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JAC SSONE ALERTE, ENGENHEIRO HAITIANO: "NÃO PRECISAMOS ESPERAR O GOVERNO"

"Dialogar com pensamentos diferentes para construir um significado único é muito poderoso", 
diz o engenheiro haitiano Jac Ssone Alerte - Márcia Foletto / Agência O Globo

01/04/2018

Formado pela UFRJ, haitiano lançará, no dia 4, o livro ‘Reconstruindo um sonho’, sobre seu projeto de erguer 15 casas populares sustentáveis em seu país

Por Júlia Amin

“Tenho 32 anos, dez irmãos e nasci no bairro de Don De L’Amitié, no Haiti, numa condição miserável. Tive o privilégio de conseguir sair para estudar na UFRJ. Quero completar meu ciclo aqui para ajudar as pessoas de lá.”

Conte algo que não sei.

Construir de forma sustentável é visto como algo caro. Mas gastar um pouco mais no começo significa economizar no futuro. O biodigestor e a placa fotovoltaica são itens sustentáveis, que têm um retorno vantajoso a médio e longo prazos. O tijolo ecológico é diferente. Você constrói de forma mais barata, a matéria-prima para fabricá-lo não agride o ecossistema como um tijolo convencional, e o resultado é melhor. Não é bruxaria, é engenharia.

Na prática, quais são as vantagens desse tijolo?

O tijolo ecológico só usa solo arenoso, cimento, um pouco de cal e água. Ele permite o planejamento sistemático da construção. Cerca de um terço do tijolo cerâmico é descartado na obra. Isso é dinheiro. Ao colocar um tijolo ecológico sobre o outro, você dispensa argamassa. A parede fica uniforme e não é necessário reboco. Por ser fabricado a frio, sem queimar, pode ser feito no próprio lugar da obra, sem necessidade de energia elétrica. Seus buracos servem como estrutura para colocar os vergalhões, além de facilitar as instalações elétrica e hidráulica. Também deixa a casa mais fresca. Em uma semana, você sobe uma parede. Somando essas vantagens, no final, haverá uma economia de até 40% no custo da obra.

Muitos programas habitacionais não consideram as relações sociais entre as pessoas que vão habitar as moradias. Em seu projeto de construção de casas populares no bairro onde você morava no Haiti, isso é levado em consideração?

Para criar uma vila do zero, é preciso entender do que precisam aquelas pessoas, que sofreram com o furacão em 2016. Não estamos construindo uma moradia, estamos construindo um sonho. No Haiti, por causa dos desastres naturais, as pessoas pensam em segurança, em primeiro lugar, e no social.

Como você vai fazer isso?

Vamos construir a vila com a mão de obra local, empoderar a população com o mutirão. É um trabalho de educação. Não precisamos esperar o governo; sempre digo que o governo não consegue por si só resolver todos os nossos problemas. Até porque o equipamento público nunca chegou neste local. Temos que ensiná-los a fazer os tijolos e todos os processos da construção. Depois disso, você dá o exemplo para outras comunidades de que esse trabalho é possível, que não é preciso esperar o homem branco chegar para trazer melhorias.

Você acha que mutirão é a forma mais eficiente de construir moradias e de transformar as pessoas?

Sim, é uma estratégia se for bem coordenada. Precisamos de líderes visionários. Um projeto pode ser maravilhoso, mas ele precisa de uma engenharia social. No mutirão, não falamos só para a pessoa construir a casa, falamos: "Você é capaz de fazer por conta própria, unindo-se com seus vizinhos.” Dialogar com pensamentos diferentes para construir um significado único é muito poderoso. A pessoa se sente valorizada. Isso é educação.

O que já foi feito até agora?

