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NO DIA INTERNACIONAL DO MEIO AMBIENTE, BRASIL DÁ IMPORTANTES PASSOS NA IMPLEMENTAÇÃO DO RENOVABIO

O chefe geral da Embrapa Meio Ambiente, Marcelo Morandi durante a abertura da 
Audiência, juntamente com o Diretor da ANP, Aurélio Amaral e do Deputado Evandro 
Gussi (PV – SP), autor do Projeto de Lei que deu origem ao RenovaBio
Foto: Divulgação

06/07/2018

Governo aprova metas de redução de emissões dos combustíveis até 2028 e ANP avança na regulamentação do RenovaBio - Programa estratégico para a segurança energética e a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizou ontem, no Rio de Janeiro, Audiência Pública referente à Consulta Pública nº10/2018, sobre a nova regulamentação de credenciamento de firmas inspetoras, para a certificação e emissão do Certificado de Produção Eficiente de Biocombustíveis e da Nota de Eficiência Energético-Ambiental de biocombustíveis, no Programa RenovaBio.

O objetivo do Programa é aumentar a produção e o consumo de combustíveis renováveis no país – etanol, biodiesel, biogás e bioquerosene de aviação, que trará impactos positivos tanto para a segurança energética do país, quanto para a redução de emissões de CO2 no setor de transportes, com vistas ao cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris.

Foram objetos de avaliação nesta consulta pública a minuta de Resolução, que estabelece os critérios de funcionamento do Programa e a RenovaCalc, ferramenta de cálculo da intensidade de carbono e geração da Nota de Eficiência Energético-Ambiental dos biocombustíveis. A RenovaCalc foi desenvolvida pelo Grupo Técnico de Avaliação de Ciclo de Vida do RenovaBio (GT-ACV), coordenado pela Embrapa Meio Ambiente e composto por especialistas da Embrapa, CTBE, Unicamp e Agroicone.

A audiência, encerrada no início da tarde, teve ampla participação e recebeu contribuições de mais de 30 instituições e empresas de todos os elos das cadeias dos biocombustíveis.

Pela análise do superintendente de Biocombustíveis e de Qualidade de Produtos da ANP, Carlos Orlando da Silva que presidiu a sessão, a audiência foi “bastante positiva, e as ponderações apresentadas tiveram características propositivas de aperfeiçoamento dos atos”.

O chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, (Jaguariúna, SP), Marcelo Morandi participou da mesa de abertura no evento, juntamente com o Diretor da ANP, Aurélio Amaral e do Deputado Evandro Gussi (PV-SP), autor do Projeto de Lei que deu origem ao RenovaBio.

Na oportunidade, Morandi apresentou uma contextualização acerca da construção e funcionamento da RenovaCalc. De acordo com ele, “o processo de construção da proposta, baseado na transparência e no amplo diálogo com os diferentes atores envolvidos, direta ou indiretamente com o Programa RenovaBio, trouxe robustez e credibilidade à RenovaCalc, agora já em fase de lapidação final para entrar em funcionamento”.

A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Marília Folegatti, coordenadora do GT-ACV, participou da sessão de exposições, onde apresentou sugestões de ajustes na Resolução e na RenovaCalc. Conforme a pesquisadora, “o GT-ACV avaliou cuidadosamente os documentos da Consulta Pública e trouxe contribuições para aperfeiçoar a Resolução e a RenovaCalc, de forma a tornar o seu entendimento e execução mais claros, contribuindo para o sucesso do RenovaBio”.

No mesmo dia, em Brasília, em sintonia com a proposição do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o presidente Michel Temer aprovou as metas anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para os próximos dez anos, dentro do Programa RenovaBio.

As metas propostas e aprovadas pelo CNPE e agora também aprovadas pelo Governo Federal, preveem redução em 10,1% nas emissões de CO2 na matriz de combustíveis, passando dos atuais 74,25 g CO2eq/MJ para 66,75 g CO2eq/MJ, o que corresponde à remoção de 600 milhões de toneladas de CO2 da atmosfera até 2028.

No âmbito econômico, estima-se que o RenovaBio seja capaz de gerar investimentos de mais de 1 trilhão de reais e diminuir a importação de 300 bilhões de litros em gasolina e diesel até 2030 – os derivados de petróleo seriam substituídos pelo combustível renovável produzido no Brasil. O Governo também estima redução de, pelo menos, 0,84% do preço dos combustíveis ao consumidor até 2028.

Conforme explicou Miguel Ivan Lacerda, diretor de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), as ações ocorridas ontem são parte integrante do processo onde os diversos atores se articulam para “estabelecer uma nova política para os biocombustíveis no país, capaz de baratear os preços da cesta de combustíveis para o consumidor, proporcionar a diminuição da dependência de preço internacional do petróleo e a desvalorização cambial e ainda, gerar uma nova fonte de renda e emprego para os brasileiros”, disse.

