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Um olhar brasileiro para as dificuldades do Haiti

03/05/2016

Há um ano, no dia 28 de abril de 2015, o padre Rogério Mosimann da Silva chegou ao Haiti para reforçar a missão dos jesuítas brasileiro na capital do país, Porto Príncipe. O ex-capelão da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) voltou à instituição na última semana para dividir com antigos colegas, acadêmicos e comunidade o seu olhar sobre as dificuldades e belezas do local, que ainda luta para se reerguer do terremoto ocorrido no ano de 2010. 

Em uma fala descontraída e que a todo o momento era interrompida pelos participantes curiosos sobre as condições do país, Padre Rogério confirmou a vida difícil dos moradores de lá, que sofrem com problemas diversos como violência, escassez de energia elétrica e água, analfabetismo, corrupção dos representantes políticos, falta de oportunidades, deficiência ou inexistência de serviços de saúde. 

“Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pela população, é constante o sorriso no rosto, a alegria e receptividade”, avaliou. De acordo com o padre Rogério, um dos principais problemas atuais do Haiti vem sendo com a formação de seu governo. “Ainda não ocorreu as eleições diretas e o presidente substituto, que deveria ter convocado eleições gerais para o dia 24 de março, não o fez”, explicou. 

Para o ex-capelão da UCPel, assim como ocorre em vários países da América Latina, lá a classe política também se encontra distante do povo. “O Haiti ainda está dividido e sem uma grande liderança, por isso fica difícil criar uma estabilidade”, comentou. O ensino do país é privado e caro, o que torna alto os índices de analfabetismo por lá. “A saúde também é precária e é bom torcer para não ficar doente”, avaliou.

O padre Rogério também comentou sobre o papel da Igreja Católica no território. Para ele, apesar de iniciativas interessantes mas isoladas, a Igreja ainda não consegue estar à altura dos desafios que apresentam o país. “A população é predominantemente católica, mas cresce a presença de outras religiões como a Igreja Pentecostal e permanece a presença de religiões africanas como o vodu”, disse.    

Problemas estruturais 

Ainda é possível, e em especial no centro de Porto Príncipe, ver escombros e muita destruição. “De 2010 para cá, diminuiu muito a quantidade de entulho, mas a catedral e o Palácio do governo, por exemplo, ainda permanecem destruídos”. O trânsito, conforme contou, é caótico e a falta de energia elétrica faz com que não existam semáforos. Protestos desordenados também são frequentes, sem pautas específicas e geralmente acabam dando espaços para atos de violência.       

Passado ainda presente

Na avaliação de Padre Rogério, os graves problemas enfrentados pela população haitiana são anteriores ao terremoto e surgiram antes da sua independência da França. “O Haiti acabou com a escravidão 84 anos antes do que o Brasil. Devido a isso, pagou um alto preço porque outras nações escravistas não toleraram o exemplo de libertação impondo embargos econômicos, reprimindo e ameaçando a população”, avaliou. 

Retorno 

Nos planos de Padre Rogério, o Haiti deverá ser o seu lar até o ano de 2017, mas existe a possibilidade de prorrogar a estadia até 2020. Lá, o ex-capelão da UCPel desenvolve trabalho junto ao Centro de Espiritualidade, localizado em Porto Príncipe. A rápida visita à UCPel e ao Brasil se deu para comemorar o aniversário de 60 anos de casamento de seus pais, que moram na cidade de Curitiba. A integrante da Capelania, Manoela Neutzling, agradeceu em nome da Católica a presença do Padre Rogério, que veio a Pelotas apenas para rever os antigos colegas. “Queremos agradecer a visita do nosso capelão e sua generosidade de vir até aqui para dividir sua visão”, finalizou. Após a conversa, Padre Rogério resou uma missa na Capela Central do Campus I.      

Fonte: UCPEL

Haiti: sinais de esperança

Correio da Cidadania - [D. Demétrio Valentini] Era grande a expectativa de reencontrar o Haiti. O voo para Porto Príncipe, vindo de Santo Domingo, possibilitava enxergar o território da ilha que repartem em comum a República Dominicana e o Haiti. Já tinham nos advertido que a fronteira entre os dois países podia ser percebida do alto. Onde as montanhas estivessem desmatadas, começava o Haiti. Até isto ajudava para nos perguntar o que mais estaria pesando sobre o pobre país, atingido tão violentamente pelo terremoto do dia 12 de janeiro de 2010. Seria tudo igual, ou já poderíamos perceber alguma melhora?