São muitos desafios, porque a proposta começou do zero. Conversei com líderes locais e meu pai doou um terreno de 20 mil metros quadrados para o projeto. O segundo desafio foi planejar o bairro e reflorestá-lo. Plantamos várias árvores. Depois busquei conhecimento na UFRJ, mergulhei a fundo na técnica solo-cimento, e em como gerir pessoas. Agora busco gente e empresas para me ajudarem. Também vamos fazer um curso de capacitação para 20 haitianos que moram no Brasil e querem voltar. Todo valor arrecadado com a venda do livro vai para o projeto. Estou tentando captar recursos para tirar essas 15 famílias da situação vulnerável em que vivem, esse é o meu maior sonho.

Fonte: O Globo


“A minha escrita é negra, mas gosto de contos de fadas”

Roxane Gay nasceu nos Estados Unidos mas foi educada como haitiana: enorme, tatuada, 
sem maquilhagem, só a sua imagem já é uma provocação JAY GRABIEC

26/06/2015

Roxane Gay pertence à geração de escritores que está a fazer uma literatura vibrante nas Caraíbas. Vive nos Estados Unidos, mas diz-se, antes de mais, haitiana. O seu romance de estreia, Um Estado Selvagem, é uma descida ao inferno.

Não estamos perante uma escritora atormentada, apesar do tema do seu romance de estreia, Um Estado Selvagem, que agora é publicado em Portugal. É uma história dura sobre uma mulher raptada e violada no Haiti e uma reflexão sobre clivagens sociais e relações entre pessoas com uma interrogação muito premente: pode o amor sobreviver a um grande trauma (e como)? Na vida da protagonista deste livro há um antes e um depois, como há um antes e um depois do terramoto de 2010 no Haiti. É o país onde nasceram os pais de Roxane Gay e aquele a que a escritora sente pertencer apesar de ter nascido nos Estados Unidos há 40 anos e de escrever em inglês em vez do francês ou do crioulo que aprendeu a falar em casa e que foram fundamentais para definir a sua identidade.

Professora, escritora, blogger com grande actividade no Twitter, ensaísta, crítica literária, feminista, católica que contesta muitas opções da Igreja…, “tímida” ou “não fosse escritora”, Roxane Gay gosta da possibilidade da subversão. Ou seja, de saber que há varias possibilidades na vida.

Há quem leia na sua imagem e no que escreve uma provocação. Roxane faz-se ver e ouvir: é uma mulher grande, com os braços tatuados, sem maquilhagem, usa roupa larga e desportiva. Encontramo-la num hotel em Nova Iorque, vinda de São Francisco e, antes, de Monterrey, e, antes ainda, de Los Angeles... Muitos dias de viagem a fazer o que pedem cada vez mais aos escritores: que falem do que escrevem. Lamenta a falta de tempo para pensar e diz que esse lamento é afinal um bom problema para se ter quando sempre se desejou ser escritor. Está a habituar-se a essa imagem pública. Começa a ser reconhecida na rua fora da cidade onde vive (e onde ensina escrita criativa) no Indiana. Um sítio onde nada acontece, como sublinha, ao contrário do Haiti, que parece sempre poder ficar pior. Encolhe os ombros, mas nesse gesto não há uma ponta de conformismo. Para perceber tudo isso, nada como ler Um Estado Selvagem e partilhar uma conversa longa onde se fala de quase tudo. É uma tentativa para chegar ao indizível, ao impossível de escrever de que trata no seu romance.

Qual é a sua relação com o Haiti?

Os meus pais são haitianos, passei todos os meus Verões de infância no Haiti. Sou haitiano-americana. Cresci com uma identidade haitiana e isso é muito importante para mim. Mas como nasci nos Estados Unidos e sou muito americana, reclamo ambas as identidades. Quando era criança adorava o Haiti, achava que era um paraíso maravilhoso. Era muito bonito. À medida que fui crescendo, fui-me apercebendo de que há um outro lado do paraíso, de uma pobreza extrema, e comecei a sentir-me culpada e privilegiada por poder ir à praia, ter pessoas à minha espera com casa e comida. Este romance está muito próximo disto que descrevo; escrevi-o um pouco para reflectir sobre a cultura política e econômica do país. Há coisas fantásticas, mas há também verdades muito difíceis acerca das quais é preciso falar. 