Fonte: Embrapa


RenovaBio irá vincular CBios a sustentabilidade no uso da terra

Foto: Embrapa

19/04/2018

Para receberem créditos de descarbonização, usinas deverão produzir sem desmatamento

Miguel Ivan Lacerda de Oliveira¹
Marcelo Boechat Morandi²
Marília Folegatti Matsuura³ 
Marcelo Ramalho Moreira4

Quando o assunto é a redução de gases do efeito estufa (GEE) por biocombustíveis, o risco de aumento do desmatamento está entre as principais preocupações em nível nacional e internacional.

Em meados dos anos 2000, quando as primeiras políticas internacionais para produção de biocombustíveis começaram a ser elaboradas, houve uma grande mobilização na comunidade científica para investigar que impactos elas teriam na mudança de uso da terra (MUT) – termo técnico para designar todas as alterações no emprego da terra, incluindo desmatamento para uso agrícola – ao redor do globo. Diversas publicações científicas alertaram para o risco de aumento de emissões e, a partir de então, a consideração da MUT se tornou indispensável em políticas energéticas. Com isso, a pressão mundial para evitar que o desmatamento aconteça em decorrência da produção de biocombustíveis se tornou imensa.

Com a assinatura, em 14 de março de 2018, do decreto que regulamentou a Lei nº 13.576/17, da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), os próximos passos para a implementação do RenovaBio passam pela regulação do processo de certificação. Ela ocorrerá por meio de resoluções da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que definirão, por exemplo, o método de cálculo da nota de eficiência energético-ambiental – que, por sua vez, influenciará na quantidade de créditos de descarbonização (CBios) que cada produtor de biocombustíveis poderá emitir.

A nota de eficiência energético-ambiental será calculada por meio da RenovaCalc, ferramenta desenvolvida por pesquisadores especialistas em Avaliação de Ciclo de Vida. Entre as instituições envolvidas estão: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Agroicone.

Mas como o risco de aumento do desmatamento será tratado pelo RenovaBio? Os pesquisadores levantaram uma série de alternativas para consideração da mudança de uso da terra, tendo como base a literatura científica, as políticas vigentes e diálogos com os atores do setor produtivo e de certificação. Após alguns meses de trabalho, a proposta foi submetida à ANP no último mês de março.

Basicamente, os produtores de biocombustíveis terão de cumprir três critérios de elegibilidade para ingressar no programa e ter direito aos CBios:

1. Toda a produção certificada deve ser oriunda de área sem desmatamento após a data de promulgação da lei do RenovaBio (26 de dezembro de 2017)

2. Toda a área deve estar em conformidade com o Código Florestal, por meio da regularização do Cadastro Ambiental Rural (CAR)

3. As áreas de produção de cana e palma devem estar em conformidade com os zoneamentos agroecológicos da cana-de-açúcar e da palma-de-óleo, definidos pelos Decretos Federais 6.961 e 7.172, respectivamente. Essa é a configuração que atualmente está em análise pela ANP e que, em breve, será colocada em consulta pública.

Essa proposta apresenta uma série de vantagens quando comparadas com outras alternativas disponíveis. Nas políticas de biocombustíveis norte-americanas, a principal forma de abordar essa questão é por meio da adoção de fatores de mudança indireta de uso da terra (iLUC factors). Já na Europa são utilizados mecanismos de gestão de risco, como a definição de áreas vetadas para produção de biocombustíveis e a contabilização direta do uso da terra (dLUC).

As mudanças são consideradas diretas (dLUC) quando ocorrem dentro do sistema do produto avaliado e indiretas (iLUC), quando ocorrem como consequências da dLUC, mas fora do sistema de produto avaliado. Por exemplo, há dLUC quando a produção de cana ou soja se expande diretamente sobre pastagens e há iLUC quando essa pastagem se desloca para outras áreas.

Já o Brasil aparece como um destaque no contexto mundial quando se trata de políticas para ordenamento do uso da terra. Dono de uma vasta área de vegetação nativa – mais de 60% do território – e de uma agricultura pujante em expansão, o país definiu marcos legais únicos no mundo para conciliar produção agrícola e preservação ambiental, como por exemplo, zoneamentos agroecológicos, políticas de monitoramento e prevenção de desmatamento e o código florestal.

No caso do RenovaBio, o desafio consiste em definir uma estratégia que tenha reconhecido potencial de mitigação de emissões de GEE associadas a MUT, baixo nível de complexidade para implementação na primeira fase do programa, baixos custos de certificação para as unidades produtoras, forte embasamento técnico-científico, sinergia com políticas e programas de uso da terra em vigor no Brasil e internacionais, e capacidade de cumprimento e assimilação pelo setor produtivo.

