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Tecnologia australiana de despoluição de águas pode ser aplicada no Brasil

Em meio a críticas sobre a qualidade da água, Baía de Guanabara sediará o 
primeiro evento-teste para as Olimpíadas de 2016(Arquivo Agência Brasil)

29/06/2016

Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Testes feitos em parceria com pesquisadores da Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro, com o apoio da Universidade Curtin, da Austrália, mostraram que a tecnologia australiana The Water Cleanser pode despoluir águas de rios, lagoas, bacias e até da Baía de Guanabara. A tecnologia está aprovada em 15 países, tem 11 anos de mercado e patente mundial há cinco anos. Ela começou a ser aplicada em fazendas de ostras na Austrália, que são muito sensíveis à poluição, e demonstrou ser eficaz tanto no tratamento de água doce quanto de salgada.

O representante da tecnologia no Brasil, Joel de Oliveira, disse que os testes iniciais na Universidade Santa Úrsula conseguiram eliminar 75% das bactérias de tanques que reproduziam ambientes similares aos de rios e lagoas poluídas. Nessa pesquisa, foram usadas amostras de água da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde vão ocorrer provas de remo durante os Jogos Olímpicos Rio 2016.

Nos tanques, os níveis de coliformes foram reduzidos próximo de zero. “Os resultados têm sido 100% positivos e nos provam que podemos deixar lagoas, rios e baías limpas em um curto espaço de tempo”, afirmou o coordenador do projeto na Universidade Santa Úrsula, Bruno Meurer.

A tecnologia australiana para despoluição de águas está sendo lançada no país pela empresa Greenpolis, criada por três empreendedores brasileiros com o objetivo de desenvolver soluções para a prevenção e recuperação de danos ao meio ambiente.

Joel de Oliveira informou que o mesmo experimento será feito com amostras da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC), em conjunto com uma universidade da região. Estão em curso também negociações com outras universidades do país, com o mesmo objetivo de comprovar cientificamente a tecnologia australiana, que já resolveu problemas de águas poluídas nos Estados Unidos, no México, na Nova Zelândia, em Myanmar e na Tailândia, além da própria Austrália, onde a lei ambiental é bem rígida.

Oliveira disse que a tecnologia elimina qualquer possibilidade de surgimento de organismo estranho ao ecossistema daquele ambiente. “Em quatro semanas, já estava limpa a água nos tanques, na [Universidade] Santa Úrsula”, acrescentou.

A tecnologia usa oligoelementos, ou microminerais essenciais para os seres vivos, que facilitam para que as bactérias boas que já estejam no meio ambiente se reproduzam de maneira exponencialmente maior e mais rápido, limpando a água poluída. “Se tem uma lagoa, por exemplo, que está poluída, e se você parar de jogar esgoto ou qualquer outro tipo de poluição nela, ela vai ficar limpa, porque a natureza já tem as bactérias que vão comer hidrocarbonetos, gorduras, o esgoto propriamente dito. Só que isso pode demorar muito tempo”, comentou Oliveira.

A patente australiana agiliza o processo porque usa oligoelementos, como zinco e cobre, que ajudam as bactérias boas a se reproduzir e diluir mais rapidamente o dejeto nas águas. “Você não coloca bactérias na água, mas utiliza as bactérias que já estão ali. Você não traz nada criado em laboratório. Utiliza a natureza para limpar a natureza”. Joel de Oliveira confirmou que a tecnologia pode ser utilizada, inclusive, para a despoluição da Baía de Guanabara. Observou, entretanto, que “não adianta a gente tratar e a água continuar sendo poluída. A gente consegue mostrar para a população que a água vai ser tratada, mas é preciso que haja um projeto que estanque a entrada de esgoto na água”.

A intenção dos empreendedores brasileiros é oferecer a tecnologia a governos estaduais e a indústrias que usam muita água, como a cervejeira e a de papel. “A gente pode tratar a água antes e depois, de uma maneira natural, rápida e com melhor custo/benefício que existe”. Oliveira disse que empresas de saneamento básico, como a Sabesp, em São Paulo, a Pró-Lagos e a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), no Rio de Janeiro, que fazem tratamento de esgotos, podem reduzir acima de 30% seu custo operacional com a adoção da tecnologia australiana.