Como esta informação que o romance nos dá acerca do momento em que a protagonista, Mireille, é raptada, no ano de 2008: “O Haiti havia ultrapassado a Colômbia como a capital mundial dos raptos”. Descreve uma epidemia de sequestros, uma quase doença nacional. Isso é próximo, conhece alguém vítima deste terror?

Infelizmente, depois de ter vendido o romance, a minha tia foi raptada e eu senti-me horrível; nunca teria escrito o livro depois disso. O maior ou menor volume de raptos depende do estado do país; quanto mais desafiantes estão as condições de vida em Port-au-Prince, mais raptos acontecem. Há um desespero crescente. O rapto da minha tia durou um dia e meio. Ela tem 60 anos e acha que a idade ajudou a que não fosse tão abusada, mas emocionalmente ficou muito afectada, até agora. Mas no geral, como o chefe dos raptores diz no início do romance, é uma transacção comercial. Os raptores levam uma pessoa, alguém paga, e eles devolvem a pessoa. 

Mas pelo que escreve não é assim tão simples. Mireille é raptada e fica refém 13 dias. 

Sim, é especialmente difícil no caso de mulheres jovens. Não sei se existem estatísticas oficiais, mas a percentagem das pessoas sexualmente abusadas em rapto é talvez de 40%. Uma vez que se ultrapassa essa barreira, há pouco a recuar e os crimes sucedem-se.

Fala das desigualdades. Sem querer desvendar, há um momento em que Mireille, filha de emigrantes ricos, corre por um bairro de lata e conclui: “Este é o Haiti que nunca vi ou conheci”.

Uma das coisas mais aflitivas em Port-au-Prince são as contradições: pessoas que têm os seus negócios e casas enormes ao pé de bairros de lata, casas feitas com pedaços de cartão, restos de chapas de carros... As pessoas constroem casas muito precárias com o que conseguem apanhar. Especialmente nos bairros de lata, assaltam-se postes de electricidade e é incrível ver as redes de fios eléctricos. Em certos sítios essas redes são tão cerradas que não se consegue ver o sol. A rua do romance é imaginada. Tentei imaginar o que seria percorrer uma rua dessas a correr, em que ela via uma parte de Port-au-Prince que nunca tinha visto. 

Outra vez as clivagens entre ricos e pobres.

Estou muito interessada nessas clivagens. Até hoje não entendo como é que quem tem meios vive tão calmamente ao lado de quem não tem nada e age como se o outro não estivesse lá. Mas é um problema tão devastador que não sabemos o que fazer e então temos de proteger-nos um pouco. O meu romance põe a questão: o que acontece quando não podemos proteger-nos e temos de nos confrontar com a questão? Essas clivagens e a violência que elas provocam estão por todo o lado. Aqui, nos Estados Unidos. Odeio quando as pessoas dizem que é um problema do Terceiro Mundo. Não é, é global. 

 
JAY GRABIEC

"Não entendo como é que quem tem meios vive tão calmamente ao lado de quem não tem nada (...). Odeio quando as pessoas dizem que é um problema do Terceiro Mundo. Não é, é global"
Roxane Gay
Como chegou a esta protagonista, Mireille Duvall?

Começou com um conto, Things I Know about Fairy Tales. Era uma história muito breve, mas a personagem não me abandonava, estava sempre a pensar no que poderia acontecer se uma mulher fosse raptada em Port-au-Prince. E continuava: o que seria ainda pior do que ser raptada? E se o pai se recusasse a pagar o resgate, mas não porque não tivesse o dinheiro? Depois de o conto ter sido publicado, achei que precisava de fazer alguma coisa com aquela personagem e decidi escrever o romance porque queria contar mais dessa história, mais do antes e do depois do rapto, e explorar a família e os raptores, imaginar como seriam.

Quanto tempo passou com Mireille?

Um Verão. Escrevia umas dez horas por dia durante quase quatro meses.

Isso parece obsessivo, tratando-se do livro que é.