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Foi um alívio ao sair do aeroporto. Já não havia tanta gente esperando por gorjeta. As ruas já estavam mais desobstruídas. Dava para identificar a satisfação do pedreiro arrematando o reboco de sua pequena casa. O povo parecia empenhado em seu trabalho. O tráfego fluía, embora confuso e sem orientação nenhuma. Havia, finalmente, sinais de esperança. Ainda estava muito presente a visão do ano passado, logo depois do terremoto. Parecia que o povo já não estava aturdido pela catástrofe, e começava sua lenta reação. Sim, a vida parece renascer dos escombros. O povo do Haiti está mostrando a força de sua garra e o poder de sua resistência às calamidades.

Verdade que no dia seguinte, indo para a solene celebração da ordenação episcopal do bispo auxiliar de Porto Príncipe e à posse do novo arcebispo da mesma arquidiocese, nos defrontamos, de novo, com panoramas constrangedores. Ainda existem quarteirões inteiros em completa ruína. Sobretudo com pequenas casas, de estrutura frágil, que sucumbiram inteiramente ao terremoto. Muita gente ainda se abriga em tendas, que existem aos milhares, espalhadas em quase todos os quarteirões da cidade. Há pequenos edifícios caídos, cujos destroços ainda se encontram amontoados, tal como os deixou o terremoto.

Sim, a recuperação da cidade levará muitos anos. Ainda pesa sobre o país o fardo desta tragédia descomunal. Por mais que o povo pareça ter se resignado ao tamanho da desgraça, e ter se motivado para a sua superação, o Haiti precisará por longos anos da solidariedade dos outros povos, que precisa encontrar a maneira adequada de ser exercida.

Mas o capítulo principal desta epopeia a ser vivida é, certamente, a retomada da consciência do povo, de sua identidade, do seu valor, de sua soberania que precisa se livrar de qualquer obstrução, de sua garra e de suas virtudes traduzidas em capacidade de resistência e criatividade de iniciativas.

Dois símbolos eloquentes da reestruturação do país estão na ordem do dia. No sábado, dia 26 de março, se realizou a ordenação de um novo bispo auxiliar para Porto Príncipe, e a posse do novo Arcebispo, na pessoa de D. Guirre Poulard. Finalmente, depois de mais de um ano da morte do arcebispo anterior, vítima do terremoto, a Igreja recompõe seus quadros ministeriais.

No campo político, o fato relevante são as eleições presidenciais. O segundo turno, realizado no dia 20 de março, aguarda a publicação do seu resultado para o mês de abril. Mas seja qual for o vencedor, ou o cantor popular Michel Martilly ou a mulher do atual presidente, Mirlande Manigat, o fato maior é que as eleições sinalizam para a retomada da normalidade democrática no país, que precisa ser conduzida com muita maturidade, para não reincidir em antigos equívocos.

A posse do novo arcebispo se deu na praça existente nas proximidades da catedral, que ainda se encontra em ruínas. Saindo de lá, passamos em frente ao antigo palácio do governo. Ele também está em ruínas, tal como o terremoto o deixou.

São dois símbolos que apontam para a mesma direção. A reconstrução será lenta.

Primeiro é necessário refazer a coesão nacional, com instituições respeitáveis e competentes. E garantir as condições mínimas de vida digna para o povo. Depois se farão também os edifícios públicos destinados a simbolizar as instituições.

Como falou o Arcebispo, no momento de sua posse, o povo do Haiti precisa se sentir desafiado a retomar, por si mesmo, a incumbência de sua reconstrução nacional. Mesmo que daqui a dez, vinte ou até trinta anos ainda não esteja tudo concluído. Como a própria catedral antiga, que levou mais de 40 anos para ser feita.

Mas o que mais comove, no meio desta desgraça de consequências tão visíveis, são as tragédias invisíveis, que só são percebidas no convívio com o povo sofredor. Dói o coração vendo tanta gente simples, sobretudo mulheres, muitas ainda meninas, vendendo na rua pequenos produtos agrícolas, tentando conseguir um dinheiro para a sua sobrevivência.

Nem todas conseguem. Como a pobre moça, que sucumbiu. Socorrida pelas Irmãs, constataram seu estado de profunda anemia. Tentaram de tudo para reverter o quadro, mas não deu. Tinha 21 anos. Ela morreu. De fome!

Ou o menino na escola. Como muitos, não conseguia minimamente se concentrar. Acabou confessando: já fazia três dias que não comia mais.

São dramas como estes que nos motivam para a urgência da reconstrução do Haiti. Ele continuará interpelando nossa consciência. Ele precisará de nossa solidariedade por muito tempo ainda.


D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales-SP.
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