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Trump arquiteta plano para tirar Estados Unidos do Acordo de Paris

15/11/2016

Myron Ebell é um nome que os ambientalistas que estavam em Paris no ano passado para a Conferência das Partes que conseguiu o Acordo Climático histórico, não  esquecem. Ele dirige a política ambiental do Competitive Enterprise Institute, uma organização em parte financiada pela indústria do carvão, e teve sua foto estampada em postes da capital francesa, apontado como um dos ‘sete crimtnosos contra o clima”. Pois foi justamente essa figura que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu para ser uma espécie de liderança em seu governo para lidar com a questão das mudanças climáticas.

Em seguida ao anúncio, a agência Reuters publicou uma reportagem na qual uma fonte diz, sob anonimato, que Donald Trump deu à sua equipe de governo a tarefa de procurar retirar, o mais cedo possível, a assinatura dos Estados Unidos do Acordo Climático incômodo, já que vai contra todas as suas convicções.  A equipe vai ter trabalho para fazer isso porque, segundo um editorial do jornal “La Vanguardia”  espanhol,  Barack Obama fez constar salvaguardas no Acordo, como a impossibilidade de qualquer dirigente do país renunciar ao compromisso adquirido antes de três anos a partir da data em que foi ratificado. Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores,  fizeram o anúncio do compromisso oficial assumido no dia 3 de setembro .

Segundo a fonte ouvida pela Reuters, o novo presidente da nação mais poderosa achou imprudente ratificar o Acordo pouco antes das eleições, sabendo que ele tem uma posição contrária.  Para Trump, o aquecimento global é uma fraude que foi inventada pela China para assumir o poder econômico mundial enquanto os Estados Unidos estancariam seu desenvolvimentismo em nome da limpeza do ar e das águas. A alternativa para o imbróglio será uma ordem presidencial que simplesmente exclua a assinatura dos Estados Unidos do Acordo.

Não custa lembrar que o Protocolo de Kyoto, um tratado assumido em 1997 para forçar os países industrializados a baixarem suas emissões de gases poluentes, não foi ratificado pelos Estados Unidos. E que em 2009, quando a Conferência do Clima realizada em Copenhague tinha tudo para conseguir, já ali, o acordo que só foi assumido seis anos depois, o presidente Barack Obama lançou um banho de água fria sobre as expectativas de todos, pois não conseguira o apoio no Congresso para lançar as bases de um acordo para baixar emissões e consumo de combustíveis fósseis. Logo, é muito provável que a decisão de Trump seja aplaudida por grande parte dos norte-americanos que não querem abandonar um padrão de vida baseado no consumo excessivo.

Não há menção direta sobre a reportagem da Reuters no site oficial da Conferência do Clima que está acontecendo no Marrocos até o dia 18 de novembro.  A atual responsável pelo Acordo Climático na ONU, Patricia Espinosa, se recusou a comentar a reportagem. Em entrevista coletiva, limitou-se a dizer que já há credibilidade suficiente no tratado ratificado até agora por 106 países.

Assim como há também maiores evidências de que, de fato, o aquecimento global está atingindo diretamente 82% da vida na Terra, segundo estudo publicado pela revista “Science” .  A Conferência do Clima que está acontecendo tentará definir, justamente, as normas de execução do Acordo de Paris e estabelecer um plano viável para fornecer pelo menos US$ 100 bilhões por ano aos países em desenvolvimento para apoiar a ação climática. É esta a maior questão, já que os impactos causados pelas mudanças climáticas, queiram ou não, serão sempre mais sentidos pelos países mais pobres.

Um estudo lançado sexta-feira (11) pelo Greenpeace Brasil, justamente para aproveitar o momento em que o tema está à tona por causa da COP-22, reforça esta convicção. Depois de analisarem dados de 46 relatórios, pesquisadores da ONG concluíram que “o combate às mudanças climáticas é, antes de tudo, uma questão de justiça social e a inação ou adoção de medidas insuficientes só farão aumentar ainda mais a terrível desigualdade que já assola o país”.

“Até 2099, a maior parte do território brasileiro estará sob estresse muito forte ou extremo em função do calor, caso haja um aumento médio da temperatura global de, no mínimo, 4 o C49.  Os impactos da elevação das temperaturas serão diversos para os brasileiros. Vários níveis de estresse por calor podem ocorrer devido a exposição a tempe - raturas acima de 38 oC, e as con - sequências podem envolver desde náuseas, dor de cabeça, vertigens, fraqueza, sede e tontura, até casos mais graves, como os de insolação e ataques cardíacos. Se a temperatura da Terra aumentar entre 2 e 5,4 graus até o fim do século, a Região Norte do Brasil sofrerá uma redução entre 242 mil e 15 milhões de hectares aptos e disponíveis para agricultura já em 2030.  A Região Nordeste, com exceção do Maranhão, teria em média poucos meses de chuva ao ano e baixa pluviosidade nos meses com mais chuva até 2040, o que significaria períodos mais secos com valores elevados de temperatura, valores baixos de umidade do ar e alta demanda hídrica. A Região Sudeste poderia sofrer leve redução de 349 mil hectares em sua área agricultável em 2030 e a Região Sul pode sofrer redução entre 4,9 milhões e 2,6 milhões de hectares aptos e disponíveis para agricultura em 2030”, diz o estudo.

O artigo escrito pelos ativistas ambientais Nicolas Haeringer e Tadzio Muller para o blog “New Internationalist” dá o tom do que virá daqui para a frente no campo de guerra entre os céticos e os não céticos do aquecimento global. É preciso, segundo eles, uma união cada vez mais fortalecida da sociedade civil no sentido de travar empreendimentos que precisem do uso abusivo de combustíveis fósseis. Exemplo desse tipo de tática, na prática, é o das 3.5 mil pessoas que conseguiram  fechar a mina de carvão a céu aberto Welzow-Süd e a usina Schwarze Pumpe, décima maior emissora de gás poluente da Europa, ambas na Alemanha.

As manifestações bem-sucedidas (até agora, ao menos)  foram bonitas, não houve violência. Mas também deixaram bem claro a diferença abissal de propostas entre ativistas de países que já têm sua economia mais ou menos resolvida e a de outros que lutam ainda para acabar com a miséria do povo. É disso que se trata, inclusive lá na Conferência que está acontecendo no continente africano, onde uma seca severa causou recentemente a morte de pelo menos 30 mil crianças e afetou um total de 12 milhões de pessoas, sobretudo na Somália. Consequência direta de fenômenos associados com a mudança climática. A luta, nesses países, é outra. E, até agora, não há registros de que tenha tido batalhas bem-sucedidas.

Fonte: G1


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