Foi obsessivo. Sou professora e sabia que se não aproveitasse aquele período para escrever sem ser interrompida seria complicado fazê-lo. Foi uma imersão. E escrevi, escrevi, escrevi. Foi difícil, mas escrevi o livro que queria ter escrito. Gostei de estar esse tempo comigo e isso ajudou a escrever sobre temas tão brutais. Mas houve momentos em que dizia “ó Roxane, algo de errado se passa contigo”, e tinha de parar e fazer outra coisa: caminhar, limpar a cabeça, respirar ar fresco. As partes mais negras do rapto, quando ela está a ser violada e desfeita... Eu queria ser explícita, mas tinha também de respirar e de encontrar momentos em que deixasse o leitor respirar. Eram paragens em que tentava a reposta à pergunta: como continuar a partir deste momento?

A sua personagem também corre quando tem de resolver coisas importantes.

É verdade. Eu não sou uma corredora, sou uma caminhante. Quando estou a caminhar costumo ter boas ideias. Ouço a minha música e muitas peças do puzzle começam a encaixar-se. Foi um Verão trabalhoso mas divertido.

Nessa escrita de sexo e violência estamos num território delicado onde uma palavra a mais pode comprometer tudo. Como foi?  

Pensei no modo como a violência sexual é tradicionalmente escrita, muitas vezes demasiado estilizada ou limpa. Não queria isso. Decidi que iria escrever de forma explícita e não olharia para trás. Queria sim que o leitor olhasse para trás, que ficasse tão horrorizado que pousasse o livro. Queria uma reacção visceral. Não é uma coisa que se possa ler sem ser de forma visceral. Queria que o leitor tivesse o sentido do trauma. É algo que qualquer mulher pode imaginar. Mas não queria, jamais, que isso fosse ou parecesse gratuito, [que parecesse] o espectáculo da violência. Nada disso. Foi uma linha muito fina, aquela por onde tive de caminhar. 

Li num artigo que neste livro havia muito de catarse pessoal.

Há. Escrever sobre stress-pós traumático e mostrar que há consequências da violência que nunca se apagarão é uma forma muito boa de arrumar a cabeça. Muitas vezes, quando vemos violência na televisão ou no cinema, parece um processo muito limpo: uma coisa que acontece mas que acaba quando saímos. Não é de todo como funciona na vida. Muitas vezes o trauma fica para sempre. Foi muito catártico dizer que muitas vezes acontecem coisas muito más e que elas não te vão deixar nunca.

"A violência na televisão ou no cinema parece um processo muito limpo: uma coisa que acontece mas que acaba quando saímos (...). Na vida muitas vezes o trauma fica para sempre"
Roxane Gay
Há um antes e depois muito marcados. É um antes e depois pessoal, mas também colectivo: o trauma do rapto e o trauma de um terramoto. Uma pessoa e um país.

Sim, ainda que o terramoto colectivo não tenha sido o tema, mas ele está lá porque seria impossível não estar num romance como este em que a cronologia passa pela cronologia do terramoto. Sobre o depois dela, ela não tem escolha. Tem um instinto de sobrevivência e ama a família que a faz tentar um modo de regressar a si mesma. Demora, mas ela quer viver. Ela seria uma sobrevivente, isso sempre foi muito claro para mim. É uma mulher forte e eu queria explorar essa valentia, mostrar também que, mesmo que sejamos fortes, a fraqueza visita-nos. Por isso muitas vezes ela tomas as decisões erradas.

Ela diz de si mesma que é uma mulher difícil de amar.

Eu amo-a [risos], talvez ser alguém que baseei em mim. Acho-a fácil de amar. Isto é como eu sou, é pegar ou largar. Felizmente ela tem alguém que lhe pegou, que a ama. Ele também não é perfeito. Na minha cabeça eles funcionam como um conjunto.

Fala de Michael, o marido americano que parece perfeito.

