpomos o cuidado, especialmente para com mais vulneráveis. Assim não sucumbem aos interesses excludentes de grupos ou de um tipo de cultura feroz que coloca a ambição acima da vida e da dignidade.

Chegamos a um ponto da história no qual todos nos descobrimos entrelaçados na única geosociedade. Sem a solidariedade de todos com todos e também com a Mãe Terra não haverá futuro para ninguém. As desgraças de um povo são nossas desgraças, suas lágrimas são nossas lágrimas, seus avanços são nossos avanços. Seus sonhos são nossos sonhos.

Bem dizia Che Gevara:"A solidariedade é a ternura dos povos". Essa ternura temos que exercer para com nossos irmãos e irmãs do Haiti que estão agonizando.

Leonardo Boff ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959. Professor de Teologia e Espiritualidade em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior, além de professor-visitante nas universidades de Lisboa (Portugal), Salamanca (Espanha), Harvard (EUA), Basel (Suíça) e Heidelberg (Alemanha). Esteve presente nos inícios da reflexão que procura articular o discurso frente à miséria e à marginalização com o discurso da fé cristã, gênese da conhecida Teologia da Libertação.

Domtotal.com

BRASÍLIA: visita de solidariedade ao Haiti

Brasília, 15 abr (RV) - O Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias no Brasil, Pe. Camilo Pauletti, passou uma semana no Haiti, tendo contato com as dificuldades, experiências e esperanças do povo haitiano.

"O nosso objetivo foi avaliar a situação do povo e da Igreja no Haiti, a fim de estabelecer uma comunhão e presença, manifestando solidariedade no espírito missionário", disse o sacerdote. Participou também da visita ao Haiti, a presidente da Conferência dos Religiosos Brasileiros (CRB), irmã Marian Ambrósio.

Através do contato com o povo haitiano, Pe. Pauletti pode ver a realidade do país após o terremoto de 12 de janeiro de 2010. "Conviver com a Igreja no Haiti por uma semana foi importante porque favoreceu a sintonia, o sentimento de preocupação, o comprometimento e a promoção do apoio concreto" – disse ele.

Apesar da dor ainda presente no rosto do povo haitiano, o Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias no Brasil também viu sinais de esperança no país. "Os desafios são muitos, mas a solidariedade do povo haitiano se manifesta na tentativa de salvar vidas e partilhar o pouco que tem" – frisou ainda Pe. Pauletti.

Segundo o sacerdote, está em andamento uma campanha promovida pelas Pontifícias Obras Missionárias no Haiti, que envolve crianças e adolescentes na plantação de árvores.

A presença de seis religiosas brasileiras enviadas ao Haiti está produzindo bons resultados. "É uma presença bonita que incentivou o povo haitiano a superar os desafios e a pobreza, agravada pelo terremoto", disse Pe. Pauletti.

"As irmãs realizam pequenos projetos sociais como, plantações de hortas comunitárias, ensinam corte e costura, orientam as mulheres grávidas e trabalham na comunicação com o povo. Elas não possuem nada e partilham a mesma vida do povo haitiano, e buscam ser um sinal de vida para as crianças e jovens", ressaltou Pe. Pauletti, que durante a sua estada no Haiti conheceu também a Missão de Belém, um grupo composto por cinco jovens brasileiros que vivem junto com o povo haitiano dando testemunho de vida cristã. (MJ)

Rádio Vaticano
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