As principais vantagens da proposta de tratamento de MUT no RenovaBio são apresentadas abaixo:

1. Garante um controle rigoroso da conversão direta de áreas de vegetação nativa, que consiste no tipo de mudança de uso da terra com maior potencial de emissões de GEE e de maior preocupação para a comunidade científica e sociedade em geral. Outros tipos comuns de MUT têm emissões de uma ordem de grandeza menores que a MUT de vegetação nativa para uso agrícola e são muito mais dinâmicos no tempo – por exemplo, a MUT entre pastagem, lavouras anuais e cana podem se alternar rapidamente ao longo dos anos. Dois outros tipos de MUT poderiam ter emissões mais altas: a conversão de uso com lavouras permanentes ou com silvicultura para culturas agrícolas anuais. No entanto, eles são relativamente raros no Brasil, considerando os outros casos.

2. Assegura o controle da expansão de biocombustíveis para áreas sensíveis ao seu cultivo, conforme definido nos zoneamentos agroecológicos e na lei de proteção da vegetação nativa. Esses instrumentos não permitem, por exemplo, a expansão de cana e soja sobre floresta Amazônica ou a sobreposição das áreas de produção com áreas de preservação, como Áreas de Preservação Permanente (APP). Tais casos estariam associados a um grande potencial de emissão de GEE e poderiam ser objeto de grande preocupação pela sociedade brasileira e internacional.

3. Está alinhada com instrumentos de ordenamento territorial já estabelecidos e assimilados pelos setores produtivos. Com isso, seu uso como critérios de elegibilidade beneficia produtores atentos a questões ambientais, os quais provavelmente não terão dificuldades de ingresso no RenovaBio, indicando uma alta capacidade de assimilação pelo setor produtivo.

4. Tem baixo custo de comprovação e certificação quando comparada a outras alternativas. Todos os critérios de elegibilidade podem ser verificados de forma remota por imagens de satélite ou outras fontes de informações disponíveis, como, por exemplo, o Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar), evitando, assim, alternativas que necessitam de verificações em campo, que podem ter custos muito altos.

5. Evita a adoção de modelos e métodos de maior complexidade e grandes incertezas metodológicas, como a estimativa de iLUC; a discriminação entre níveis de degradação de pastagens, tipos de vegetação nativa ou tipos de manejo de solo; e a verificação de estoques de carbono no solo. Tais incertezas poderiam desencadear grande insegurança jurídica, além de maiores custos e tempo para certificação e para a regulamentação do programa em si.

6. Resguarda o programa de críticas sobre a promoção da competição entre alimentos e combustíveis. Os usos da terra com cana-de-açúcar ou pastagens tipicamente apresentam estoques de carbono bem maiores que lavouras anuais alimentícias, como arroz e feijão. A adoção de modelos de dLUC propiciaria uma menor intensidade de carbono para a expansão de biocombustíveis sobre lavouras anuais, em detrimento da expansão sobre pastagens e, portanto, estaria premiando a competição com lavouras alimentícias, resultado indesejado em uma política pública dessa natureza.

7. Tem sinergia com vários padrões internacionais e literatura científica. A diretiva europeia e vários protocolos internacionais (como por exemplo, Bonsucro, ISCC e RSB) se valem de mecanismos de gestão de risco pelo estabelecimento de áreas sensíveis vedadas à expansão de produção de biomassa para biocombustíveis. Por outro lado, a adoção de iLUC factors tem sido alvo de grandes críticas e controvérsias na comunidade científica. Esse histórico dá à proposta apresentada robustez científica e política aos olhos internacionais.

8. É transparente e de simples comunicação para o setor produtivo e sociedade. A contabilização de MUT direta ou indireta envolve modelos complexos, de difícil compreensão por boa parte da sociedade, enquanto a adoção de critérios simples e de amplo conhecimento pode trazer transparência e facilitar a comunicação.

Em resumo, a proposta é suficientemente robusta para garantir segurança e baixo risco de emissões de GEE devido à MUT e, ao mesmo tempo, simples o suficiente para ser implementada. Se aprovada, ela tornará o Renovabio um importante vetor para promoção do uso sustentável da terra para produção de biocombustíveis e assegurará a manutenção da posição de destaque do Brasil na promoção da agricultura e matriz energética sustentáveis.

1 - Miguel Ivan Lacerda de Oliveira é diretor do Departamento de Biocombustíveis da Secretaria de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia (MME)
2 - Marcelo Boechat Morandi é pesquisador e chefe geral da Embrapa Meio Ambiente
3 - Marília Folegatti Matsuura é pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente
4 - Marcelo Ramalho Moreira é especialista do setor sucroenergético, energias renováveis, agronegócio e sustentabilidade e sócio do Agroicone

Com informações da  Embrapa Meio Ambiente


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