Queria que parecesse. A minha escrita é negra, mas gosto de contos de fadas. E ele é uma espécie de príncipe perfeito, mas não há um guia de comportamento sobre o que fazer quando a nossa mulher for raptada. Ele erra. Eu queria um final feliz, mas a felicidade é mesmo muito mais difícil de escrever, pelo que se pode ver pela oferta ou na ficção mais popular. No início, o livro era muito mais negro. Depois a minha editora disse-me que o leitor estava numa jornada muito dura com a Mireille. O que é que eu fazia? Pensei muito e decidi que este era um livro sobre esperança e quis escrever o fim tão esperançoso quanto possível, sem negar a dificuldade daquilo por que ela passou.

E escolheu uma linguagem muito clara.

Sim, queria escrever com frases muito curtas e cruas, tentando captar o seu estado de espírito. Não queria que houvesse ambiguidade no que eu estava a dizer. Queria dizer mesmo o que se estava a passar, sem jogos ou mensagem subliminares. Tentei escrever da forma mais clara que consegui.

Também na descrição dos lugares. “Muitas vezes, o Aeroporto Internacional de Miami parece-se com Port-au-Prince: cheio de gente, quente e sempre em obras, embora nada dê a impressão de mudar. Toda a gente anda irritadiça, suada e a falar demasiado alto, muitas vezes a tentar levar demasiado para algum país empobrecido onde as pessoas têm demasiadas carências”; ou “O Aeroporto de Miami era um sítio horrível, concluiu, sempre a mandar pessoas para sítios de sofrimento ou a recebê-las de sítios desses.” Esta passagem vem de experiência pessoal?

Sim. Quando eu era criança houve um tempo em que vivíamos no Nebraska e íamos para Miami apanhar o avião para Port-au-Prince. Ficava sempre espantada com a quantidade de pessoas que ia e vinha para a América do Sul, para as Caraíbas. Chegavam e partiam com malas gigantes, malas que eram maiores do que eu os meus irmãos. Mais tarde entendi o que eram aquelas malas: levamos o que temos para aqueles que não têm. E quis captar aquele aeroporto como um lugar de transição, com as pessoas a levarem o pouco que têm para os que têm ainda menos. 

Este romance saiu quase em simultâneo com um livro de ensaios sobre o seu modo feminista de viver e de pensar. E é impossível não estabelecer algumas ligações entre ambos na denúncia de abusos, de preconceito. Chamou-lhe Bad Feminist e diz que escolheu o adjectivo bad (mau) porque se falha enquanto ser humano também falha enquanto feminista. Quando diz que é feminista, o que é que quer dizer?

Que as mulheres são iguais aos homens e merecemos ter o mesmo papel no mundo. Livres de assédio sexual, sem legislação sobre os nossos corpos e sobre as nossas opções reprodutivas, igualmente pagas por um trabalho igual... Nos Estados Unidos, por cada dólar que um homem ganha, uma mulher branca ganha em média 0,77. Se for uma mulher negra, a média baixa para 0,60 dólares. Se for uma asiática, sobe para 0,97 dólares. Isto é agora, na América. Tenho de continuar a lutar por estas coisas e de esperar que algo mude. Muita gente ouve a palavra feminista e ouve raiva. E muitos homens sentem-se culpados porque sentem que devem pedir desculpas pelo facto de terem nascido homens. Ninguém lhes pede para pedir desculpas. É uma palavra muito provocadora por alguma razão.

Escreve crítica. Ser escritor profissional e leitor profissional, uma coisa ajuda na outra?

Não sei. Mas é uma actividade que me toma tempo. Leio e sento-me com as palavras que li e penso sobre o que gostaria de dizer com o que acabei de ler, sobre como fazê-lo de forma a que seja útil para o leitor. Tento distanciar-me do crítico tradicional que diz “este é um livro bom e aqui está a razão pela qual acho isso”. Quero um ângulo mais interessante, por exemplo tentar enquadrá-lo um contexto social, ou numa história mais pessoal: “adoro ovos e este livro sobre ovos é muito bom”. A academia é importante e as teorias e os princípios da academia podem ser aplicados numa crítica que consiga servir os leitores e ser apelativa. Não é vergonha. Mostrar que se tem um vocabulário académico só prova que se é capaz de memorizar palavras. Usem bem essas palavras e então fico impressionada. Há muita discussão agora acerca do papel da crítica. Rio-me. Não tenho qualquer interesse nessa discussão. Há mais quem queira falar disso, eu vou continuar a fazer o que estou a fazer. Até posso entender que esses debates intelectuais sejam muito interessantes para algumas pessoas, mas aborrecem-me. 