Edição: Graça Adjuto


Regata dirá se Rio conseguiu isolar veleiros da poluição



03/08/2014

Despoluição da Baía de Guanabara é objetivo distante, mas Estado e município fizeram mutirão para evitar que lixo flutuante cruze o caminho das embarcações que participam do primeiro evento-teste da Olimpíada de 2016

A partir deste sábado, dia 2, e durante a semana seguinte, 324 velejadores de todo o mundo estarão singrando a Baía de Guanabara na Regata Internacional de Vela, uma das maiores competições do mundo na categoria e o primeiro – e importantíssimo – evento-teste da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016. Em volta, terão o conhecido cenário de tirar o fôlego: Pão de Açúcar logo ao lado, Cristo Redentor mais ao longe, Aterro do Flamengo, ponte Rio-Niterói. Na água, porém, mora o perigo na forma de bichos mortos, colchões, eletrodomésticos e todo tipo de plástico que, vira e mexe, aparecem boiando na baía, ainda uma lixeira a céu aberto. Num esforço para impedir o encontro de veleiros com resíduos mal cheirosos – e a transmissão dessa imagem para o mundo, pesadelo número 1 da organização da Olimpíada –, a Secretaria do Meio Ambiente do estado e companhia de água e esgoto da região metropolitana uniram-se em mutirão nos últimos meses para tentar garantir a limpeza, pelo menos, dos trechos onde a regata vai acontecer. “Nosso trabalho era dar condições de navegação aos veleiros, e isso nós fizemos. Há metas mais ambiciosas para 2016, que também serão alcançadas”, afirma o secretário estadual da Casa Civil, Leonardo Espíndola, referindo-se ao compromisso do governo de que, quando a Olimpíada começar, 80% do esgoto que deságua na baía será tratado.

No esforço conjunto, os órgãos municipais cuidaram de ampliar o tratamento do esgoto procedente da cidade do Rio (52% hoje) e de Niterói (90%). Ao mesmo tempo, reformaram e reativaram quatro estações de captação de lixo subaproveitadas. A isso se juntou a compra, pela Secretaria do Meio Ambiente, de dez “ecobarcos”, coletores do lixo que boia na água, especialmente para o evento-teste de agora. Eles entraram em ação a partir de janeiro e, na semana da regata, serão reforçados por outras dez embarcações do gênero cedidas pela Petrobras e outras empresas. Essas medidas dariam conta, em teoria, de boa parte da limpeza (pelo menos da cosmética) da Baía de Guanabara, não fosse o fato de que só cuidam da metade dela que vai da ponte Rio-Niterói até o mar aberto. Na outra metade, a que banha a Baixada Fluminense e São Gonçalo, a maior parte do esgoto não é tratada. Pior: sequer há rede de esgoto abrangente. O resultado é uma montanha de lixo perenemente acumulada ao norte da baía. Os percursos da regata da semana que vem não passam por lá, mas a sujeira se move; e dependendo das marés e dos ventos,  pode se mover justamente na direção dos veleiros – e das câmeras de TV.

A limpeza da Baía de Guanabara nesta regata é ponto de honra para a organização da Olimpíada porque é exatamente lá, nesta mesma época do ano, que a vela vai disputar medalha em 2016. A reputação do local não favorece uma boa impressão. Em junho, o New York Times publicou longa reportagem sobre o lixo flutuante. Na semana passada, o australiano Matthew Belcher, medalha de ouro em Londres, num treino para a regata tirou foto de um cachorro morto boiando ao lado do seu veleiro. Há um ano, em uma competição pré-olímpica, um pedaço de plástico grudou no casco e prejudicou o desempenho de um barco. Velejadores brasileiros que conhecem bem a área frequentemente reclamam da sujeira e do esgoto que, tratado ou não, continua a ser lançado nela. “Como morador do Rio e coordenador técnico da equipe olímpica, espero que seja feito o possível para melhorar de fato o local de prova. As autoridades falam muito e fazem pouco”, dispara Torben Grael, brasileiro recordista de medalhas na vela.

Com belas praias interditadas aos banhistas há meio século, os projetos de limpeza efetiva da baía têm sido um sorvedouro de dinheiro público sem resultado visível – como o ambicioso Programa de Despoluição da Baia de Guanabara (PDBG), de 1994, que consumiu 1 bilhão de dólares antes de ser descartado por sua ineficiência. Com ou sem tratamento, nela se deposita o esgoto de 9 milhões de pessoas, um despejo dez vezes maior do que seu próprio volume. Diante da enormidade do problema, as medidas tomadas para a Olimpíada são um começo, mas não passam disso. Despoluir de verdade requer, além da remoção do lixo visível, tratar 100% do esgoto despejado em estações de alto grau de eficiência (nem todas são atualmente) ou desviá-lo para alto mar, dar fim ao lodo impregnado de poluentes e, feito isso, fiscalizar para que a sujeira não volte. Antes que isso aconteça, muita água (suja) ainda vai rolar.

Fonte: Veja



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