Mostrando postagens com marcador San Francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador San Francisco. Mostrar todas as postagens

“Nós não cortamos a água, premiamos o bom comportamento”

Paula Kehoe, diretora da Comissão de Utilidades Públicas de San Francisco.

28/04/2015

Califórnia, nos EUA, enfrenta as primeiras restrições obrigatórias de consumo de água

Paula Kehoe é a Jerson Kelman, presidente da Sabesp, de San Francisco. A cidade da Califórnia (EUA), dependente das precárias reservas de água e neve, atravessa a quarta crise hídrica da sua história e o governador do Estado, Jerry Brown, acaba de decretar as primeiras restrições obrigatórias da história do Estado. O Governo pretende reduzir em 25% o consumo urbano, menos do que a economia conseguida em São Paulo em média nos últimos meses.

A Comissão de Utilidades Públicas, a Sabesp de San Francisco, é inteiramente pública e atende 2,6 milhões de pessoas. O tamanho dela está muito longe da abrangência da Sabesp que deve cuidar do consumo de 25 milhões de clientes na Grande São Paulo, e longe estão também algumas estratégias adotadas na crise. Na Califórnia, a obrigação de economizar água não é compulsória para todos. A exigência feita a cada município depende do seu consumo. Assim, o esforço cobrado é maior de quem economiza menos. Embora dois terços do consumo da água seja residencial, o Governo do Estado mais rico e populoso dos Estados Unidos está se focando em outros usos. “No caso de San Francisco, nosso foco está na irrigação e no uso de água potável para coisas supérfluas como o jardim ou a limpeza das calçadas”, afirmou Kehoe durante o seminário de Gestão da Água em Situações de Escassez, organizado pelo Ministério de Meio Ambiente.

Pergunta. Como a população tem reagido à obrigatoriedade de reduzir entre 10% e 35% do consumo?

"No caso de San Francisco, nosso foco está na irrigação e no uso de água potável para coisas superfluas como o jardim ou a limpeza das calçadas"

Resposta. Em 2014 já estabelecemos uma redução voluntária de 10%, não oferecemos bônus nem castigamos com multas. Os únicos que foram e são penalizados são os que gastaram mais água que o permitido na irrigação. A população respondeu bem porque nós sempre estamos nos jornais, em campanhas na televisão, fazemos audiências públicas... Hoje as restrições em San Francisco ainda são voluntárias porque temos um consumo baixo. É uma das cidades que menos gasta do Estado, não aumentou a demanda, e não vai precisar reduzir mais neste ano. As pessoas estão respondendo bem, então não temos por que puni-las.Os californianos entenderam que não tem chovido, não tem nevado, entenderam a gravidade da seca.

P. Como são tomadas as decisões em uma empresa pública? Quem manda, o governador ou os técnicos?

R. O governador manda, o órgão regulador aprova e repassa as diretrizes para a companhia. No caso da redução do consumo obrigatória, o governador disse que havia que cortar e o conselho da companhia decidiu como devia ser aplicada esta redução de consumo e estabeleceu os percentuais de corte exigidos por município. Nem todos devem reduzir o consumo da mesma forma. San Francisco, por exemplo, não tem que cortar, mas há outros municípios que devem reduzir até 36%. Nós premiamos o bom comportamento dos consumidores.

P. Qual é o impacto econômico das medidas restritivas?

R. Nosso programa vai trazer uma perda de receita de 60 milhões de dólares até 2025. Isso é muito, mas é melhor ter um custo pela aplicação do programa de economia do que fazer investimentos ou comprar água fora. Acabamos de aumentar a tarifa, mas por projeções de longo prazo e não baseados na seca. Temos vendido propriedades para suavizar a situação econômica no curto prazo, mas provavelmente vamos ter que aumentar o custo fixo da produção de água [e revisar de novo a tarifa].

P. São Paulo mantém os chamados contratos de demanda firme que oferecem grandes descontos aos clientes que mais consomem. Existe algo parecido na Califórnia?

R. Os únicos contratos especiais que nós temos foram criados em 2009 para as 27 companhias que compram nossa água. Nós aplicamos várias tarifas conforme o consumo e quanto mais consomem mais pagam.

P. O que acha dessa fórmula?

R. Prefiro não opinar.

P. O que significa para um californiano a palavra “racionamento”?

R. Nós temos racionamento voluntário, quando o próprio cliente reduz seu consumo até um mínimo diário ou racionamento obrigatório, quando é determinada uma quantidade máxima para ser usada. Na crise da década dos 90 já tivemos racionamento para a população, hoje é só para a irrigação.

P. Existe a redução de pressão em San Francisco? Poderia ser uma alternativa?

R. Nós não cortamos a água. Poderia ser uma alternativa, mas só para os consumidores que não reduzem seu consumo. Poderíamos fazê-lo, mas não está nas nossas previsões.

P. O que sabe da crise hídrica de São Paulo?

R. Me interessa o conceito de bônus que aplica a Sabesp. Gostaria de saber mais sobre isso. Teremos várias reuniões nesses dias [na Sabesp, na Agência Nacional de Água...] para ver como podemos aprender com essa troca de experiências.

Fonte: El País


Poupar e educar: as armas de San Francisco contra a seca

Grave seca que atinge San Francisco há três anos obriga moradores a se adaptar
Crédito: BBC Brasil
24/02/2015

Em San Francisco, na Califórnia, os restaurantes deixaram de servir água aos clientes automaticamente, e agora só recebe um copo quem o pede ao garçom. Nos subúrbios da cidade, moradores começam a trocar seus gramados por plantas nativas que dispensem irrigação ou até por grama artificial.