Até que ponto a escrita se pode ensinar?

Não se ensina talento natural, mas ensinam-se regras básicas e procedimentos. Com os meus alunos, lemos muito e escrevemos muito. A minha função é dizer-lhes que têm de trabalhar, que não há outro modo, e se há é a excepção. Tento atraí-los lançando-lhes desafios e eles parecem gostar. Tento mostrar uma variedade de narrativas e de estilos, dou-lhes ficção contemporânea. Fico sempre surpreendida quando me dizem que não lêem ficção contemporânea. 

O seu romance foi publicado no Haiti?

Não. A França não o publicou e estas coisas vêm de lá. Há versões em muitos países, mas não em França.

Porquê?

Complexo de culpa. Colonizadores [gargalhada]! Não sei porquê, a edição em França é complexa. Mas saiu na Turquia, e isso foi uma surpresa boa. Sei que alguns haitianos já leram o livro. A primeira pessoa a quem o enviei foi Edwidge Danticat. Se ela não gostasse, não havia modo de eu ser publicada. Ela ajudou-me com o crioulo. Gostou do romance e isso significou muito para mim. Ela é “a” escritora haitiana. O meu principal receio era o que poderiam pensar os haitianos, mas até agora os que leram gostaram. 

Fonte: Publico.pt


Retrato do Haiti após as tragédias


Livro publicado nos EUA trata em profundidade catástrofes naturais e políticas de um país onde a diplomacia brasileira exerce papel destacado

Por Mauricio Santoro, no Todos os Fogos o Fogo

Este excelente livro de Paul Farmer faz um balanço da sequência de catástrofes humanitárias que assolaram o Haiti nos últimos 5 anos – furacões, tempestades tropicais, epidemia de cólera e um grande terromoto que talvez tenham matado 200 mil pessoas – e discute as falhas nas políticas de saúde pública, (re)construção da infraestrutura e geração de emprego, em meio a desdobramentos positivos na segurança e na estabilização política. É um debate que interessa muito ao Brasil, pela liderança que o país exerce desde 2004 na missão de paz da ONU no país.

Farmer é médico, professor de Harvard, e engajado em organizações de ajuda internacional, co-fundador da iniciativa Partners for Health, que tem exercido tarefas importantes em saúde pública em países como Haiti, Ruanda e Rússia. Seu parceiro na empreitada foi outro médico, Jim Kim, nomeado há poucas semanas presidente do Banco Mundial. Farmer também ocupou cargos em instituições globais, servindo como vice de Bill Clinton quando este foi representante especial da ONU para o Haiti. Conhecer suas perspectivas é importante para entender esse novo enfoque que liga medicina e políticas para o desenvolvimento.

A presença de Farmer no Haiti tem várias décadas e vem de uma razão familiar – ele é casado com uma haitiana. Juntos com profissionais de vários países eles criaram hospitais e clínicas no país, apoiaram instituições haitianas e fizeram parcerias com outras, no exterior. Em seu livro, ele narra a melhora da situação após a instalação da missão de paz e elogia a atuação dos militares e diplomatas brasileiros, cumprimentando-os por sua dedicação, capacidade de diálogo, e de improvisação diante das dificuldades burocráticas. Também há muitas referências positivas aos esforços de profissionais dos Estados Unidos, Canadá, Cuba e, claro, dos próprios haitianos.

O terremoto de janeiro de 2010 encerrou esse período de melhora. O Haiti é um dos países mais densamente povoados do mundo e a maioria das habitações é muito precária. O impacto do tremor foi devastador. A capital, Porto Príncipe, ficou destruída, assim como a maioria dos prédios públicos, incluindo o Palácio Presidencial – o governo passou a funcionar numa delegacia. Farmer relata os desafios assustadores das equipes de saúde: lidar com centenas de milhares de feridos em condições muito, muito precárias de infraestrutura, segurança e em meio a traumas emocionais. Muitos haviam perdido amigos e parentes, outros estavam machucados.


Devido à falta de moradia, os desabrigados tiveram que ser instalados em tendas, em campos improvisados que deveriam ser temporários. A maioria continua até hoje. Condições de saúde e higiene são ruins, e a insegurança é enorme, em particular com relação a mulheres, vítimas de violência sexual. As promessas de ajuda internacional para reconstruir o país não foram cumpridas, a maior parte do dinheiro nunca chegou e grandes parcelas foram para pagar os salários da burocracia humanitária. Contudo, o apoio externo foi crucial: a chegada de profissionais estrangeiros, de um navio-hospital da Marinha dos EUA, e a ida de pacientes haitianos para a América do Norte, para serem tratados por lá.

Farmer defende posições que já ouvi de diplomatas brasileiros – a de que um estratégia de desenvolvimento bem-sucedida parao Haiti deveria priorizar o fortalecimento do Estado, a única instituição capaz de executar projetos em todo o país. Ele chama a atenção para a necessidade de reflorestar o país, de modo a permitir a retomada de uma agricultura produtiva, e frisa o tamanho da precariedade da infraestrutura, em particular das habitações e das estradas. Há um excelente capítulo no qual Farmer compara o Haiti com Ruanda, cuja liderança política pós-genocídio foi muito bem-sucedida nas tarefas de reconstrução e crescimento.

O médico elogia bastante a capacidade da população haitiana em sobreviver às múltiplas catástrofes – naturais e políticas que abalaram o país. Dá o que pensar diante da política migratória brasileira, de restringir vistos para haitianos que queiram vir para cá.


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Haiti, depois do inferno



Título: Haiti, depois do inferno
Autor: Rodrigo Alvarez
Gênero: Livros Reportagem
Páginas: 120
Formato: 13,7 x 20,8 cm
ISBN: 978-85-250-4880-6





Na tarde de 12 de janeiro de 2010, o jornalista Rodrigo Alvarez, correspondente da TV Globo em Nova York, se preparava para viajar ao Alasca. Porém, com os relatos acerca de um abalo sísmico no Caribe, seu gélido projeto inicial transformou-se num mergulho direto no inferno. Já na manhã seguinte, rumava para o Haiti, com a missão de trabalhar na cobertura jornalística do maior desastre humanitário deste início de século.

No livro Haiti, depois do inferno, Rodrigo Alvarez traz o relato de quem acompanhou de perto os dias de dor e caos subsequentes ao terremoto que devastou a já precária infraestrutura do país mais pobre do continente americano. Com epicentro próximo à capital, Porto Príncipe, o abalo sísmico produziu imagens que horrorizaram o mundo, como a de milhares de corpos abandonados nas ruas sendo recolhidos por empilhadeiras e depositados em valas comuns.

Ao longo de 12 dias, Alvarez viveu o desafio de fazer jornalismo num país com infraestrutura de comunicação arrasada, além da devastação completa. Da movimentação no aeroporto até os trabalhos de resgate de sobreviventes em meio aos escombros, tudo é narrado neste livro sob o ponto de vista de quem passou quase duas semanas no olho do furacão.

O autor contextualiza seus relatos fazendo breves incursões pela história do Haiti, com seus 500 anos marcados por conflitos sangrentos, destruição ambiental e tensões sociais radicalizadas pela pobreza extrema. Um cenário difícil, que o terremoto de 12 de janeiro transformou em tragédia que não é só haitiana, mas também brasileira. Entre as cerca de 300 mil vítimas fatais, perdemos dezoito militares, um diplomata e a médica Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança. Isso sem contar o prejuízo incalculável ao trabalho de pacificação e estabilização social do Haiti, a cargo da missão de paz das Nações Unidas liderada por brasileiros desde 2004.