As duas mudanças de comportamento são os efeitos mais visíveis em San Francisco da grave seca que há três anos atinge o mais populoso Estado americano.

Entre os san-franciscanos, porém, a falta de chuvas parece preocupar bem menos do que entre os paulistanos. Afinal, com o reservatório que abastece a cidade com 56% de sua capacidade, San Francisco lida com a seca numa posição muito mais confortável que São Paulo, onde o sistema Cantareira opera na reserva técnica desde maio de 2014.

O relativo conforto foi conquistado à custa de um esforço após graves estiagens nas décadas de 1980 e 1990, quando San Francisco enfrentou racionamentos e teve de remodelar a gestão de suas águas. Os episódios alertaram autoridades e moradores sobre a importância de poupar o recurso e puseram o tema na agenda das escolas da cidade.

'Políticas agressivas'

Nos últimos 20 anos, o consumo médio de água por pessoa em San Francisco caiu 12% e hoje é o mais baixo da Califórnia.

Mesmo assim, quando em 2013 a seca se agravou e o prefeito Ed Lee pediu aos moradores que reduzissem o uso de água em 10%, a cidade foi além e baixou seu consumo em 14%. A meta só era obrigatória para quem usava água para irrigação; entre os demais consumidores, a redução foi voluntária.

Não houve até agora racionamentos e, como voltou a chover nos últimos meses, acredita-se que a medida será evitada também neste ano.

"Pode parecer simples demais, mas nossa estratégia principal tem sido poupar a água", diz à BBC Brasil Tyrone Jue, diretor de comunicação da Comissão de Serviços Públicos de San Francisco, responsável pelo abastecimento de 2,3 milhões de moradores na região.

Entre as principais medidas adotadas pela comissão nos últimos anos, Jue cita a exigência de que donos de imóveis troquem vasos sanitários e chuveiros por modelos mais econômicos como condição para que possam vender os bens. Os bons resultados dessa política estimularam o governo da Califórnia a adotá-la em 2014.

San Francisco também passou a conceder descontos para os consumidores que substituíssem chuveiros, máquinas de lavar e privadas por equipamentos mais eficientes. E passou a investir na diversificação de suas fontes de água, até então restritas a uma represa no Parque Nacional Yosemite, no leste da Califórnia.

Hoje alguns parques, clubes e campos de golfe da cidade são irrigados com água de esgoto reciclada. San Francisco também começou a explorar um aquífero, que até 2016 deverá fornecer 15% da água potável distribuída aos consumidores.

Prédios inteligentes

Em seus esforços para reduzir o consumo, a prefeitura tem ainda dado incentivos fiscais para que novos edifícios instalem tecnologias verdes, como sistemas de captação de chuva e painéis solares.
A própria Comissão de Serviços Públicos de San Francisco se mudou em 2012 para um edifício projetado para ser um dos mais sustentáveis dos Estados Unidos.

Prédio da Comissão de Serviços Públicos foi projetado para ser 'sustentável'
Crédito: BBC Brasil

Ao custo de US$ 201,6 milhões (R$ 578 milhões), o prédio de treze andares é equipado com painéis solares, turbinas eólicas e um sistema de reciclagem de água. Ali a água que escorre nos ralos ou descargas é tratada no próprio edifício e reaproveitada para irrigar jardins no entorno.

Para Tyrone Jue, no futuro, edifícios com sistemas semelhantes poderão vender água reciclada a imóveis vizinhos ou trocá-la pela eletricidade gerada por painéis solares nessas unidades.

"Teremos um sistema de distribuição cada vez mais descentralizado, em que os consumidores dependerão menos das redes públicas e terão autonomia para tomar as decisões que lhes sejam mais vantajosas."

Na sala de aula

Em outra frente, a prefeitura tem contado com suas escolas para baixar ainda mais os níveis de consumo na cidade. Na escola municipal Ulloa, vizinha ao zoológico de San Francisco, alunos irrigam suas hortas com a água da chuva coletada por duas cisternas, construídas há dois anos.

Na escola municipal Ulloa, a água para regar hortas vem da coleta da chuva
Crédito: BBC Brasil

Além de ajudar a reduzir o consumo de água nas escolas da cidade em 43% desde 2013, medidas como essa mostram aos alunos a importância de poupar, diz à BBC Brasil a diretora da instituição, Carol Fong.

Nas paredes da escola, que tem 540 estudantes entre os cinco e doze anos, campanhas desenvolvidas pelos próprios alunos pregam que se economize água. Os cartazes têm frases em inglês e mandarim, já que a escola é bilíngue e formada, em sua maioria, por descendentes de imigrantes chineses.

"Ao planejar nossas ações pedagógicas sobre a seca, não queremos apenas ensinar aos alunos que eles devem poupar; queremos que eles levem os ensinamentos para casa e que a mensagem se espalhe por toda a comunidade", diz a diretora.

Moradora trocou o gramado natural por um artificial para poupar água
Crédito: BBC Brasil

Ao economizar água, os moradores de San Francisco não só se protegem de uma repetição dos racionamento das décadas de 1980 e 1990 como afastam um fantasma coletivo na cidade.
Em 1906, o grande terremoto que atingiu San Francisco foi seguido por um incêndio que destruiu quase todos os seus edifícios. Entre os moradores, conta-se que a cidade só foi consumida até o fim porque faltou água para apagar o fogo.

Fonte: BBC Brasil


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...