Fonte: Globolivros

Livro "A Ilha Sob o Mar"

Capa do livro A Ilha Sob o Mar por Isabel Allende
Resumo do Livro


Em fins do século XVIII, em Saint-Domingue, onde hoje é o Haiti, as plantações de cana-de-açúcar transformaram a ilha, de colonização francesa, na colônia mais rica do mundo. O açúcar era o ouro doce, e cortar cana, triturá;-la e reduzi-la a melaço não constituía trabalho de gente, mas de bicho, como diziam os plantadores.
Toulouse Valmorain acabara de completar vinte anos quando foi convocado com urgência à colônia. Não suspeitou que o destino lhe pregaria uma peça ao receber carta do pai aludindo a problemas de saúde nem que acabaria enterrado nos canaviais das Antilhas.
Ao assumir a administração da habitation Saint-Lazare, o jovem homem de letras, que pensava se dedicar à ciência na França, contratará; o cruel Prosper Cambray como chefe dos capatazes, comprará; Zarité, a pequenina escrava de nove anos de idade, para realizar trabalhos domésticos, se tornará; amante da mulata Violette Boisier e se casará; com a espanhola Eugenia García del Solar, com quem terá; o sensível Maurice.
A riqueza e a prosperidade farão de Valmorain o autêntico senhor de escravos. As agruras do trabalho nos canaviais, as chibatadas nos negros fugitivos correrão por conta do seu capataz. Em contrapartida, a ele caberão os prazeres na cama com a adolescente Zarité, que não conhecerá; a asfixia e o sofrimento das senzalas.
Mas Zarité — Tété — nasceu com boa estrela: órfã, recebeu amor paterno do velho escravo Zacharie, que a ensinou a dançar, pois “escravo que dança é livre... enquanto dança”, e aprendeu com Tante Rose, a mambo e “doutora de folhas”, os mistérios dos loas e os segredos para curar e amenizar a dor de seus irmãos de cor.
Apaixonou-se por Gambo, o belo escravo guerreiro, e com ele conheceu o amor. Teve quatro filhos e um neto. Cuidou de sua dona com zelo e dedicação. Tornou-se amiga do médico Parmentier, que queria saber os segredos das folhas para usar na sua medicina. Aprendeu com Père Antoine a praticar a caridade. E em toda a sua vida só teve uma única aspiração: a liberdade.
Ao ser levada pelo patrão para Nova Orleans, fugindo da devastação dos canaviais, Zarité conheceu uma nova etapa de sua vida. Hoje, do alto de seus quarenta anos, afirma que teve mais sorte do que as outras escravas, que viverá; muito, e sua velhice será; feliz porque a sua estrela — sua z’étoile — brilha também quando a noite está; nublada.

A autora


Isabel Allende, embora de nacionalidade chilena, nasceu em Lima, capital peruana, em 1942. Aos 17 anos inicia uma intensa carreira como jornalista e escritora. Em 1982, ela publica "A Casa dos Espíritos", que imediatamente a consagraria como uma das mais brilhantes escritoras da língua espanhola e a colocaria no rol dos escritores latino-americanos mais traduzidos. A fulgurante carreira literária de Isabel Allende prosseguiu com "De amor e de sombra", "Eva Luna", "O plano infinito", "Paula", "Cartas a Paula", "Contos de Eva Luna", "Afrodite", "Filha da Fortuna" e "Retrato em sépia", todos publicados pela Bertrand Brasil.

Gênero: Romance Estrangeiro (Veja mais livros do gênero)
Título Original: La Isla Bajo El Mar
Tradução: Ernani Ssó
Nº de páginas: 476
Editora: Bertrand Brasil
ISBN: 8528614441
Formato: 16 x 23 cm

Fontes: Editora Record, Livraria Saraiva e Sinopse do Livro

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